
Raul TorresEu tenho um mula preta
Tem sete palmos de altura
A mula é descanelada
Tem um linda figura,
Tira fogo na calçada
No rampão da ferradura.
Com morena delicada
Na garupa, faz figura
A mula fica enjoada
Piso só de andadura.
Ensino na criação
Vejo quanto se regula
O defeito no mulão
Se eu contar, ninguém calcula
Moça feia e marmanjão
Na garupa a mula pula
Chega a fazer cerração
Todo pulo desta mula
Cara muda de feição
Sendo preto, fica fula
Eu fui passear na cidade
Só numa volta que eu dei
A mula deixou saudade
No lugar onde passei
Pro mulão de qualidade
Quatro milhões enjeitei
Prá dizer mesmo a verdade
Nem satisfação eu dei.
Fui dizendo boa tarde!
Prá minha casa voltei.
Soltei a mula no pasto
Veja o que me aconteceu:
Uma cobra venenosa
A minha mula mordeu.
Com o veneno desta cobra
A mula nem se mexeu.
Só durou umas quatro horas
Depois a mula morreu
Acabou-se a mula preta
Que tanto gosto me deu

Assis Valente
Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar o seu valor
Eu fui a Penha e pedi a padroeira para me ajudar
Salve o morro do Vintém, Pendura-saia que eu quero ver
Eu quero ver o tio Sam tocar pandeiro
Para o mundo sambar
O tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
Anda dizendo que o molho da baiana
Mlhorou seu prato
Vai entrar cuscuz, acarajé e abará
Na Casa Branca já dançou a batucada com ioiô e iaiá
Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros
Que nós queremos sambar
Há quem sambe diferente
Noutras terras, outra gente
Num batuque de matar
Batucada, reuni nossos valores
Pastorinhas e cantores
Expressões que não tem par
Oh! Meu Brasil
Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros
Que nós queremos sambar


João da Baiana
Batuque na cozinha
Sinhá não quer
Por causa do batuque
Queimei meu pé
Batuque na cozinha
Sinhá não quer
Por causa do batuque
Queimei meu pé
Não moro em casa de cômodo
Não é por ter medo, não
Na cozinha muita gente
Sempre dá em alteração
Batuque na cozinha...
Então não bula na cumbuca
Não me espante o rato
Se branco tem ciúme
Que dirá o mulato?
Eu fui na cozinha
Pra ver uma cebola
E o branco com ciúme
De uma tal crioula
Deixei a cebola
Peguei na batata
E o branco com ciúme
De uma tal mulata
Peguei no balaio
Pra medir a farinha
E o branco com ciúme
De uma tal branquinha
Então não bula na cumbuca
Não me espante o rato
Se o branco tem ciúme
Que dirá o mulato?
Batuque na cozinha...
Eu fui na cozinha
Pra tomar um café
E o malandro tá com o olho na minha mulhé
Mas comigo
Eu apelei pra desarmonia
E fomos direto
Pra delegacia
Seu comissário
Foi dizendo com altivez
É da casa de cômodos
Da tal Inês
Revistem os dois
Botem no xadrez
Malandro comigo
Não tem vez
Mas o batuque na cozinha...
Mas, seu comissário
Eu estou com a razão
Eu não moro
Na casa da arrumação
Eu fui apanhar
O meu violão
Que estava empenhado
Com o Salomão
Eu pago a fiança
Com satisfação
Mas não me bota no xadrez com esse malandrão
Que faltou com respeito ao cidadão
Que é paraíba do norte
Do Maranhão
Batuque na cozinha...
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Noel Rosa/Vadico
Seu garçom faça o favor
De me trazer depressa
Uma boa média
Que não seja requentada
Um pão bem quente
Com manteiga à beça
Um guardanapo
E um copo de água bem gelada
Fecha a porta da direita
Com muito cuidado
Que eu não estou disposto
A ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado
Do futebol
Se você ficar limpando a mesa
Não me levanto
E nem pago a despesa
Vá pedir ao seu patrão
Uma caneta, um tinteiro
Um envelope e um cartão
Não se esqueça de me dar palito
E um cigarro
Pra espantar mosquito
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste uma revista,
um cinzeiro e um isqueiro
Seu garçom faça o favor de me trazer depressa...
Telefone ao menos uma vez
Para 34-4333
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório
Seu garçom
Me empreste algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o bicheiro
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure essa despesa
No cabide ali em frente

Wilson Baptista/Geraldo Pereira
Etelvina
Acertei no milhar
Ganhei 500 contos
Não vou mais trabalhar
Você dê toda a roupa velha aos pobres
E a mobília, podemos quebrar
Etelvina
Vai ter outra lua-de-mel
Você vai ser madame
Eu vou morar num grande hotel
Eu vou comprar um nome
Não sei onde
De marquês
João Góes Veiga de Visconde
Um professor de francês, mon amour
Eu vou trocar seu nome
Para madame Pompadour
Até que enfim, agora eu sou feliz
Vou percorrer a Europa toda até Paris
E nossos filhos
Oh, que inferno
Eu vou pô-los num colégio interno
Telefone pro Mané do armazém
Porque eu não quero ficar
Devendo nada a ninguém
Eu vou comprar um avião azul
Para percorrer a América do Sul
Mas de repente
Mas de repente
Etelvina me chamou:
Está na hora do batente
Mas de repente
De repenguente
Etelvina me acordou
Foi um sonho, minha gente

Denis Brean
Chegou o samba minha gente
Lá da terra do tio Sam com novidade
E ele trouxe uma cadência que é maluca
Pra mexer toda a cidade
O boogie-woogie
Boogie-woogie, boogie-woogie
A nova dança que balança
Mas não cansa
A nova dança que faz parte
Da política da boa vizinhança
Chegou o samba minha gente...
E lá na favela toda batucada
Já tem boogie-woogie
Até as cabrochas já dançam
Já falam do tal boogie-woogie
E o nosso samba
Foi por isso que aderiu
No amazonas, Rio Grande
São Paulo e Rio
Ao boogie-woogie
Boogie-woogie, boogie-woogie
Chegou o samba, minha gente...

Henrique Gonçalez
Amigo urso, saudação polar!
Ao leres esta hás de te lembrares
Daquela grana que eu te emprestei
Quando estava mal de vida
E nunca te cobrei
Hoje está bem e eu me encontro em apuros
Espero receber e pode ser sem juros
Este é o motivo pelo qual te escrevi
Agora quero que saibas como eu me lembrei de ti
Conjecturando sobre a minha sorte
Transportei-me em pensamentos ao pólo norte
E lá chegando sobre aquelas regiões
Vai vendo só quais as minhas condições
Morto de fome e de frio e sem abrigo
Sem encontrar em meu caminho um só amigo
Eis que de repente vi surgir na minha frente
Um grande urso, apavorado me senti
E ao vê-lo, caminhando sobre o gelo
Porque não dizê-lo?
Foi que me lembrei de ti
Espero que mandes pelo portador
O que não é nenhum favor
Estou te cobrando o que é meu
Sem mais queira aceitar um forte abraço
Deste que muito te favoreceu
(Eu não sou filho de judeu
dá cá o meu, dá cá o meu )

velas@jangadabrasil.com.br
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