|
|
| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
| Joaquim José da França Júnior |
Há na sociedade uma classe perigosa de homens, cujos atos escapam à ação da
justiça, que cometem verdadeiros crimes protegidos pelas leis, quando de há muito deviam
estar até fora do direito comum.
Não pensem os leitores que venho falar de capoeiras.
Estes Cambrones das grandes batalhas eleitorais, manuseadores da faca e do cacete, são
mais ou menos perseguidos pelo gládio da polícia, segundo a importância dos padrinhos.
Refiro-me a estes ainda mais ofensivos: aos maçantes.
Não há exemplo nos nossos anais judiciários de processos contra maçantes.
Já porventura alguém viu sentado no banco dos réus um só desses indivíduos?
Por que?
Porque, infelizmente, o código criminal diz no artigo 1º Não haverá crime ou
delito, palavras sinônimas neste código, sem uma lei anterior que o qualifique.
Ora, não há lei que qualifique crime os atos praticados por semelhantes
homens.
Ergo... a punidade deles.
Se os legisladores, porém, em vez de se ocuparem com questões banais, olhassem para o
bem estar de seus concidadãos, já os maçantes estariam incluídos em vinte ou trinta
artigos do código, sob um capítulo especial.
Obriga-se um mau vizinho a assinar o termo de bem viver, condena-se com todo o rigor
aquele que vai ao vulto de seu semelhante, impelido por nobre excesso de dignidade,
levam-se aos tribunais com grande aparato os mais ínfimos atentados contra a propriedade;
e no entretanto o juiz, por mais reto e severo que seja, cruzará os braços, se alguém
for dizer-lhe:
Senhor, há um homem que envenena-me a existência dia por dia, hora por hora,
minuto por minuto e contra o qual já não sei o que devo fazer. Esse malvado tem a mania
de ecsrever péssimos artigos políticos para os jornais, e está sempre a falar contra o
governo. Eu sou o seu auditório, e qualquer lugar, onde nos encontramos,
transforma-se logo em tribuna! Não é tudo ainda, senhor! Esse
"homem-conferência" já originou-me duas erisipelas, uma enxaqueca, três
congestões de fígado e um ameaço de apoplexia. Providências, antes que ele me leve à
sepultura.
Mas a iniciativa individual, que tanto tem feito em prol da humanidade, e que muito pode
fazer ainda neste último quarto do século, não deve cruzar os braços como o juiz.
Foi por isso que, há cinco ou seis anos mais ou menos, estabeleceu-se no Rio de Janeiro
uma associação intitulada Resgate dos cativos, com o fim altamente filantrópico
de livrar os sócios das garras dos maçantes.
É da existência dessa sociedade que venho dar notícia aos leitores.
Antes, porém, que tenham cabal conhecimento dela, convém que todos saibam o que seja o
maçante e quais as diversas espécies.
É impossível definir o maçante.
Ele está nas mesmas condições de uma cacetada, que não se pode demonstrar senão com
um cacete em punho, a funcionar sobre o lombo de outrem.
O cacete obra sobre a pele, quando não é manejado com muito vigor; o maçante, por menos
inofensivo que seja, tem como a estriquinina ação direta sobre todo o sistema muscular.
Daí a vantagem do segundo sobre o primeiro, como instrumento de destruição.
Os maçantes têm sido crismados por diversos nomes.
O vulgo deu-lhes a denominação de amoladores.
Outrora eram conhecidos por sequistas.
E ultimamente os inimigos de Ricardo Wagner, o célebre autor do Tan-Hauser,
deram-lhes o pomposo título de músicos do futuro.
Amoladores, sequistas ou músicos do futuro, eles classificam-se em diversas categorias:
Primeira: Os maçantes que têm a mania de contar histórias a propósito de tudo.
Em geral, são indivíduos de cinqüenta anos para cima, pouco verbosos, muito
desmemoriados e surdos.
Quando narram um caso, esquecem sempre os nomes dos personagens que nele figuram, e,
deixando o assunto principal, perdem-se pelos incidentes sem que jamais consigam chegar ao
fim.
Aí vai um exemplo:
Ora deixe-me contar-lhe o que me aconteceu em 1854... Em 1854? Não, parece-me que
foi em 58... Foi em 58, justamente. Estava eu nesse tempo em Macacu, na olaria do... do...
Como chamava-se aquele sujeito que foi dono, administrador ou coisa que o valha na fazenda
das Palmeiras?
Um dos interlocutores limita-se a encolher os ombros ou a abanar a cabeça.
Não conhece o senhor outra coisa. Mas, enfim, vamos adiante. Havia lá uma grande
festa. Eu tinha saído de casa com a família do coronel Pereira, que ainda vem a ser
parente de minha mulher; por que o coronel Pereira casou-se duas vezes, a primeira com a
filha do... do... Ah! com a filha do Benedito Valladas, que era diretor do arsenal de
marinha da Bahia... Diretor ou capitão do porto? Não estou bem certo. O que sei com toda
a certeza é que a mulher morreu de febres à polca em casa de Felício Marques, que
também é ainda nosso parente por parte de minha mulher.
Neste ponto da narração tira do bolso a boceta, sorve uma grande pitada, asoa-se com
estrondo em um lenço vermelho, e pergunta depois com toda a calma:
Onde estava eu?
E a história continua por aí além, sem que o narrador jamais a conclua.
É contra os maçantes desta ordem que se inventaram as bruxarias improfícuas de
sal no fogo e vassoura atrás da porta.
Segunda categoria: os maçantes retóricos, aqueles que escolhem termos quando falam, e
que gostam de se ouvir.
Não conversam, discursam.
Sempre com a voz trêmula e arrastada, assobiando os ss, carregando com ênfase nos rr,
têm a estulta veleidade de pretender levar a convicção ao espírito de mundo inteiro.
É assim, pouco mais ou menos, que eles falam:
Estive hoje com o progenitor de seus dias. Vinha gordo, anafado, trazendo nas faces
as rosas rubras da saúde; divisei-o ao longe como uma aurora boreal, corri-lhe ao
encontro, e apertamo-nos em amável amplexo. Depois travamos um ligeiro colóquio, ele
estendeu-me a dextra, eu estendi-lhe a minha, e retirei-me ainda sob a grata impressão de
tão felizes momentos, porque há muito tempo que o não via, e tinha o coração
trespassado pelo... pelo... Não sei se me exprimo bem, pelo...
Pelo dardo, acode o ouvinte.
Não, pelo...
Pela lança.
Pelo... Estou com o termo na boca.
Se não é lança, é espada ou baioneta.
Pelo gládio, é isto que eu queria dizer; porque tinha o coração trespassado
pelo gládio da saudade.
Esses maçantes são perigosíssimos em visitas de pêsames, em jantares onde haja
saúdes, e sobretudo quando conversam com homens notoriamente inteligentes.
Terceira categoria: os maçantes faladores, que dão por paus e por pedras, e cujo
acionado apoia-se sobre o dedo indicador da mão direita, dirigido em forma de florete
contra os olhos, a cara e o peito do interlocutor.
Quem os ouve não tem tempo sequer para aventurar uma sílaba, tal é a rapidez com que
enunciam o pensamento.
Um dia caí sob as garras de um malvado desta espécie.
No meio da discussão, ou antes do discurso, porque só ele é quemfalava, engasgou-se com
um verbo e sobreveio-lhe uma tosse nervosa.
Querem saber o que fez, para que nada eu pudesse dizer, durante aquele pequeno intervalo?
Com a cabeça voltada, a tossir como um desesperado, estendeu o braço direito e
colocou-me sobre a boca a mão aberta em forma de leque.
São os déspotas da palavra.
Antíteses destes são os da quarta categoria: os maçantes que não falam.
Limitam-se a ouvir o que os outros dizem, e quando reconhecem que a conversação vai-se
extinguindo, procuram ateá-la com estas palavras:
É o que lhe digo. O senhor é quem pode. Este mundo é uma bola. A vida é para o
senhor. O que há de novo? O que se diz por aí? Isto vai mal, etc. etc.
Dotados de uma pachorra sem limites, parecem seres inofensivos.
É um engano! Esta categoria é a mais perigosa de todas.
Deveis todos os dias rogar a Deus, em vossas orações, que vos livres de tais maçantes.
Quinta categoria: o maçante lírico, que adora em excesso a música, e que passa a vida
cantarolando ou assobiando pedaços de óperas.
Quando nos avista, não nos pergunta como estamos, ou como temos passado, mas sim
Como foi a Fricci na Força do destino?
Ai de nós se respondemos a pergunta.
E ai de nós também se nos calamos.
Quer de um modo, quer de outro, principia o fogo, pouco mais ou menos assim:
Não há dúvida que a companhia andou perfeitamente bem. Lembra-se daquele pedaço
do primeiro ato, trá- lá, tri li, tró ló? Reparou bem naquele acompanhamento de
rabecas zim, zim, zim? E quando entram os pistons fué, fué, fué? Oh como
aquilo é sublime! E o dueto do tenor e do barítono? Este tenor canta melhor que o Lelmi.
Agora, digam o que disserem, e aqui para nós que ninguém nos ouve, a Fricci já está
velha, mas sabe onde tem o nariz. Só aquela ária do segunto ato é bastante para fazer a
reputação de um artista. Lembra-se? Tá, ró, ró, tari...
E quando a garganta se lhe seca, o maçante musical estende um grande bico, e principia a
assobiar, como um sabiá de porta de venda.
Esta categoria deve ser evitada, sobretudo no meio da rua.
Na sexta incluem-se certos indivíduos, verdadeiramente perversos, e que mereciam castigo
exemplar.
São os maçantes que não gostam de música, que pelo contrário a detestam, e no
entretanto obrigam as filhas a cantar e a tocar, para... obsequiar as visitas.
O paciente ouve sem pestanejar o primeiro pedaço.
Quando dispõe-se a respirar livremente, o pai com toda a pachorra, brochado em um paletó
branco, e pondo os óculos na testa, diz lá do sofá:
Menina, toca a outra música.
Que música, papai?
A outra; a que comprei na semana passada.
É a mesma que acabei de tocar.
A! então toca-a outra vez. É muito bonita, não acha, senhor F...?
O paciente agita-se na cadeira, ensaia um riso e... concorda.
Terminada a música, o pai manda outra filha cantar, depois passam as duas a executar uma
peça a quatro mãos, e a esta sucede um dueto.
Pensam que está findo o suplício?
Ainda não.
Novo personagem aparece na sala.
É um crioulinho de cinco para seis anos, que é recebido com gostosas gargalhadas.
Está vendo este moleque, senhor F...? Isto é um peralta, canta tim tim por tim
tim tudo quanto o senhor acabou de ouvir. Ramiro, canta aquela música de nhãnhã.
Ora, assim ele não pode adivinhar, papai, acode uma das filhas. É
aquela que começa assim: Quando il tuo labro.
E o Ramiro passa em sabatina todas as peças já ouvidas, terminando por dar de quebra
Que é dela as chaves, que te dei para guardar.
E então?!
Sétima categoria: Os maçantes que se julgam atacados de todas as moléstias.
Andam constantemente a examinar a língua diante do espelho, e atribuem qualquer dor de
cabeça que sentem ao peixe que comeram na véspera, ou ao picadinho à baiana que
almoçaram no hotel Bragança.
Se apertam a mão de um amigo ou conhecido, antes de saudá-lo, exclamam:
Estás pálido!
Pálido?! Nunca estive tão corado como hoje.
É verdade, agora reparo, estás corado. Andas doente?
Não me consta.
És mais feliz do que eu. Vê o meu pulso, parece-me que tenho febre. Olha só esta
língua. Não dormi toda a noite, com zuadas nos ouvidos, tonturas, palpitações, não
achava cômodo no travesseiro... Estou meio desconfiado que sofro do coração, e que
também sofre alguma coisa o fígado. Mandei chamar o Continentino, receitou-me banhos de
mar e fiquei na mesma. Consultei o Torres Homem, aconselhou-me que mudasse de ares. Agora
estou me tratando pela homeopatia com o Meireles; dizem que é bom médico. Ninguém pode
avaliar o que sinto. O Gregório acusava os mesmos sintomas, todos diziam que era cisma;
mas o que é verdade é que lá se foi ele desta para melhor, sem que os médicos pudessem
diagnosticar-lhe a moléstia. O mesmo aconteceu ao Maneco e à mulher do Jerônimo. Não
sei se te lembras que ela era corada?
Estes maçantes se encontram geralmente nas duchas do Eiras ou nos hotéis dos arrabaldes.
Oitava categoria: os maçantes valentões.
Se se desse crédit ao que eles dizem já o mundo estaria despovoado.
Um dia encontrei-me com um tipo dessa ordem no teatro Fênix.
Depois de haver dito cobras e lagartos contra artistas daquele teatro, começou a implicar
com um indivíduo que estava ao nosso lado, fumando tranqüilamente no jardim.
Conheces aquela bisca?
Não.
Pois aquele sujeitinho tem contas a ajustar comigo. Dizem que ele é metido a
valentão, e eu desejo mostrar-lhe com quantos paus se faz uma canoa. Você me conhece!
Não sou homem que morra de caretas. Quando ele menos esperar arrumo-lhe um trompasio, que
o ponho a tinir.
Não são os maçantes mais perigosos.
A nona categoria abrange as solteironas.
A décima aos que consomem o tempo a indagar da vida alheia, que perguntam aos conhecidos
e desconhecidos: "Onde compraste esta corrente? Estás empregado? Quanto ganhas? O
que faz tua mulher todo o dia à janela? O que jantaste hoje? etc. etc."
E muitas outras espécies ainda existem.
Este artigo, porém, já vai longo, e comprometi-me a dizer alguma coisa acerca da
sociedade Resgate dos cativos, cujo fim é libertar os sócios das garras
dos maçantes.
O indivíduo que cai em poder de um dos tais, está sob bárbaro cativeiro; é preciso
libertá-lo. Eis justificado o título da sociedade.
Como se realiza essa liberdade ou resgate?
Da maneira a mais simples.
Com um sinal apenas, chamado o sinal de socorro e que consiste em levar a
mão ao peito.
Exemplifiquemos:
A. é amolado por B. Passa C., sócio da sociedade; A. leva a mão ao peito, e C.
imediatamente vem a A. e diz-lhe, afetando sofreguidão: Há mais de duas horas que
andava à tua procura para aquele negócio; vem depressa, estão todos à tua espera. E
pedindo licença a B., dá o braço a A., e vão à primeira confeitaria tomar um
refresco, ou à próxima esquina, onde cada um segue o seu rumo.
Ora, como nem sempre há protetores à mão, porquanto a sociedade é desconhecida e
dispõe de pequeno número de sócios, por isso venho divulgá-la, a fim de que todos
corram a fazer parte dela, e deste modo possam libertar-se reciprocamente com mais
facilidade.
A associação, porém, tem estatutos terríveis.
Ninguém poderá ser admitido sem que apresente folha corrida, em que prove que nunca
massou, nem mesmo brincando.
O sócio que provocar o amolador, tido e havido como tal, não tem direito ao resgate.
Na secretaria da sociedade há um livro, onde se acham escritos os nomes de todos os
maçantes mais conhecidos.
O presidente da sociedade é uma espécie de terra nova; pois deve ser
escolhido dentre aqueles sócios que mais vítimas houverem salvado.
Os membros da associação que tiverem demandas ficam suspensos de todos os direitos e
garantias, enquanto durarem as mesmas.
Em idêntica pena incorrerão os namorados no período mais agudo do namoro.
Mas agora reparo que tenho diante de mim vinte e três tiras de papel escritas!
Em que categoria estarei classificado?
Na décima primeira, de que não falei: a dos escritores insípidos, que têm a
mania de escrever folhetins.
E antes que o leitor faça o sinal de socorro, ponto final.
(França Júnior, Joaquim José da. Folhetins. 4ª ed. Rio de Janeiro, Jacinto
Ribeiro dos Santos Editor, 1926, p.21-30) |
|