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Ano I - novembro 1998 - nº 03

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 03
FESTANÇA
CANCIONEIRO

Cordel: A chegada de Lampião no céu, de Rodolfo Coelho de Cavalcanti

29 de novembro: dia do Café. Poesias populares recolhidas por Basílio de Magalhães.

A cantiga da rede, cantada em Inhaí, próximo de Diamantina, Minas Gerais, durante a condução de defuntos.

IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


CANTIGA DA REDE

Afonso Schmidt


Havia no arraial de Inhaí, próximo de Diamantina, o costume de conduzir os defuntos em padiola, ou bangüe, entoando-se cantigas de rede, adequadas ao ato.

Os mortos eram levados ao cemitério por grupos constituídos de amigos e parentes, quase sempre negros e mulatos, que carregavam o defunto em uma rede, como se usava em todo o interior do país, onde não se encontrava outro meio de transporte.

Ao caminharem, balançando compassadamente o corpo, entoavam melodias características. À frente do préstito, um crioulo, empunhando o bastão e fazendo trejeitos, puxava a melopéia para os demais que o acompanhavam em coro, repetindo sempre o estribilho, após cada uma das quadras:

Solo:
Amigos e companheiros
Vamos levar este irmão
Rezando todos contritos
Esta simples oração

Todos:
Padre nosso, Ave Maria
Uma reza abençoada
Se precisar descansamos
Na primeira encruzilhada

Solo:
Um segura, outro segura
Este corpo com cuidado
Até que o pobre chegue
No lugar determinado

Todos:
Esta estrada não é boa
Não é de desanimar
Vamos rezando e cantando
Para Deus nos ajudar

Solo:
Até que enfim que chegamos
Terminou nossa jornada
Apesar dos sofrimentos
Que passamos pela estrada

Todos:
Vamos depôr este corpo
No lugar que Deus marcou
Ajoelhemos e rezemos
Pelo pobre sofredor


(Afonso Schmidt, baseado em Rezende, Maria Angélica de Rezende. Nossos avós contavam e cantavam. Belo Horizonte, Imprensa Oficial, 1949. Em Apocalypse, Mary (org.). Estórias e lendas de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. 2ª ed. São Paulo, Edigraf, sd. Antologia Ilustrada do Folclore Brasileiro)

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