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| OFICINA
- Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária;
artesanato; vendedores ambulantes; pregões... |
O leitor, alheio aos costumes sertanejos, com certeza e razão fica meio confuso quando
ouve dizer: "casa de farinha" ou "farinhada", não é mesmo? Pois bem,
não é coisa de admirar, porque tem muita gente na roça que também não conhece casa de
farinha.
Dir-me-á o leitor: "Que tenho eu com isso? Porventura sou obrigado a conhecer
tudo?" Não, senhor, respondo-lhe. Entretanto nada perde em o saber, senão, vejamos:
Admitamos (o que é freqüentíssimo) que lhe pergunte um estrangeiro culto, qualquer
coisa da vida e costumes do povo sertanejo do nosso país. Seria vergonhoso e
antipatriótico não saber responder-lhe. É, pois, com o intuito de o elucidar a fim de
evitar esse deprimente vexame, que aqui explico o que seja uma casa de farinha e a
farinhada. Ei-las:
Casa de farinha é o lugar onde se fabrica a farinha de mandioca e extrai-se a goma ou
polvilho desta, com o qual confecciona-se o beiju ou tapioca, como aqui o denominam.
É uma casa grande, coberta com palma de carnaúba, folhas de Oiticica ou mesmo telhas
comuns. No interior dessa casa, vê-se uma banqueta onde está montado um cevador chamado
caetetu. Essa peça, que serve para ralar a mandioca, é movida por um veio (manivela)
puxado a mão ou por tração animal e de há muito já existem por meio de complexos
maquinismos a vapor e até elétricos nos estados farinheiros de nosso país. Tem também
uma peça para enxugar a massa, que se denomina "prensa". Depois da enxuga da
massa é essa retirada da prensa e levada ao forno onde homens especialistas no assunto,
chamados "forneiros", a cozem ou torrefazem, espalhando-a, para isso, com uma
pequena prancheta de madeira a que denominam "coipeba" e mexendo-a com o rodo,
peça essa que consiste num semicírculo de madeira adaptado à extremidade de uma vara
ordinariamente de pindaíba puruna, ao que parece, de duração multisecular.
Na farinhada toda gente sertaneja trabalha com satisfação. Todos têm uma função
diferente a cumprir e cada qual quer trabalhar mais.
Alguns homens vão para os mandiocais para arrancar os tubérculos da mandioca ou raízes,
como vulgarmente são denominados esses e outros, e os transportam para as casas de
farinha. As mulheres e crianças raspam os tubérculos, cabendo também às mulheres a
extração do amido ou polvilho com que fabricam os beijus e a tão deliciosa e procurada
farinha de coco. Assim decorre o dia e chega a noite. Durante a noite a "coisa"
e outra. Aparecem os sanfoneiros, violeiros, dançadores de cocos, de rojões, baião,
etc. Aí começa a fanfarra. De quando em quando, um golinho de cortabuchinho, um café
com beiju e, assim, a noite passa.
Se o sertanejo pudesse, farinhada e moagem de cana nunca se acabavam. Nesse período não
há tristezas no sertão; todos vivem alegres e satisfeitos como se estivessem no Paraíso
que pai Adão não soube aproveitar!
Um sertanejo do Brasil, quando canta numa terreirada, sabe dizer muito bem os segredos e
os sentimentos do seu coração. Cada uma nota produzida pelas cordas de sua viola, é uma
queixa que se desprende de seu coração magoado.
Pois bem. Se você nunca viu uma farinhada, vá vê-la para crer; depois, diga para quem
não conhece o que é essa função.
Eu tenho certeza de que o leitor que não conhece o norte, indo lá, vai trazer saudades;
nem que seja do grito dos boiadeiros e do cantar da passarada.
Quem já ouviu e viu o movimento de uma casa de aviamento nunca mais esquecerá o ruído
do caetetu. Quem já ouviu o cantar do sertanejo, nunca mais esquecerá as terreiradas
onde ele se faz ouvir. Não esquecerá, jamais, a música alegre que tanto toca ao
coração do caboclo que não sabe ler nem escrever, mas tem dinamismo para viver. E é
justamente com aquele povo humilde que o Brasil espera e conta para defesa de sua
integridade e de suas tradições.
Agora, mais do que nunca, o Brasil tem razão de dizer: "Eu acredito no caboclo que
criei". Nesse mesmo caboclo que trabalha nas farinhadas e nas moagens e sabe laçar
boi. Eu acredito nele!
No seringueiro e no garimpeiro, eu tenho fé.
No mineiro que não se cansa de furar meu corpo, em busca daquilo de que eu mesmo preciso,
eu confio.
Enfim, nessa gente que não tem eletricidade na choupana, nem freqüenta cassinos, nem
cabarés, é que eu tenho confiança para minha defesa.
Eu sei perfeitamente que o desejo do leitor é demasiado em conhecer a vida roceira, assim
como era grande a minha vontade de ver de perto as cidades e, principalmente, o Rio de
Janeiro. Vim, e aqui fiquei atraído pela beleza da cidade e das mulheres.
Quando eu for para o meu sertão, vou contar para muita gente o que eu vi neste
"mundão" de capital. Se for preciso, até samba eu vou cantar. Vou ensinar para
aquela gente como se toca tamborim e se faz uma marcação ao som de uma cuíca. Mas...
antes de tudo, quero ouvir primeiramente uma toada e um batuque ao som de uma viola e
quero dançar um coco na marcação de um ganzá e um maracatu, ao compasso de um gonguê.
Quero ouvir dois cantadores de desafio e uma sanfona tocar até o dia clarear. Quero
também assistir a caboclada dançando um reisado e quero tomar parte num "bumba meu
boi". Quero cevar mandioca no caetetu e puxar o rodo para torrar farinha e beiju e
quero, acima de tudo, dançar um baião com as caboclas de minha terra.
Leitor. queres ver tudo isto, vai ao sertão, porque
O Brasil é muito grande
Tem de tudo; pode crer:
Tem ouro, prata e brilhante
Café pra dar e vender
(Norte, Zé do. Brasil
sertanejo. Rio de Janeiro, Artes Gráficas, 1948, p.25-27) |
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