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| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
NA FEIRA BAIANA DE ÁGUA DE MENINOS HÁ TODAS AS
CORES, VOZES E RUÍDOS |
Muitas feiras tem a cidade de Salvador. Tem a do Curtume, em frente à penitenciária;
a do Porto da Lenha, da Ribeira, a da Rampa do Mercado, que se estende na ladeira
metendo-se pelas vielas, cantos e portas; a do largo Dois de Julho, alegre, colorida,
cheia de objetos e flores; a das Sete Portas, no Mercado ou a Feira da Barra, onde os
grã-finos se abastecem. Mas de todas essas a mais colorida, mais tumultuosa, mais linda,
onde há mais sujeira, calor humano e poesia, é a feira de Água de Meninos, à beira da
enseada, que vai para Bonfim, onde mora o grande santo, governador da terra e do povo da
Bahia.
No século XVII a feira já estava ali e se chamava San Tiago de Água de Meninos.
Ninguém sabe a origem desse nome poético e ninguém se importou muito em descobrir de
onde ele veio. Os poetas e escritores de todas as terras que visitam Salvador sentem-se
melhor no campo da imaginação e da lenda. Mesmo porque os baianos não gostam que falem
de suas realidades.
Barcos e homensNa enseada da feira há
barcos de todos os lugares do Recôncavo que trazem os mais variados produtos, bananas
ainda verdes no meio de abóboras, cana-de-açúcar e laranja, farinha, carne-seca e
pirâmides de verduras. Os saveiros grandes e pequenos encostam na praia barrenta em
trapiches ou no pequeno porto, formando uma floresta de mastros e cordoalha. Alguns deles
têm nomes pitorescos de santos ou coisas do mar, pintados com tintas vivas na proa. Há
verdes, cinza, claros, escuros. Os maiores são cobertos na parte de trás, onde há camas
e um fogão. E nos pequenos os homens preparam as refeições num fogareiro de lata de
querosene vazia ou no fogo aceso sobre um pedaço de folha de flandres. Nos barcos há
bichos domésticos, da estima dos camaradas da tripulação. Papagaios que sobem pelas
velas enroladas e cordas, cachorros, gatos, araras. Em alguns barcos há mulheres e
crianças. As mulheres conversam com as outras, as crianças choram e os homens batem,
assoviam e tratam de seus negócios, formando um alarido dos diabos. Eles tiram suas
mercadorias dos saveiros e as estendem na praia que em alguns trechos é suja e barrenta.
Para chegar até os barcos passa-se por montes de laranjas, cana-de-açúcar de Santo
Amaro, montes de verduras, abóboras, carne-seca, sacos de farinha, numa confusão de
cascas, lama, corda e velas de barcos e animais soltos. Os vendedores apregoam suas
mercadorias, chamam implicam, suplicam e discutem com os fregueses.
A feira, pelos fundos
Saindo da enseada encontra-se antes de chegar na feira, uma parte de terreno úmido,
barrenta que quando chove vira lodo negro. É um terreno de mangue, pisado, amassado pelo
grande movimento da gente que vai e vem lá de cima. Quando se entra no povoado da feira,
passa-se por um monte de mil frutas e legumes entre casebres, caramanchões e barracas.
Gente de cor, homenzinhos de fisionomia arisca, de chapéus de palha na cabeça, mulatas
pesadonas, negrinhas lépidas e matutos de fala comprida povoam aquele lado da feira.
Galinha de xinxim
As ruas da feira não são limpas. Se fossem perderiam a graça. Nelas se misturam
vendedores, mulheres que fazem comidas, compradores, barqueiros, camaradas sem ocupação,
meninos que trabalham no negócio do pai, homens e mulheres de todas as cores, de todos os
jeitos e sem jeito, e curiosos. A feira se estende por quase um quilômetro, atravessa a
rua e entranha-se do outro lado, onde há mercadorias estendidas na calçada, penduradas e
amontoadas. O movimento é intenso e desusado. Da ladeira da Água Brusca, do lado da
Calçada e pela avenida Jeçuitaia chega gente que vai comprar alguma coisa, porque ali
tem de tudo: aipim, quiabos, pimenta malagueta, azeite de dendê, farinha de todos os
tipos, expostas no saco ou em caixas, abóboras, tomates, pimentões e verduras. Nos
armazéns rústicos instalados em caramanchões de tábua, há tudo isso e também os
gêneros de primeira necessidade, objetos de uso doméstico, miudezas, cintos e enfeites.
Em algumas tendas vêem-se coisas típicas: figas, colares, ervas, caramujos, conchas,
estrelas do mar, ferramentas de Ogum nosso pai, chinelos e cintos de cautehull. Tudo isso
no meio de mulheres que vendem quitutes em tabuleiros ou em tendas; estas, os pratos
especiais, galinha de xinxim, vatapá, efó, cuscuz, camarão. E quando se avança,
entranha-se e perde na feira, tem-se de desviar dos montões de laranja do Cajuba e
montículos de cajus de Mar Grande. A feira é um mar de coisas. A gente que se movimenta
ali é a mais variada e pitoresca do mundo baiano.
Campos das cerâmicas
Do lado direito da feira há uma área de cerca de cem metros de comprimento, toda ela
coberta de peças de cerâmica popular. Talhas para água, moringas, vasos, panelas,
bacias, pratos e pequenos animais; bois, vacas, carneirinhos e algumas figuras humanas.
Aquela parte descoberta, parece um campo cultivado. Melhor um jardim. Há peças
enfeitadas de todas as cores, talhas de bordas enegrecidas, escuras, gravadas a fogo e
moringas, com desenhos de flores e arabescos vermelhos, azuis e amarelos. Pequenos bois
verdes, com manchas brancas e vermelhas no corpo e nos chifres grossos, moldados a mão.
Há peças de acabamento perfeito, outras toscas, grosseiras mas de grande pitoresco, de
uma beleza pura e simples, de inspiração ingênua.
De onde vem toda essa cerâmica? Perguntamos a um vendedor. Quase
toda ela é de Maragugipinho, distrito de Maratuípe, sim senhor.
Há muitas fábricas por lá?
- Muitas. A cerâmica é a principal produção daquela zona. Quase todos ali se ocupam
nos trabalhos de olaria e cerâmica, mas grande parte dessa que o senhor está vendo é de
Pernambuco, principalmente os objetos ornamentais, boizinhos, pratos e vasos trabalhados a
fogo.
Essa é a feira de Água de Meninos, onde medra a floresta de mastros de saveiros,
carregados de coisas de terra e do mar, com seus ruídos característicos, suas briga de
mulheres, pregões, barulhos, zumbido, mau-cheiro, roncos de porcos, latidos de cães,
vozes de papagaios e risos da gente de Salvador da Bahia e do Senhor do Bonfim.
("Na feira baiana de água de meninos há todas
as cores, vozes e ruídos". Folha da Manhã, 1 de julho de 1954) |
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