Os escravos que trabalhavam nas lavouras de Minas não recebiam o tratamento humano que os
ingleses da mineração de Morro Velho davam aos seus e a que nos referimos no capítulo
anterior. O tratamento era pelo geral dos mais duros e até de monstruosa insensibilidade
em muitos casos. A alimentação consistia no estritamente necessário para que os "fôlegos
vivos" (como eram chamados) não se enfraquecessem demais ou não morressem de
desnutrição, com grave prejuízo dos trabalhos que deles se exigia. Interessava ao
proprietário conservá-los, como às bestas de carga, em boas condições de uso.
A alimentação, quase sempre, não passava de feijão bichado e arroz mal cozido. Em
outros casos, a pobre besta escravizada tinha de se contentar com laranja, banana e
farinha de mandioca. E toca a trabalhar. Assim como ficou no nosso folclore:
Comida de negro brabo
Quatro laranjas num gaio
Uma cuia de farinha
Cinco ponta de vergaio
Os porcos tinham melhor alimentação, ou quando nada mais farta, porque era preciso
engordá-los para o abate. "Comida pouca e bem salgada, pro negro beber muita
água", tal era o mote de muito senhor.
Não faltava quem defendesse os fazendeiros contra as acusações gerais de maus tratos e
pior passadio, a que submetiam os seus escravos. Assim, se fazia, por exemplo, num
trabalho sobre a agricultura em Minas, publicado em várias edições do Correio
Oficial de Minas, em dias de outubro de 1859, sem constar o nome do autor, mas que
supomos ser do conselheiro Francisco de Paula Cândido. Dele retiramos os seguintes
tópicos:
"O escravo do fazendeiro nesta província tem uma alimentação que faria inveja
às classes indigentes da Europa e a muita gente livre que vive nas nossas velhas
cidades
A base da alimentação dos escravos é o feijão, e esse pão de farinha de
milho (fubá) sem fermento, a que damos a denominação pouco eufônica de angu. O
angu feito em um tacho com água quente, bem como o feijão, é dado ao escravo à
discrição, e há sempre tanta sobra que eles sustentam com ela seus cães. O toucinho
também lhes é fornecido para adubar o feijão. O escravo tem além disso, para seu
alimento as ervas, como mostarda e serralha que crescem espontaneamente em todas as
roças, as frutas, especialmente a laranja, que é de tanta abundância, em muitos
lugares, que apodrece desprezada debaixo dos pés. Tem muitas vezes carne, quase sempre
ele mesmo aumenta a sua cozinha com a caça, palmito, mandioca, batatas, etc. Quase todo
escravo tem a sua roça própria, que cultiva nos dias santos e outras vagas, da qual o
mesmo senhor compra-lhe os produtos nos anos de ruim colheita. Outros plantam fumo e
algodão, que vendem para a compra de roupas domingueiras e outras necessidades".-
Mais: "Além desses lucros lícitos, por via de regra, todo escravo roubava de
seu senhor."
Lembrava que era pelo geral bondoso o tratamento que os proprietários davam aos cativos,
ponderando:
"Não é exato, como se pretende, que o trabalho escravo seja excessivo, e basta
comparar por esse lado a sorte dos escravos nesta província com a dos jornaleiros das
fábricas da Europa, para se concluir que aqueles são mais felizes. A diferença está no
nome, se uns são escravos por lei, outros o são pela fome."
Citava a seguir as manufaturas de algodão na Inglaterra onde meninos desde a idade de
oito anos trabalhavam oito a dez horas consecutivas, tornando a trabalhar depois de duas a
três horas, e assim continuavam durante semanas. Para tê-los acordados, castigavam-nos
com cordas, chicotes e às vezes com pauladas nas costas e na cabeça.
Vejamos como se tratavam os cativos numa fazenda típica do centro de Minas, pelo meado do
século passado. Fazenda importante, a do major Mascarenhas. Possuía mais de centena e
meia de escravos de ambos os sexos. A vida a que estavam ali sujeitos, dando-se crédito
ao que nos informa Paulo Tamm (A família Mascarenhas e a indústria têxtil em Minas.
Belo Horizonte, 1940, p. 65 obra reeditada com o título Uma dinastia de
tecelões. Belo Horizonte, 1960), era bem melhor que na maior parte das fazendas. Um
sino os despertava antes do romper do sol. Formados em fila no terreiro, eram contados
pelo feitor e seus ajudantes, que logo a seguir rezavam uma oração, repetida por todos.
Distribuída a cada um a alimentação da manhã, partiam para as lidas da roça e
imediatamente homens e mulheres começavam o penoso labor. Às oito horas chegava o
almoço, trazido por escravas, composto de feijão cozido com gordura e misturado com
farinha de mandioca. Descanso de meia hora e, logo, continuação da labuta. Às duas
horas vinha o jantar: feijão com angu e couve, o mesmo todos os dias. Duas vezes por
semana, um pedaço de carne. Ao pôr-do-sol, regresso à fazenda. Passada a revista pelo
feitor, recebia cada um a ceia, que era um prato de canjica adoçada com rapadura.
O romancista Avelino Fóscolo, realista da escola de Zola, retraçou num quadro incisivo
os hábitos sociais duma fazenda da mesma região e aproximadamente da mesma época. Quem
sabe não era a mesma antes mencionada, que o escritor conheceu muito bem? Eis como, no
romance O mestiço, mostra os tristes escravos cevando-se como suínos na comida
que lhes é servida em pesadas vasilhas:
"Em baixo assomaram duas escravas trazendo o jantar. Os trabalhadores se
encaminharam à sombra de um jacarandá onde as mulheres depuseram gamelas contendo a
comida: angu em bolas endurecidas, quase petrificadas, e feijão intragável. Com avidez
de famintos, procurando cada qual maior quinhão, lançaram-se sobre os mal preparados
alimentos, comendo todos em promiscuidade, com as mãos imundas e numa voracidade de
animal selvagem."
Servia-se o jantar às duas horas. O almoço às oito, constara de feijão com farinha de
mandioca. Finda a refeição, o feitor acendia o cachimbo e os homens livres chupavam
compridos cigarros de palha, enquanto os cativos se privavam dessa distração, por
temerem o senhor.
Linguagem minudente, exata, é a que usa outro romancista mineiro, Gilberto de Alencar, em
Memórias sem malícia de Gudesteu Rodovalho, ao fazer-nos a descrição da comida
dos servos da gleba, numa fazenda para os lados de Capela Nova das Dores, perto de
Carandaí. Muito cedo, ainda no escuro, após ingerirem o gole de cachaça e a xícara de
café, eram os homens encaminhados para a roça pelo feitor. O almoço e o jantar eram
trazidos do sítio por um dos camaradas. Vinham num grande balaio contendo a panela de
feijão, o angu esparramado em largas folhas de bananeira, a abóbora moganga, a couve
rasgada, raramente um pedaço de carne de porco fresca ou salgada. Posto no chão o
balaio, todos se acocoravam em volta, enchiam as cuias, tomavam a colher de ferro
estanhado e iam sentar-se por ali, nos troncos derrubados, comendo em silêncio. Repetiam
uma e duas vezes. Iam depois às bananas ou ao leite com angu. Saciados, arrotavam
sonoramente, puxavam da faca, cortavam na palma da mão o fumo de rolo,
alisavam sem pressa a palha de milho, faziam o cigarro e batiam a binga, tirando o fogo.
À noitinha, no alpendre, tomavam outro gole de cachaça e outra xícara de café.
Inicia-se Uma história de quilombolas, de Bernardo
Guimarães, com um diálogo entre o chefe do quilombo e um negro que acaba de se
refugiar ali:
"- Então, malungo, está comendo tão caladinho!
Fala sua verdade, isto
não é melhor do que comer uma cuia de feijão com angu, que o diabo temperou, lá em
casa do seu senhor?
- E às vezes nem isso, pai Simão. Laranja com farinha era almoço de nós, e enxada
na unha de sol a sol.."
O romancista Godofredo Rangel (Vida ociosa) fala duma fazenda do sul de Minas, onde
havia tantos escravos, que davam de comer à molecada num cocho de que ainda no eirado
restam vestígios. "Despejavam ali dentro tachadas de canjiquinha e com uma
buzina convocavam a meninada esparsa. De todas as senzalas, da casa, da horta, negrinhos
acudiam correndo, como uma horda de capetinhas nus. E as mãos avançavam para a comida."
Com o fim da escravidão, não melhoraram as condições alimentares da população negra.
Em muitos casos, pioraram. Libertara-se de todo trabalho cativo e da dureza e maus tratos
dos senhores; tinha porém agora de ganhar o sustento mediante a iniciativa e o esforço
próprios, em condições penosas e difíceis. Muita gente de raça negra, esparsa pelos
sertões de Minas, tão falha de recursos se acha em muitos casos, que se nutre mal e mal
com o que a natureza avaramente lhe pode proporcionar: algum peixe, alguma caça, raízes,
palmitos e frutas do mato, como pequis (com suas castanhas substanciais), araçás,
goiabas, guarirobas, araticuns, cagaiteiras, pitangas.
O palhaço Benjamin de Oliveira, outrora famoso, filho de pretos, antigos escravos, conta
em suas Memórias (recolhidas por Clóvis Gusmão, em A Gazeta. São
Paulo, 02/09/1941) como curtira privações durante a infância em Pará de Minas: "Todos
ali sabiam disse que meus pais passavam dias e dias se alimentando
de abóbora e mingau de fubá".
(FRIEIRO, Eduardo. Feijão,
angu e couve. Belo Horizonte / São Paulo, Editora Itatiaia / Editora da
Universidade de São Paulo, 1982. Reconquista do Brasil (nova série), v. 72)
EDUARDO FRIEIRO nasceu em Matias
Barbosa, MG, no ano de 1892, falecendo na mesma localidade em 1982. Por sua iniciativa foi
fundada a Sociedade Editora Amigos do Livro, em Belo Horizonte. A partir de 1946, começou
a escrever artigos literários para o Estado de Minas e para o Diário de São
Paulo. Foi diretor da Biblioteca Pública de Minas Gerais. Publicou, entre outros
livros, Páginas de crítica e outros ensaios (1956), O diabo na livraria do
cônego e outros temas mineiros (1957), O alegre arcipreste e outras páginas da
literatura espanhola (1959), O romancista Avelino Fóscolo (1960) e Torre de
papel (1969).
(Grande enciclopédia
Larousse cultural)
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