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- Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária;
artesanato; vendedores ambulantes; pregões... |
No capítulo folclórico da arte dos mecanismos vamos encontrar o monjolo como uma das
mais simples máquinas utilizadas na indústria rural.
Não se sabe ao certo de sua origem; sabe-se, porém, que Brás Cubas foi quem primeiro
providenciou a sua instalação nas proximidades da atual cidade paulista de Santos,
quando de sua fundação. Os índios logo denominaram a rudimentar máquina, enguaguaçu,
que significa: pilão grande, nome que passou à localidade onde o primeiro foi instalado.
Supõe-se que o monjolo foi trazido ao Brasil, pelos povoadores portugueses da China. Na
verdade, na seção chinesa da Exposição Universal de 1873, em Viena, foram expostos
modelos de monjolos, denominados chui toi no Celeste Império.
Aluísio de Almeida, esclarecido historiador e folclorista de Piratininga, acha que seja
provável a importação do monjolo da Índia. Referindo-se à esta máquina agrícola
afirma que ela faz parte da área geográfica do Brasil, influenciada pelos bandeirantes
paulistas. O inferno esclarece ele, o lugar onde cai a água utilizada no
monjolo, tem esse nome também em Portugal para qualquer máquina hidráulica.
Ainda circunscrevendo a sua distribuição geográfica em nosso país, o ilustre
historiador escreveu: "Se bem que o monjolo pode socar mandioca, descascar arroz e
café, a sua função principal é a fabricação da farinha de milho. Não o tendo
encontrado, na descrição de como os bandeirantes fabricavam farinha de milho em Minas
Gerais, no precioso manuscrito matoso, mas tão somente a palavra pilão, nem por isso
podemos dizer que ele não existia antes de 1717. São os pontos de interrogação que
ficam na história. O monjolo paulista não é encontrado no Nordeste e no sertão onde
falta água; ele existe em função da farinha de milho e desaparece onde predomina a da
mandioca, menos litoral paulista, onde servia para o arroz".
É preciosa a observação de Aluísio de Almeida; nada mais se pode escrever para se
situar, geograficamente a distribuição do monjolo em terras brasileiras.
Nos documentos antigos da história mineira que nos têm sido possível manusear, nada
encontramos a respeito do monjolo que não seja em data posterior à 1800. Acreditamos
entretanto, que sua ocorrência nas Minas Gerais data de muito antes, desde o início do
povoamento pelos bandeirantes paulistas. Estes não poderiam prescindir do seu uso,
habituados que eram ao consumo diário da farinha de milho.
Eschwege, pelo ano de 1814, estando em Vila Rica, encontrou a rudimentar máquina
desempenhando importante papel no fornecimento da alimentação para os senhores e
escravos. Observou que, dentre os diversos homens que tinham suas ocupações definidas,
um era sempre destacado para o serviço do monjolo, a preparar o fubá.
Notamos, nessa informação, que o rudimentar mecanismo estava se prestando a fabricar
fubá; isso não significa, porém que fosse sua exclusiva finalidade; era apenas uma das
suas finalidades, pois Saint-Hilaire, um ano depois, descrevem a mesma máquina como
produtora da farinha de milho.
Esse erudito viajante francês, em sua obra Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro
e Minas Gerais, fez interessantes observações sobre o monjolo, descrevendo-o com uma
simplicidade e clareza tais que, transcrevendo-o poupamos o trabalho de tentar
explicação melhor; "sobre uma peça de madeira vertical e imóvel, é colocada, à
maneira duma gangorra, outra peça de madeira, móvel e horizontal; esta última é
escavada numa das extremidades como uma larga colher, e na outra é armada de um soquete
bem resistente. A máquina está sempre colocada debaixo de uma pequena queda
dágua. O líquido, caindo na espécie de colher que, de um lado termina a viga
oscilante, faz inclinar-se esta para o mesmo lado, enquanto a extremidade exposta, armada
na parte inferior com o soquete que descrevi, se ergue descrevendo um arco de
circunferência: mas enquanto a extremidade escavada se inclina, a água escorre, o peso
do pilão sobrepuja o da colher, a máquina range, e o pilão cai pesadamente num cocho
destinado a receber o grão".
Afirmou o escritor que o mecanismo descrito era chamado "manjola" ou
"preguiça". Este segundo nome, e também "preguiçoso", foi
encontrado em uso em Cantagalo, na província do Rio de Janeiro, em 1808, por John Mawe
que também fez observações sobre a máquina.
Da mesma maneira que se fabricava a farinha de milho no monjolo, há cento e quarenta
anos, se fabrica ainda hoje em toda parte onde funciona essa máquina. Aí a razão de ser
de incluirmos o maquinismo em apreço no capítulo das artes dos mecanismo dentro da
ciência folclórica. É uma sobrevivência; e não só de um século, mas, em nosso
país, de mais de quatrocentos anos!
A descrição que fez o minucioso Saint-Hilaire, em 1815, do processo de fabricação da
farinha de milho pelo monjolo, pode ser transcrita sem se aduzir nem se retirar uma
palavra; "A farinha de que se nutrem geralmente homens livres exige algumas
preparações a mais (do que o angu)". Separa-se o milho de seus envoltórios com
auxílio da máquina que já descrevi e que chamam manjola. Para esse fim coloca-se o
milho na escavação em que cai o dente pesado da máquina; Esse dente despoja o grão sem
triturá-lo e um pouco de água que se teve o cuidado de pôr no cocho, facilitando a
separação dos envoltórios, impede também os grãos de saltarem e se perderem. Quando o
milho está assim limpo, colocam-no em outros alguidares, cuja água continuamente se
renova; deixa-se aí durante dois ou três dias, e mesmo mais, até o momento em que
começa a fermentação; levam-no então, bem embebido à manjola, e, por meio dessa
máquina, reduzem-no a uma espécie de pasta. Passa-se esta última por uma peneira sobre
uma caldeira pouco profunda, sob a qual se acendeu o fogo, a pasta ou cozido seca;
reduz-se a um pó grosso, e é isso o que constitui essa farinha com que pulverizam, como
já disse, os alimentos e que, sem dúvida alguma, é mais saborosa e nutritiva que a de
mandioca".
A descrição é simples e clara; assim como serve ainda hoje para o processo de
fabricação da farinha de milho pelos monjolos, acreditamos que serviria há quatro
séculos atrás.
Quanto à origem do nome "monjolo" muitas são as hipóteses apresentadas; os
etimologistas, porém, não chegam a um acordo e o vocábulo continua reclamando a
atenção dos estudiosos de sua origem.
Amadeu Amaral afirmou que o termo "munjolo" se dava outrora ao tráfico dos
africanos e Sílvio de Almeida, por ele citado, aventou o étimo "mulincolum"
para o vocábulo designativo dessa antiga máquina agrícola.
Jacques Raimundo não tem dúvidas sobre a sua procedência africana. Afirma que foi
introduzida em nosso país pelos negros "munjolos" da Contra Costa, e deles
tomou o nome.
Certamente, baseou-se o ilustre africanólogo, na afirmação feita por Beaurepaire-Rohan,
em seu Vocabulário, de que, dentre os negros importados da África, vieram ao
Brasil, representantes da nação dos Monjolos.
Basílio de Magalhães ocupando-se deste termo, afirmou que a máquina foi introduzida no
Brasil pelos colonizadores ibéricos e que o apelativo e "evidentemente africano,
não se sabendo, porém, se o pilão acionado pela água, a que o mesmo foi aplicado, é
criação dos melamodermos ou se veio da Malásia para o continente negro".
Concordando com a exposição feita por Jacques Raimundo, afirma com ele que
"munjolo" é o nome de uma nação de africanos, que eram importados como
escravos.
Joaquim Ribeiro nega que tenha havido negros "monjoles", afirmando que o nome da
nação era "monjolos". Entretanto, em um interessante estudo, Aires da Mata
Machado Filho incluiu os negros "monjolos" como integrantes do contigente de
africanos vindos ao Brasil como escravos. É difícil dizer-se quem teria razão. De nossa
parte, como não somos etimologistas senão simples curioso, continuamos assistir os
debates em que os eruditos se empolgam.
Negando a origem africana do termo, Joaquim Ribeiro afirma que "monjolo"
significa "certa máquina agrícola" e "bezerrinho". "A segunda
acepção continua ele deve ser a mais antiga e só depois passou a se dar o
nome à máquina por um processo semântico muito comum de nomear certas máquinas com
nomes de animais (por exemplo) "ariete de áries" carneiro;
"testudo", nome de tartaruga e dos escudos usados pelos romanos: "mosquete
de muscatus". Nome de certo gavião; "colubrina, falconete, etc.). Da acepção
de "bezerrinho" é que se vai ao verdadeiro étimo do vocábulo
"monjolo" que nada mais é do que "munj" (do verbo "mungir".
Do latim mulgere) mais o sufixo "olo" (variante de "ulo" de
"casulo") que aparece em "nolo" "Manolo" (diminutivo de
Manoel, etc."
Estávamos quase simpatizando com a etimologia proposta por Joaquim Ribeiro quando, para
envolver-nos novamente na dúvida, demos com a proposta por Varnhagem
"mon-joelo" (deve ser a corruptela de um dialeto chinês) e, para completar, com
a aventada por monsenhor Rodolfo Delgado: o vocábulo é de origem sânscrita
("musala" que significa: pilão de descascar o arroz mediante a
nasalização do "u").
Quanto à existência da nação de negros "monjolos" não temos dúvidas. Na
poesia popular (o folclore sempre socorre a história e a lingüística) goiana, José A.
Teixeira colheu a letra de um moçambique, da qual transcrevemos um trecho:
Esta língua,
língua que veio dAngola;
esta língua
língua de Rebolo;
segunda língua de "minjólo"
"terceira língua, negro mina"
etc etc. etc.
Não podemos concluir, entretanto, pela escolha de qualquer das etimologias apresentadas.
Parece-nos, realmente, muito difícil essa escolha não fazemos mesmo questão de escolher
algumas das muitas apresentadas, apesar da variada paternidade que ofereceram ao termo
monjolo: africana, indiana, chinesa, latina e até sânscrita!
Devemos ter paciência: com o tempo e com a ajuda valiosa dos dedicados
etimologista teremos maior número para procedermos a uma escolha bem cuidadosa.
Não devemos comprar o primeiro artigo que nos oferecem só porque é barato e precisamos
dele; antes, vejamos se é legítimo e, sempre que tivermos dúvidas, rejeitemo-lo.
(Teixeira, Fausto. "O monjolo". Folha de Minas, 22 de agosto de 1948,
suplemento literário, p.3) |
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