Ano V - março  2003 - nº 55

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 55
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PALHOÇA

setaquad.gif (95 bytes)Maçantes, crônica de Joaquim José da França Júnior.

setaquad.gif (95 bytes)Hábitos e costumes na Amazônia de 1865, por Elizabeth Agassiz.

setaquad.gif (95 bytes)Na feira baiana de água de meninos há todas as cores vozes e ruídos

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


MAÇANTES

Joaquim José da França Júnior


Há na sociedade uma classe perigosa de homens, cujos atos escapam à ação da justiça, que cometem verdadeiros crimes protegidos pelas leis, quando de há muito deviam estar até fora do direito comum.

Não pensem os leitores que venho falar de capoeiras.

Estes Cambrones das grandes batalhas eleitorais, manuseadores da faca e do cacete, são mais ou menos perseguidos pelo gládio da polícia, segundo a importância dos padrinhos.

Refiro-me a estes ainda mais ofensivos: aos maçantes.

Não há exemplo nos nossos anais judiciários de processos contra maçantes.

Já porventura alguém viu sentado no banco dos réus um só desses indivíduos?

Por que?

Porque, infelizmente, o código criminal diz no artigo 1º — Não haverá crime ou delito, palavras sinônimas neste código, sem uma lei anterior que o qualifique.

Ora, não há lei que qualifique — crime — os atos praticados por semelhantes homens.

Ergo... a punidade deles.

Se os legisladores, porém, em vez de se ocuparem com questões banais, olhassem para o bem estar de seus concidadãos, já os maçantes estariam incluídos em vinte ou trinta artigos do código, sob um capítulo especial.

Obriga-se um mau vizinho a assinar o termo de bem viver, condena-se com todo o rigor aquele que vai ao vulto de seu semelhante, impelido por nobre excesso de dignidade, levam-se aos tribunais com grande aparato os mais ínfimos atentados contra a propriedade; e no entretanto o juiz, por mais reto e severo que seja, cruzará os braços, se alguém for dizer-lhe:

— Senhor, há um homem que envenena-me a existência dia por dia, hora por hora, minuto por minuto e contra o qual já não sei o que devo fazer. Esse malvado tem a mania de ecsrever péssimos artigos políticos para os jornais, e está sempre a falar contra o governo. Eu sou o seu — auditório, — e qualquer lugar, onde nos encontramos, transforma-se logo em tribuna! Não é tudo ainda, senhor! Esse "homem-conferência" já originou-me duas erisipelas, uma enxaqueca, três congestões de fígado e um ameaço de apoplexia. Providências, antes que ele me leve à sepultura.

Mas a iniciativa individual, que tanto tem feito em prol da humanidade, e que muito pode fazer ainda neste último quarto do século, não deve cruzar os braços como o juiz.

Foi por isso que, há cinco ou seis anos mais ou menos, estabeleceu-se no Rio de Janeiro uma associação intitulada — Resgate dos cativos, com o fim altamente filantrópico de livrar os sócios das garras dos maçantes.

É da existência dessa sociedade que venho dar notícia aos leitores.

Antes, porém, que tenham cabal conhecimento dela, convém que todos saibam o que seja o maçante e quais as diversas espécies.

É impossível definir o maçante.

Ele está nas mesmas condições de uma cacetada, que não se pode demonstrar senão com um cacete em punho, a funcionar sobre o lombo de outrem.

O cacete obra sobre a pele, quando não é manejado com muito vigor; o maçante, por menos inofensivo que seja, tem como a estriquinina ação direta sobre todo o sistema muscular.

Daí a vantagem do segundo sobre o primeiro, como instrumento de destruição.

Os maçantes têm sido crismados por diversos nomes.

O vulgo deu-lhes a denominação de — amoladores.

Outrora eram conhecidos por — sequistas.

E ultimamente os inimigos de Ricardo Wagner, o célebre autor do Tan-Hauser, deram-lhes o pomposo título de — músicos do futuro.

Amoladores, sequistas ou músicos do futuro, eles classificam-se em diversas categorias:

Primeira: Os maçantes que têm a mania de contar histórias a propósito de tudo.

Em geral, são indivíduos de cinqüenta anos para cima, pouco verbosos, muito desmemoriados e surdos.

Quando narram um caso, esquecem sempre os nomes dos personagens que nele figuram, e, deixando o assunto principal, perdem-se pelos incidentes sem que jamais consigam chegar ao fim.

Aí vai um exemplo:

— Ora deixe-me contar-lhe o que me aconteceu em 1854... Em 1854? Não, parece-me que foi em 58... Foi em 58, justamente. Estava eu nesse tempo em Macacu, na olaria do... do... Como chamava-se aquele sujeito que foi dono, administrador ou coisa que o valha na fazenda das Palmeiras?

Um dos interlocutores limita-se a encolher os ombros ou a abanar a cabeça.

— Não conhece o senhor outra coisa. Mas, enfim, vamos adiante. Havia lá uma grande festa. Eu tinha saído de casa com a família do coronel Pereira, que ainda vem a ser parente de minha mulher; por que o coronel Pereira casou-se duas vezes, a primeira com a filha do... do... Ah! com a filha do Benedito Valladas, que era diretor do arsenal de marinha da Bahia... Diretor ou capitão do porto? Não estou bem certo. O que sei com toda a certeza é que a mulher morreu de febres à polca em casa de Felício Marques, que também é ainda nosso parente por parte de minha mulher.

Neste ponto da narração tira do bolso a boceta, sorve uma grande pitada, asoa-se com estrondo em um lenço vermelho, e pergunta depois com toda a calma:

— Onde estava eu?

E a história continua por aí além, sem que o narrador jamais a conclua.

É contra os maçantes desta ordem que se inventaram as bruxarias improfícuas de sal no fogo e vassoura atrás da porta.

Segunda categoria: os maçantes retóricos, aqueles que escolhem termos quando falam, e que gostam de se ouvir.

Não conversam, discursam.

Sempre com a voz trêmula e arrastada, assobiando os ss, carregando com ênfase nos rr, têm a estulta veleidade de pretender levar a convicção ao espírito de mundo inteiro.

É assim, pouco mais ou menos, que eles falam:

— Estive hoje com o progenitor de seus dias. Vinha gordo, anafado, trazendo nas faces as rosas rubras da saúde; divisei-o ao longe como uma aurora boreal, corri-lhe ao encontro, e apertamo-nos em amável amplexo. Depois travamos um ligeiro colóquio, ele estendeu-me a dextra, eu estendi-lhe a minha, e retirei-me ainda sob a grata impressão de tão felizes momentos, porque há muito tempo que o não via, e tinha o coração trespassado pelo... pelo... Não sei se me exprimo bem, pelo...

— Pelo dardo, — acode o ouvinte.

— Não, pelo...

— Pela lança.

— Pelo... Estou com o termo na boca.

— Se não é lança, é espada ou baioneta.

— Pelo gládio, é isto que eu queria dizer; porque tinha o coração trespassado pelo gládio da saudade.

Esses maçantes são perigosíssimos em visitas de pêsames, em jantares onde haja saúdes, e sobretudo quando conversam com homens notoriamente inteligentes.

Terceira categoria: os maçantes faladores, que dão por paus e por pedras, e cujo acionado apoia-se sobre o dedo indicador da mão direita, dirigido em forma de florete contra os olhos, a cara e o peito do interlocutor.

Quem os ouve não tem tempo sequer para aventurar uma sílaba, tal é a rapidez com que enunciam o pensamento.

Um dia caí sob as garras de um malvado desta espécie.

No meio da discussão, ou antes do discurso, porque só ele é quemfalava, engasgou-se com um verbo e sobreveio-lhe uma tosse nervosa.

Querem saber o que fez, para que nada eu pudesse dizer, durante aquele pequeno intervalo?

Com a cabeça voltada, a tossir como um desesperado, estendeu o braço direito e colocou-me sobre a boca a mão aberta em forma de leque.

São os déspotas da palavra.

Antíteses destes são os da quarta categoria: os maçantes que não falam.

Limitam-se a ouvir o que os outros dizem, e quando reconhecem que a conversação vai-se extinguindo, procuram ateá-la com estas palavras:

— É o que lhe digo. O senhor é quem pode. Este mundo é uma bola. A vida é para o senhor. O que há de novo? O que se diz por aí? Isto vai mal, etc. etc.

Dotados de uma pachorra sem limites, parecem seres inofensivos.

É um engano! Esta categoria é a mais perigosa de todas.

Deveis todos os dias rogar a Deus, em vossas orações, que vos livres de tais maçantes.

Quinta categoria: o maçante lírico, que adora em excesso a música, e que passa a vida cantarolando ou assobiando pedaços de óperas.

Quando nos avista, não nos pergunta como estamos, ou como temos passado, mas sim — Como foi a Fricci na Força do destino?

Ai de nós se respondemos a pergunta.

E ai de nós também se nos calamos.

Quer de um modo, quer de outro, principia o fogo, pouco mais ou menos assim:

— Não há dúvida que a companhia andou perfeitamente bem. Lembra-se daquele pedaço do primeiro ato, trá- lá, tri li, tró ló? Reparou bem naquele acompanhamento de rabecas zim, zim, zim? E quando entram os pistons fué, fué, fué? Oh como aquilo é sublime! E o dueto do tenor e do barítono? Este tenor canta melhor que o Lelmi. Agora, digam o que disserem, e aqui para nós que ninguém nos ouve, a Fricci já está velha, mas sabe onde tem o nariz. Só aquela ária do segunto ato é bastante para fazer a reputação de um artista. Lembra-se? Tá, ró, ró, tari...

E quando a garganta se lhe seca, o maçante musical estende um grande bico, e principia a assobiar, como um sabiá de porta de venda.

Esta categoria deve ser evitada, sobretudo no meio da rua.

Na sexta incluem-se certos indivíduos, verdadeiramente perversos, e que mereciam castigo exemplar.

São os maçantes que não gostam de música, que pelo contrário a detestam, e no entretanto obrigam as filhas a cantar e a tocar, para... obsequiar as visitas.

O paciente ouve sem pestanejar o primeiro pedaço.

Quando dispõe-se a respirar livremente, o pai com toda a pachorra, brochado em um paletó branco, e pondo os óculos na testa, diz lá do sofá:

— Menina, toca a outra música.

— Que música, papai?

— A outra; a que comprei na semana passada.

— É a mesma que acabei de tocar.

— A! então toca-a outra vez. É muito bonita, não acha, senhor F...?

O paciente agita-se na cadeira, ensaia um riso e... concorda.

Terminada a música, o pai manda outra filha cantar, depois passam as duas a executar uma peça a quatro mãos, e a esta sucede um dueto.

Pensam que está findo o suplício?

Ainda não.

Novo personagem aparece na sala.

É um crioulinho de cinco para seis anos, que é recebido com gostosas gargalhadas.

— Está vendo este moleque, senhor F...? Isto é um peralta, canta tim tim por tim tim tudo quanto o senhor acabou de ouvir. Ramiro, canta aquela música de nhãnhã.

— Ora, assim ele não pode adivinhar, papai, — acode uma das filhas. — É aquela que começa assim: Quando il tuo labro.

E o Ramiro passa em sabatina todas as peças já ouvidas, terminando por dar de quebra — Que é dela as chaves, que te dei para guardar.

E então?!

Sétima categoria: Os maçantes que se julgam atacados de todas as moléstias.

Andam constantemente a examinar a língua diante do espelho, e atribuem qualquer dor de cabeça que sentem ao peixe que comeram na véspera, ou ao picadinho à baiana que almoçaram no hotel Bragança.

Se apertam a mão de um amigo ou conhecido, antes de saudá-lo, exclamam:

— Estás pálido!

— Pálido?! Nunca estive tão corado como hoje.

— É verdade, agora reparo, estás corado. Andas doente?

— Não me consta.

— És mais feliz do que eu. Vê o meu pulso, parece-me que tenho febre. Olha só esta língua. Não dormi toda a noite, com zuadas nos ouvidos, tonturas, palpitações, não achava cômodo no travesseiro... Estou meio desconfiado que sofro do coração, e que também sofre alguma coisa o fígado. Mandei chamar o Continentino, receitou-me banhos de mar e fiquei na mesma. Consultei o Torres Homem, aconselhou-me que mudasse de ares. Agora estou me tratando pela homeopatia com o Meireles; dizem que é bom médico. Ninguém pode avaliar o que sinto. O Gregório acusava os mesmos sintomas, todos diziam que era cisma; mas o que é verdade é que lá se foi ele desta para melhor, sem que os médicos pudessem diagnosticar-lhe a moléstia. O mesmo aconteceu ao Maneco e à mulher do Jerônimo. Não sei se te lembras que ela era corada?

Estes maçantes se encontram geralmente nas duchas do Eiras ou nos hotéis dos arrabaldes.

Oitava categoria: os maçantes valentões.

Se se desse crédit ao que eles dizem já o mundo estaria despovoado.

Um dia encontrei-me com um tipo dessa ordem no teatro Fênix.

Depois de haver dito cobras e lagartos contra artistas daquele teatro, começou a implicar com um indivíduo que estava ao nosso lado, fumando tranqüilamente no jardim.

— Conheces aquela bisca?

— Não.

— Pois aquele sujeitinho tem contas a ajustar comigo. Dizem que ele é metido a valentão, e eu desejo mostrar-lhe com quantos paus se faz uma canoa. Você me conhece! Não sou homem que morra de caretas. Quando ele menos esperar arrumo-lhe um trompasio, que o ponho a tinir.

Não são os maçantes mais perigosos.

A nona categoria abrange as solteironas.

A décima aos que consomem o tempo a indagar da vida alheia, que perguntam aos conhecidos e desconhecidos: "Onde compraste esta corrente? Estás empregado? Quanto ganhas? O que faz tua mulher todo o dia à janela? O que jantaste hoje? etc. etc."

E muitas outras espécies ainda existem.

Este artigo, porém, já vai longo, e comprometi-me a dizer alguma coisa acerca da sociedade — Resgate dos cativos, — cujo fim é libertar os sócios das garras dos maçantes.

O indivíduo que cai em poder de um dos tais, está sob bárbaro cativeiro; é preciso libertá-lo. Eis justificado o título da sociedade.

Como se realiza essa liberdade ou resgate?

Da maneira a mais simples.

Com um sinal apenas, chamado — o sinal de socorro — e que consiste em levar a mão ao peito.

Exemplifiquemos:

A. é amolado por B. Passa C., sócio da sociedade; A. leva a mão ao peito, e C. imediatamente vem a A. e diz-lhe, afetando sofreguidão: — Há mais de duas horas que andava à tua procura para aquele negócio; vem depressa, estão todos à tua espera. E pedindo licença a B., dá o braço a A., e vão à primeira confeitaria tomar um refresco, ou à próxima esquina, onde cada um segue o seu rumo.

Ora, como nem sempre há protetores à mão, porquanto a sociedade é desconhecida e dispõe de pequeno número de sócios, por isso venho divulgá-la, a fim de que todos corram a fazer parte dela, e deste modo possam libertar-se reciprocamente com mais facilidade.

A associação, porém, tem estatutos terríveis.

Ninguém poderá ser admitido sem que apresente folha corrida, em que prove que nunca massou, nem mesmo brincando.

O sócio que provocar o amolador, tido e havido como tal, não tem direito ao resgate.

Na secretaria da sociedade há um livro, onde se acham escritos os nomes de todos os maçantes mais conhecidos.

O presidente da sociedade é uma espécie de — terra nova; — pois deve ser escolhido dentre aqueles sócios que mais vítimas houverem salvado.

Os membros da associação que tiverem demandas ficam suspensos de todos os direitos e garantias, enquanto durarem as mesmas.

Em idêntica pena incorrerão os namorados no período mais agudo do namoro.

Mas agora reparo que tenho diante de mim vinte e três tiras de papel escritas!

Em que categoria estarei classificado?

Na décima primeira, de que não falei: — a dos escritores insípidos, que têm a mania de escrever folhetins.

E antes que o leitor faça o sinal de socorro, ponto final.



(França Júnior, Joaquim José da. Folhetins. 4ª ed. Rio de Janeiro, Jacinto Ribeiro dos Santos Editor, 1926, p.21-30)

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