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Ano I - novembro 1998 - nº 03

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 03
FESTANÇA
CANCIONEIRO

Cordel: A chegada de Lampião no céu, de Rodolfo Coelho de Cavalcanti

29 de novembro: dia do Café. Poesias populares recolhidas por Basílio de Magalhães.

A cantiga da rede, cantada em Inhaí, próximo de Diamantina, Minas Gerais, durante a condução de defuntos.

IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


O CAFÉ NA POESIA POPULAR

Certo estudante enviou à sua pretendida a seguinte:

Declaração

Assim como o inglês adora o chá;
Como o homem ama o café;
Como o moleque quer o buscapé;
E o baiano aprecia o vatapá;

Assim como o melado ama o cará;
Como o vigário gosta de rapé;
Como o soldado preza o seu boné;
E o poeta estima e louva o sabiá

Assim como a criança ama o cri-cri
Assim como o careca ama o chinó,
E o marinheiro adora o parati:

Como o guloso anseia o pão-de-ló;
Assim também te adoro muito! Xi!
Casa comigo, ó bela, e verás só!

A menina leu atentamente os singulares versos do estudante apaixonado e deu-lhe a seguinte:

Resposta

Sem ser inglesa, tomo também chá;
Sem ser roceira, gosto do café;
Sem ser moleque, adoro o buscapé;
Sem ser baiana, como vatapá;

Sem ser melado, gosto do cará;
Sem ser vigário, tomarei rapé;
Sem ser soldado, já usei boné;
Sem ser poetisa, adoro o sabiá;

Sem ser criança, brinco com cri-cri;
Sem ser careca, tenho meu chinó;
Sem ser marujo, estive em Parati;

Sem ser gulosa, como pão-de-ló:
Mas casar com você, que asneira! Xi!
Procure alguma tola, ou viva só!

O estudante achou graça no revide, e já se preparava para dirigir mais algumas rimas à sua benquerida, quando recebeu do pai da mesma o seguinte:

Recado

Tu sabes que o inglês adora o chá,
Assim como o roceiro ama o café,
E que o moleque estima o buscapé,
Tanto quanto o baiano o vatapá;

Tu sabes que o melado ama o cará
E que os vigários gostam de rapé,
Assim como o soldado ama o boné
E o inspirado poeta o sabiá;

Tu sabes que a criança ama o cri-cri,
Que o careca faz uso do chinó
E que o marujo bebe parati;

Sabes que ama o guloso o pão-de-ló:
Mas não sabes, talvez, que resolvi
Dar-te uma boa sova de cipó…

* * *

Quadrinhas

Não te dou chá
Porque não tem
Queres um beijo?
Vem cá, meu bem!

-Até no alto
Eu vou contigo
Do alto pra lá
Não tem perigo!

Ah! Quanto a isso
Muito obrigado
Não te dou café
Que não tem torrado

- Serviço bonito
É o da mulhé:
Sentada na porta
A fazê croché

Choquei galinha
Nasceu peru
Vendi mestiço
Comprei zebu

- A porta abre
A janela cai
A cabra morre
A morena sai

(quadrinhas recolhidas por Crispiniano Tavares, de um violeiro-cantador de Torres do Rio Bonito, GO, por ocasião da festa do Divino Espírito Santo)

* * *

Quem tivé fia bonita
Não mande apanhá café
Si fô menina, vem moça
Si fô moça, vem muié

Eu quisera sê penera
Na coieta do café
Pra andá dipindurado
Nas cadera das muié

Parece história, parece
Mas fantasia não é:
A vaca branca dá leite
E a preta é que dá café


(Magalhães, Basílio de. O café; na história, no folclore e nas belas-artes. 3ª ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1980. Brasiliana, v. 174)

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