Ano V - março  2003 - nº 55

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 55
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

setaquad.gif (95 bytes)A serpente kakurê e o tabu da virgindade entre os índios cariri, por Ademar Vidal.

setaquad.gif (95 bytes)As manifestações populares da Quaresma no estado do Rio de Janeiro.

setaquad.gif (95 bytes)Crendice entre os caçadores do sertão do Seridó, por Osvaldo Lamartine de Faria.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


QUARESMA


No estado do Rio de Janeiro, as manifestações folclóricas vigentes no ciclo da Quaresma, que se inicia na quarta-feira de Cinzas e termina no domingo de Páscoa, não apresentam peculiaridades que as definam como nitidamente fluminenses. Antes, fazem parte do conjunto de práticas comuns aos diversos estados brasileiros. Alguns fatos já estão desaparecidos, outros, em vias de desaparecimento e muitos ainda presentes na crença e atitudes das gentes deste estado.

O serra-velha, conhecido como serraçao-da-velha, é manifestação que persiste principalmente no litoral sul, embora fosse freqüente em vários outros pontos. Aparece durante o período da quaresma, sem dia certo, podendo ir atá sábado de Aleluia. Um grupo de pessoas, usando disfarces e levando um pedaço de bambu grosso e um serrote, sai pelas ruas, de madrugada, parando defronte das casas de pessoas idosas e faladeiras. Aí, soltam gritos estridentes e gemidos lancinantes, enquanto serram o bambu.

— Serra a velha! Serra a velha! — grita alguém do grupo. A cena é rápida, durando apenas o suficiente para ser percebida pela vítima e não permitir que o grupo seja atingido pelos mais variados objetos que costumam ser arremessados das casas do "serrado/a".

Durante o ciclo da quaresma, os hábitos alimentares sofrem modificações. O mais freqüente é a substituição da carne por peixes. O bagre seco e salgado, chamado mulato velho é muito consumido. O bacalhau também é muito usado, preparado de diversas maneiras. A paçoca de amendoim com banana é também consumida nos dias de jejum e abstinência de carne.

É no decorrer da última semana do período, ou seja, na Semana Santa, considerada a mais importante, que se observa maior incidência de variadas práticas, religiosas umas, profanas outras. A palma benta é uma destas práticas, com poderes miraculosos. No domingo de Ramos, que inicia a Semana Santa, vai-se à missa para receber o ramo de coqueiro ou palmeira, bento em cerimônia especial. Para tanto, toda a igreja é enfeitada com ramos que são presos às suas colunas e paredes, sendo que alguns fiéis já levam de casa os seus. À procissão todos levam um ramo à mão, simbolizando a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Quando ela termina, os ramos são bentos e distribuídos a todos. Esses ramos são guardados cuidadosamente em casa e usados em momentos cruciantes. Quando queimados, afastam as tempestades, trovões e relâmpagos; usados em chás, curam a erisipela e no banho, têm o efeito de descarrego.

Em Parati, as procissões da Semana Santa transportam imagens do tamanho natural. Sobrevive nos dias de hoje uma procissão chamada fogaréu em que os devotos caminham a passos acelerados, transportando archotes e entoando benditos e ladainhas, algumas em latim. Os devotos fazem esta cerimônia para rememorar a prisão de Cristo.

Na sexta-feira Santa, a procissão do enterro é o ritual mais significativo. Nela, o esquife de Jesus sai pelas ruas acompanhado de figuras bíblicas — três Marias Behu, Verônica, que canta e desvenda o sudário com a imagem de Cristo, soldados romanos, o Cirineu — e outras entre os populares e, ao retornar à igreja a imagem é exposta à veneraçao dos fiéis que passam silenciosamente à sua frente, beijando os seus pés. Neste momento, efetua-se nova troca de dinheiro, já trocado e guardado desde o ano anterior. Coloca-se este numa bandeja existente junto ao esquife, retirando-se então uma moeda de pequeno valor. Esta é enrolada em papel e guardada cuidadosamente pelo fiel, até o próximo ano, o que lhe garante não faltar dinheiro em casa até a próxima sexta-feira Santa.

Várias outras crenças relacionadas com a sexta-feira Santa são observadas, como: não matar bicho, não varrer a casa, não pentear nem cortar os cabelos, não tomar bebida alcoólica, não comer doces; não se cozinha neste dia, a comida deve ser preparada de véspera; para cortar as unhas dos pés, deve-se fazê-lo em sentido de cruz: a mão direita corta as unhas do pé esquerdo e a esquerda as do pé direito. Tudo pode acontecer nesse dia porque Cristo está morto e os duendes, os espíritos maus estão soltos e fazem as maiores malvadezas. Evita-se até mesmo sair de casa para não se sofrer nenhum malefício. A prisão e morte de Cnisto faz supor que "o mundo está sem comando", o que incita o surgimento dos espíritos maus que povoam o universo. Lobisomem, mula-sem-cabeça, o diabo são os que mais se prevalecem desse período de inversão ou ausência da ordem estabelecida. Aparecem nas estradas, nos sítios, nos largos, nas esquinas de ruas, na confluência das estradas, assustando ou agredindo os descrentes. Há pessoas, até, que acreditam não serem levadas em conta as malvadezas praticadas na noite da quinta para a sexta-feira Santa. Assim, costumam invadir quintais para roubar frutas, destruir as plantas dos jardins, furtar aves ou outros pequenos animais, que são depois preparados para o almoço de sabado de Aleluia. Neste dia costuma-se convidar a vítima do roubo para partilhar da refeição, que é por isso denominada almoço do pato.

As práticas populares prosseguem no sabado de Aleluia, dia destinado à malhação do Judas, manifestação presente em todo o estado do Rio de Janeiro, quer nos diferentes bairros da grande cidade, quer nos mais pacatos lugares da região interiorana. Numa alegoria ao apóstolo traidor de Cristo, são feitos bonecos de roupas velhas masculinas, recheadas com capim, palha, pano ou outro material, que têm a cabeça feita com uma máscara e leva aos pés, às vezes, sapatos verdadeiros. Estes bonecos sao pendurados durante a madrugada, por meio de cordas à semelhança de forca, em postes de iluminação, árvores ou simplesmente em paus fincados para este fim. Seus autores são anônimos. Muitos bonecos trazem no bolso ou pregado ao corpo, papel onde vêm escritas, em verso ou em prosa, sátiras a pessoa que querem hostilizar, quase sempre políticos, pessoas proeminentes, ultimamente porteiros e síndicos de edifícios que não gozem da simpatia popular. Este testamento do Judas é lido solenemente em frente aos presentes, adultos e crianças, quase sempre do sexo masculino e estes tentam adivinhar quem é a vítima da brincadeira. Segue-se a malhação e a queima do Judas ocasionando esta, às vezes, grandes estouros devido a bombas colocadas no interior do boneco. Todos os presentes, em meio a grande algazarra que dura de doze às quinze horas de sábado, malham o Judas com paus, varas, cabos de vassoura ou galhos de árvore encontrados na redondeza.

Muitos contos ou causos populares, transmitidos oralmente, enfatizam as crenças relacionadas com a sexta-feira Santa. Um deles é a história de João Jiló, com diferentes versões registradas em diversos pontos do estado do Rio de Janeiro. Uma delas refere-se a um homem sem fé, o Joao Jiló, que na sexta-feira Santa, ao se levantar pediu a sua mulher para matar uma galinha, porque naquele dia estava em casa e não tinha trabalho. Ante a negativa da mulher que alegou respeito à sexta-feira Santa, ele resolveu ir caçar um bicho para comer. Pegou a espingarda, entrou pela mata, mas não encontrava nada. Já de volta, muito zangado e decepcionado, ouviu um passarinho piando. Armou a espingarda e o matou. Ao pegá-lo o passarinho cantou:

João Jiló
Me mata devagar
Que eu sou rei cantador!

João Jiló, desapiedado, matou, depenou, fritou e cozinhou o passarinho, enquanto este cantava a frase acima, referindo-se a cada ato praticado. Posto na panela, picado em pedaços, o passarinho cantava e ia crescendo, crescendo até transbordar. João Jiló, contente, disse: — Vou me regalar!... — Comeu uma imensa quantidade de carne até a barriga ficar enorme. Depois de comer o último pedaço, de dentro de sua barriga, o passarinho cantou:

João Jiló
Eu quero sair
Que eu sou rei cantador!

Joao Jiló respondeu:

— Sai pela boca!

— Não, pela boca eu não saio que tem cuspe!

O diálogo continua com as evasivas do passarinho para outras saídas sugeridas. Até que João Jiló diz: — Sai por onde quiser! —O passarinho, agora um grande pássaro vermelho, arrebentou a barriga do João Jiló e saiu voando. Era o demônio. Era o diabo em figura de passarinho! João Jiló matou, depenou, fritou, cozinhou, comeu, desrespeitou a sexta-feira Santa!... O diabo não morre... Ele deixou o João morto de barriga aberta e foi embora, com certeza fazer outra, com outro igual a ele.

Inúmeras são também as lendas referentes a esse dia. Uma delas conta que, no município de Cabo Frio, à meia-noite da sexta-feira Santa, sai do convento de Nossa Senhora dos Anjos uma procissão formada por muitos padres que vestem túnicas brancas e trazem velas acesas nas mãos. Depois de dar a volta ao morro da Guia, a misteriosa procissão retorna ao convento de onde saiu.



(Folclore fluminense. Rio de Janeiro, Departamento de Cultura / INEPAC / Divisão de Folclore, 1982, p.210-213)

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