Jangada Brasil – novembro 1998 – nº 03 – Oficina – Padre Machado

PADRE MACHADO

Eustórgio Wanderley

Não há muitos anos havia no Recife uma figura inconfundível de sacerdote que se tornou popularíssima: era a do padre Machado. Aliás, padre Manuel Machado. Poucas pessoas, entretanto, lhe sabiam o nome de batismo. Era conhecido apenas pelo nome de família. E ele costumava dizer, com o largo sorriso que lhe entreabria sempre os lábios grossos da boca franca das pessoas generosas e joviais:

– Eu sou um machado que não corta lenha. Salvo se for para botar no fogão dos pobres que não tenham com que ferver a água para o seu ralo cafezinho…

E assim era. Nesses momentos ele seria até capaz de se transformar de machado em lenha contanto que socorresse a um pobre.Jamais teve dinheiro seu

Sem ser franciscano, parece haver feito o voto de absoluta pobreza, nada tendo de seu, ou antes: o que tinha – o que lhe davam – pertencia aos necessitados. Por mais de uma vez, recebendo em envelope fechado a espórtula da missa que havia celebrado, a entregava toda, sem mesmo averiguar quanto continha – ao primeiro pobre que lhe pedisse uma esmola!

Os motoristas dos automóveis, que o conheciam e o estimavam, não lhe cobravam as viagens e, ao contrário, quando o encontravam a pé pelas ruas – sobraçando pesados embrulhos de mantimentos, de roupas usadas que ele pedia para distribuir aos pobres – o convidavam para tomar lugar nos seus carros. Igualmente os condutores dos bondes não lhe cobravam a passagem. Quando algum, não o conhecendo ainda, fazia a cobrança, o padre Machado depois de procurar em vão, nos bolsos da velha batina, dizia, sinceramente surpreso:

– E, não é que me esqueci do dinheiro?!… Vou descer do bonde…

E o condutor não consentia que ele descesse. Mesmo algum passageiro – e, às vezes, até mais de um – fazia questão de pagar a passagem do querido padre Machado, sempre despreocupado de si mesmo, tão grande era sua preocupação com a sorte dos infelizes.

Prevendo esses esquecimentos do filho, sua veneranda genitora lhe punha sempre no bolso alguns níqueis. Acontece, porém, que ele, chegando à rua e ouvindo o tilintar das moedas, as entregava aos primeiros pedintes que lhe estendessem a mão…

Levando a extrema-unção

Certa vez, alta noite, um grupo de rapazes boêmios o viu entrar em um sobrado… suspeito, na rua da Moeda. Esperaram que ele saísse para o pilheriarem.

E assim o fizeram. Padre Machado os ouviu em silêncio.

Chegando mais adiante, encontrou um guarda-noturno e pediu:

– Senhor guarda: Faça-me o obséquio de me acompanhar e mais alguns moços a um sobrado ali adiante…

O guarda o acompanhou. O grupo dos boêmios ainda ali estava, comentando, desprimorosa e maliciosamente, a entrada do reverendo naquele sobrado de má fama…

Aproximando-se do grupo lhe diz o padre:

– Quero pedir aos meus jovens amigos o favor de me acompanharem até lá em cima.

Os rapazes o acompanharam. Lá em cima depararam com uma pobre mulher morta, enquanto suas companheiras, ajoelhadas em volta do leito mortuário, rezavam, chorando… Apontando aquela cena pungente explicou o virtuoso padre:

– Vêem os nobres amigos? Vim aqui trazer Jesus Cristo, na extrema-unção, àquela pobre pecadora que acaba de falecer.

Os jovens boêmios não riram mais do padre Machado e, arrependidos do mau juízo que haviam feito, lhe pediram, humildemente, perdão.

(Wanderley, Eustórgio. Tipos populares do Recife antigo. 1ª e 2ª série, 2ª ed. Recife, Colégio Moderno, 1953-1954)

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