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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
No estado do Rio de Janeiro, as manifestações folclóricas vigentes no ciclo da
Quaresma, que se inicia na quarta-feira de Cinzas e termina no domingo de Páscoa, não
apresentam peculiaridades que as definam como nitidamente fluminenses. Antes, fazem parte
do conjunto de práticas comuns aos diversos estados brasileiros. Alguns fatos já estão
desaparecidos, outros, em vias de desaparecimento e muitos ainda presentes na crença e
atitudes das gentes deste estado.
O serra-velha, conhecido como serraçao-da-velha, é manifestação que persiste
principalmente no litoral sul, embora fosse freqüente em vários outros pontos. Aparece
durante o período da quaresma, sem dia certo, podendo ir atá sábado de Aleluia. Um
grupo de pessoas, usando disfarces e levando um pedaço de bambu grosso e um serrote, sai
pelas ruas, de madrugada, parando defronte das casas de pessoas idosas e faladeiras. Aí,
soltam gritos estridentes e gemidos lancinantes, enquanto serram o bambu.
Serra a velha! Serra a velha! grita alguém do grupo. A cena é rápida,
durando apenas o suficiente para ser percebida pela vítima e não permitir que o grupo
seja atingido pelos mais variados objetos que costumam ser arremessados das casas do
"serrado/a".
Durante o ciclo da quaresma, os hábitos alimentares sofrem modificações. O mais
freqüente é a substituição da carne por peixes. O bagre seco e salgado, chamado mulato
velho é muito consumido. O bacalhau também é muito usado, preparado de diversas
maneiras. A paçoca de amendoim com banana é também consumida nos dias de jejum e
abstinência de carne.
É no decorrer da última semana do período, ou seja, na Semana Santa, considerada a mais
importante, que se observa maior incidência de variadas práticas, religiosas umas,
profanas outras. A palma benta é uma destas práticas, com poderes miraculosos. No
domingo de Ramos, que inicia a Semana Santa, vai-se à missa para receber o ramo de
coqueiro ou palmeira, bento em cerimônia especial. Para tanto, toda a igreja é enfeitada
com ramos que são presos às suas colunas e paredes, sendo que alguns fiéis já levam de
casa os seus. À procissão todos levam um ramo à mão, simbolizando a entrada triunfal
de Jesus em Jerusalém. Quando ela termina, os ramos são bentos e distribuídos a todos.
Esses ramos são guardados cuidadosamente em casa e usados em momentos cruciantes. Quando
queimados, afastam as tempestades, trovões e relâmpagos; usados em chás, curam a
erisipela e no banho, têm o efeito de descarrego.
Em Parati, as procissões da Semana Santa transportam imagens do tamanho natural.
Sobrevive nos dias de hoje uma procissão chamada fogaréu em que os devotos caminham a
passos acelerados, transportando archotes e entoando benditos e ladainhas, algumas em
latim. Os devotos fazem esta cerimônia para rememorar a prisão de Cristo.
Na sexta-feira Santa, a procissão do enterro é o ritual mais significativo. Nela, o
esquife de Jesus sai pelas ruas acompanhado de figuras bíblicas três Marias Behu,
Verônica, que canta e desvenda o sudário com a imagem de Cristo, soldados romanos, o
Cirineu e outras entre os populares e, ao retornar à igreja a imagem é exposta à
veneraçao dos fiéis que passam silenciosamente à sua frente, beijando os seus pés.
Neste momento, efetua-se nova troca de dinheiro, já trocado e guardado desde o ano
anterior. Coloca-se este numa bandeja existente junto ao esquife, retirando-se então uma
moeda de pequeno valor. Esta é enrolada em papel e guardada cuidadosamente pelo fiel,
até o próximo ano, o que lhe garante não faltar dinheiro em casa até a próxima
sexta-feira Santa.
Várias outras crenças relacionadas com a sexta-feira Santa são observadas, como: não
matar bicho, não varrer a casa, não pentear nem cortar os cabelos, não tomar bebida
alcoólica, não comer doces; não se cozinha neste dia, a comida deve ser preparada de
véspera; para cortar as unhas dos pés, deve-se fazê-lo em sentido de cruz: a mão
direita corta as unhas do pé esquerdo e a esquerda as do pé direito. Tudo pode acontecer
nesse dia porque Cristo está morto e os duendes, os espíritos maus estão soltos e fazem
as maiores malvadezas. Evita-se até mesmo sair de casa para não se sofrer nenhum
malefício. A prisão e morte de Cnisto faz supor que "o mundo está sem
comando", o que incita o surgimento dos espíritos maus que povoam o universo.
Lobisomem, mula-sem-cabeça, o diabo são os que mais se prevalecem desse período de
inversão ou ausência da ordem estabelecida. Aparecem nas estradas, nos sítios, nos
largos, nas esquinas de ruas, na confluência das estradas, assustando ou agredindo os
descrentes. Há pessoas, até, que acreditam não serem levadas em conta as malvadezas
praticadas na noite da quinta para a sexta-feira Santa. Assim, costumam invadir quintais
para roubar frutas, destruir as plantas dos jardins, furtar aves ou outros pequenos
animais, que são depois preparados para o almoço de sabado de Aleluia. Neste dia
costuma-se convidar a vítima do roubo para partilhar da refeição, que é por isso
denominada almoço do pato.
As práticas populares prosseguem no sabado de Aleluia, dia destinado à malhação do
Judas, manifestação presente em todo o estado do Rio de Janeiro, quer nos diferentes
bairros da grande cidade, quer nos mais pacatos lugares da região interiorana. Numa
alegoria ao apóstolo traidor de Cristo, são feitos bonecos de roupas velhas masculinas,
recheadas com capim, palha, pano ou outro material, que têm a cabeça feita com uma
máscara e leva aos pés, às vezes, sapatos verdadeiros. Estes bonecos sao pendurados
durante a madrugada, por meio de cordas à semelhança de forca, em postes de
iluminação, árvores ou simplesmente em paus fincados para este fim. Seus autores são
anônimos. Muitos bonecos trazem no bolso ou pregado ao corpo, papel onde vêm escritas,
em verso ou em prosa, sátiras a pessoa que querem hostilizar, quase sempre políticos,
pessoas proeminentes, ultimamente porteiros e síndicos de edifícios que não gozem da
simpatia popular. Este testamento do Judas é lido solenemente em frente aos presentes,
adultos e crianças, quase sempre do sexo masculino e estes tentam adivinhar quem é a
vítima da brincadeira. Segue-se a malhação e a queima do Judas ocasionando esta, às
vezes, grandes estouros devido a bombas colocadas no interior do boneco. Todos os
presentes, em meio a grande algazarra que dura de doze às quinze horas de sábado, malham
o Judas com paus, varas, cabos de vassoura ou galhos de árvore encontrados na redondeza.
Muitos contos ou causos populares, transmitidos oralmente, enfatizam as crenças
relacionadas com a sexta-feira Santa. Um deles é a história de João Jiló, com
diferentes versões registradas em diversos pontos do estado do Rio de Janeiro. Uma delas
refere-se a um homem sem fé, o Joao Jiló, que na sexta-feira Santa, ao se levantar pediu
a sua mulher para matar uma galinha, porque naquele dia estava em casa e não tinha
trabalho. Ante a negativa da mulher que alegou respeito à sexta-feira Santa, ele resolveu
ir caçar um bicho para comer. Pegou a espingarda, entrou pela mata, mas não encontrava
nada. Já de volta, muito zangado e decepcionado, ouviu um passarinho piando. Armou a
espingarda e o matou. Ao pegá-lo o passarinho cantou:
João Jiló
Me mata devagar
Que eu sou rei cantador!
João Jiló, desapiedado, matou, depenou, fritou e cozinhou o passarinho, enquanto este
cantava a frase acima, referindo-se a cada ato praticado. Posto na panela, picado em
pedaços, o passarinho cantava e ia crescendo, crescendo até transbordar. João Jiló,
contente, disse: Vou me regalar!... Comeu uma imensa quantidade de carne
até a barriga ficar enorme. Depois de comer o último pedaço, de dentro de sua barriga,
o passarinho cantou:
João Jiló
Eu quero sair
Que eu sou rei cantador!
Joao Jiló respondeu:
Sai pela boca!
Não, pela boca eu não saio que tem cuspe!
O diálogo continua com as evasivas do passarinho para outras saídas sugeridas. Até que
João Jiló diz: Sai por onde quiser! O passarinho, agora um grande pássaro
vermelho, arrebentou a barriga do João Jiló e saiu voando. Era o demônio. Era o diabo
em figura de passarinho! João Jiló matou, depenou, fritou, cozinhou, comeu, desrespeitou
a sexta-feira Santa!... O diabo não morre... Ele deixou o João morto de barriga aberta e
foi embora, com certeza fazer outra, com outro igual a ele.
Inúmeras são também as lendas referentes a esse dia. Uma delas conta que, no município
de Cabo Frio, à meia-noite da sexta-feira Santa, sai do convento de Nossa Senhora dos
Anjos uma procissão formada por muitos padres que vestem túnicas brancas e trazem velas
acesas nas mãos. Depois de dar a volta ao morro da Guia, a misteriosa procissão retorna
ao convento de onde saiu.
(Folclore fluminense. Rio de Janeiro,
Departamento de Cultura / INEPAC / Divisão de Folclore, 1982, p.210-213)
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