MundéPedra escorada por pequenas traves entalhadas, à guisa de arapuca; a isca
fica espetada na vareta que deslocada, faz desabar a laje, esmagando a caça. Anotamos
dois tipos de mundé: um menor, para animais pequenos (roedores, etc.) e um grande
utilizado para matar raposas, gatos, guaxinins, etc. As tribos da região conheciam as
armadilhas ou mundéus como registra Estevão Pinto (Indígenas do Nordeste,
citando Gull Piso e G. Marcgrav em História naturalis Brasiline, 372, Lugdun,
Batavomm et Amstelodomi, 1648). Em outro livro (Etnologia brasileira) diz que
encontrou as armadilhas ou mundéus entre os índios fulniô (Águas Belas, PE), sob a
designação de quixó. Também na área limitada por essa nossa pesquisa, alguns
sertanejos embaralham os termos quixó, mundé e quebra-cabeça.
Quebra-cabeça
É uma tora de árvore, pesada, erguida em armadilha a moda do mundé. De banda,
constroem pequenas faxinas que obrigam a caça alcançar a isca por uma única entrada.
Fôjo ou quixó
a) Para roedores
Pequena tábua, com eixo encravado a poucos milímetros do centro para que gire quando
se faça pressão no seu lado menor, voltando, por si mesma, à posição anterior
(horizontal). É armada sobre uma lata de querosene enterrada no chão para impedir que o
animal prisioneiro fuja cavando o solo. As alas da entrada são barradas com pedras e
rosetas de espinho (xique-xique) de modo a forçar a caça o acesso apenas pela tábua
alçapão. Estevão Pinto encontrou-a entre os fulniô com o nome de arataca.
b) Fojo de porcos
Ainda como o registrava Antônio de Morais (Dicionário da língua portuguesa):
"Cova profunda, cuja boca é tapada com rama ou caniçada sutil, e uma tona de
terra, de sorte que ceda ao peso do animal, que lhe passe por cima."
c) Fojo de veado
A referência encontrada falava de uma ramada de garranchos, à moda faxina, alevantada
a cerca de 60 centímetros de altura, na vereda onde o veado costuma passar. Depois de uns
dias, quando o bicho já estava acostumado a transpor o pequeno obstáculo cavavam
um buraco de mais ou menos dois metros de profundidade após o mesmo. O veado transpunha a
pequena faxina indo cair no fosso onde ficava prisioneiro.
Arataca
Armadilha de ferro que consiste em duas "queixas" (mandíbulas) impelidas por
uma mola fortíssisna. Quando armada, as queixas ficam escancaradas e a isca no centro das
mesmas. A caça muitas vezes fica aprisionada pela mão. A armadilha é presa por uma
corrente à árvore mais próxima. É usada para onças, raposas, gatos, etc. Há muito
tempo, eram importadas; agora são manufaturadas pelos ferreiros sertanejos. O matuto vê
na arataca um modelo de feiura, donde a comparação: "feio que só uma
arataca..."
Chiqueiro
Gaiola estaqueada no chão, de madeira resistente e tapada por cima cuja porta é
armada em gaveta. São iscados com uma ave putrefata ou com um animal vivo
dependendo da caça para qual foi armada. Ulisses Lins (Um sertanejo e o sertão)
encontrou a usança no sertão pernambucano:
"Ainda hoje ss sertanejos pegam onças que acaso aparecem nos lugares mais ermos,
preparando armadilhas nos caldeirões, de maneira tal que, quando uma delas pisa em
determinado ponto, a tampa da armadilha cai, ficando a bicha prisioneira."
Otávio Domingues (A cabra na paisagem do Nordeste) faz detalhada descrição do
chiqueiro encontrado nos sertões do Ceará:
"Trata-se de uma sólida construção de madeira, com três divisões (ou duas): numa
delas, a menor (1 x 1,80m), fica a "isca", que é em geral um bode, mas pode ser
também um cavalo; as outras duas, maiores (1,80 x 1,80), têm por fim aprisionar a onça,
e ficam cada uma de cada lado da primeira.
As paredes dos três chiqueiros são de pau-a-pique, roliço, bem fincado no chão, com 15
cm de diâmetro, e com 1,60m de altura. Fechados, por cima, os chiqueiros, e na altura de
1m do chão, há uma estiva de madeira roliça, recoberta de pedras, para dar mais
segurança contra a onça, que tente escapar, depois de aprisionada.
A entrada para o chiqueiro-armadilha, fica no meio da parede lateral, e tem a largura de
40 cm por 80 cm de altura, quando aberta. Obturando esta abertura, corre uma porta de
guilhotina, que é mantida suspensa por um dispositivo à moda de arapuca. A onça,
atraída pelos berros do bode, tenta alcançá-lo penetrando pela porta de um dos
chiqueiros, únicas aberturas à sua vista. Ao penetrar, a onça faz disparar a armadilha;
a porta cai, e ela fica prisioneira sem poder agarrar o bode, que se acha ao lado, no
chiqueiro menor, fora de seu alcance.
A onça vermelha, que é mais comum por aquelas paragens, é o Felis (Puma) concolor
greeni (Nelson & Goldman), raça geográfica do Nordeste. A pintada ou Panthera
(Jaguarius) onca onca (L.) raça geográfica do Norte e Nordeste, é hoje muito
rara.
Mas a onça não ataca apenas os bodes; ela come também poldros e jumentos, dizendo-se
até mesmo que enquanto algumas preferem estes, outras dão preferência à miunça. Por
isso a isca é às vezes um cavalo e em outros casos usam mesmo duas iscas, uma de cada
espécie para maior segurança do êxito da armadilha."
Esparrela
Em Portugal, A. Morais, no dicionário aludido, já definia o termo como
"armadilha de caçar pássaros".
Em uma vara flexível, de mais ou menos a grossura de um dedo, fazem um pequeno orifício
(no terço mais grosso da vara). Na ponta é atada uma linha forte que passa pelo furo da
vara, então flexionada, para formar uma laçada. A extremidade de um ponteiro é
introduzida no mencionado orifício, obstruindo assim a passagem do nó da laçada. O
laço fica armado sobre o referido ponteiro pouso forçado do pássaro que venha
beliscar a isca. A avezinha pisando no ponteiro, desobstrui o furo que faz apertar o nó
da laçada, prendendo-a pelos pés.
Arapuca
Parece obedecer ao mesmo feitio em todo o Brasil. Idênticas às manufaturadas pelos
meninos sertanejos encontramos no interior do Maranhão e do estado do Rio de Janeiro.
Ribeiro C. Lessa Vocabulário de caça, a descreve:
"Pequena armação de pedaços de pau ou taquara, em cuja armadilha colocam alguns
grãos de milho. A ave, ao picar o milho, faz desandar a armadilha, e a arapuca perdendo o
apoio que a mantinha suspensa de um lado, cai-lhe em cima e a prende."
Sangra
É semelhante, na sua forma de pirâmide, à arapuca. De tamanho, é mais avantajada.
Repousa no solo havendo apenas uma entrada, à moda de jequi, por onde as aves penetram
ficando aprisionadas. É muito empregada na caça das ribaçãs, marrecas, paturis, etc.
Não é raro, em um dia, apreender dez a vinte aves.
Espingarda (Ou rifle Winchester calibre 44)
É apontado, à guisa de armadilha, para a vereda por onde a caça costuma passar.
Atravessando o caminho fica uma linha de carretel que, forçada, faz saltar uma vara
flexionada que percute em outra vara ligada ao gatilho da arma. Empregada para caça mais
grossa (onças, gatos, veados, etc.).
No município de Macaé (estado do Rio de Janeiro) encontramos o uso de uma pequena cruz
na beira da vereda onde havia armadilha de espingarda para alertar os que por ali
passavam.
Ulisses Lins (Um sertanejo e o sertão) registra-a na caatinga pernambucana:
"Outros, armam um bacamarte (ou um Winchester) numa estreita vereda por onde sabem
que a onça tem de passar forçosamente para a bebida (um, caldeirão ou uma aguada); e,
quando a sua pata pousa no ponto estratégico um cordel, ali amarrado, é impelido,
puxando o gatilho da arma. O tiro atinge certeiro o peito da fera! Às vezes acontece que
uma rês passa por ali e recebe a descarga..."
Facho
O sertanejo facheia a ribaçã, nas noites de escuro, de modo parecido ao que o
pescador das praias faz com a lagosta e o aratu. F. Barros Júnior (Caçando e pescando
por todo o Brasil) faz uma descrição minuciosa do processo:
"... apesar da proibição do governo, ainda as apanham à noite, quando dormem
empoleiradas nos galhos dos pequenos arbustos da caatinga. Levam dependurado ao pescoço,
um saco de aniagem. Na mão esquerda, vai um archote resinoso, ou lamparina de querosene,
e com a direita as apanham, de modo a evitar que se debatam, para não assustar as outras.
Pela posição em que as tomam, ficam elas com o pescoço entre os dedos polegar e
indicador, e com um movimento da unha daquele quebram-lhes o pescoço de encontro à
falange deste. Também costumam esmagar-lhes a cabeça entre os dentes... Enchem um saco
em menos de uma hora!"
Cabaça
Empregada exclusivamente na caça dos palmípedes. Com antecedência de alguns dias,
deixam flutuando no açude grandes cabaças (Lagenaria vulgaris Ser., família das
Cucurbitáceas). Logo que as aves, geralmente marrecas, se acamaradam com as cabaças,
fazem, em uma maior, um buraco que caiba a cabeça do freguês e mais dois pequenos furos,
na altura dos olhos, por onde espiar. Nadando, de manso, o caçador toma chegada até que
as bichinhas lhe fiquem ao alcance da mão. Ali é só puxá-las pelos pés, torcer o
pescoço e guardá-las em um saco que leva preso à cintura.
Alçapão
Pequena gaiola de tampa articulada que se fecha quando o pássaro pisa no seu interior.
Empregado na captura de aves canoras.
Visgo
A caatinga seridoense é escassa em árvores leitosas para visgo (exceto a maniçoba
Manihot Glaziovii Muell. Arg., da família das Euforbiáceas cujo
látex não é considerado bom para este fim). Daí, há uns tempos atrás, os pegadores
de papagaio mandar trazê-lo do baixo sertão. O "leite" mais preferido era o de
jaqueira (Artocarpus integrifolia Linn., da família das Moráceas), maçaranduba
Manilkara rufula Lam., da família das Sapotáceas e a burra-leiteira (Sapium
sceleratum Ridley, da família das Euforbiáceas).
Colhido o leite, é aquecido à consistência desejada, adicionando carvão em pó para
camuflá-lo. O visgo é espalhado em varinhas colocadas em derredor da "ave
chama". A caçada de visgo é usada sempre à tardinha para evitar o saque pelas
abelhas do arapuá. Ouvimos de um pegador de papagaios que a ave não fica presa pelos
pés, isto é, sentindo-se tolhida começa a se debater até desprender-se, ficando porém
impossibilitada de voar em vista das penas das asas estarem grudadas de visgo.
Laço
Forte vara flexionada de cuja extremidade parte uma corda ou relho aberto em laçada.
Usada na apreensão dos gatos, raposas, etc. A caça fica presa quase sempre pelo pescoço
sendo por isso revestida a parte superior da laçada com uma taquara, evitando assim que
corte a corda com os dentes. Os meninos usam também armar laços de crina de cavalo, no
chão, para pegar passarinhos.
Lata de soda cáustica
A lata, depois de iscada, é deixada perto da morada do peba. Este, tentando alcançar
a isca, dizem que fica sem poder retirar a cabeça de dentro da lata, devido as
articulações dorsais ficarem presas nos bordos da mesma.
Telha amarrada
Duas telhas são amarradas com as partes côncavas para o interior e de modo que uma
abertura seja bem maior que a outra. O processo de apreensão é idêntico ao ítem
anterior.
Cachaça
Dizem utilizar na caça da raposa. Enchem uma casca de melão ou melancia com
aguardente e colocam nos locais mais freqüentados pela caça. Asseguram que as raposas
bebem todo o liquido e ficam bêbadas a perambular pelos roçados...
Anzol
No início da estação chuvosa (inverno) os tejuaçus, que durante a seca ficam
entocados, em latência surgem, nas horas de sol a pino, quando são caçados. Daí
o gracejo aos que acordam tarde: "Fulano fez madrugada de tejuaçu". A caçada
do teju é feita quase sempre com cachorro. Vez por outra, entretanto, é fisgado por um
anzol iscado com carne verde.