Ano V - março  2003 - nº 55

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 55
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA

setaquad.gif (95 bytes)Armadilhas de caça utilizadas no sertão do Seridó, por Osvaldo Lamartine de Faria.

setaquad.gif (95 bytes)A farinhada, por Zé do Norte.

setaquad.gif (95 bytes)O monjolo, por Fausto Teixeira.

PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

ARMADILHAS DE CAÇA

Osvaldo Lamartine de Faria


Mundé

Pedra escorada por pequenas traves entalhadas, à guisa de arapuca; a isca fica espetada na vareta que deslocada, faz desabar a laje, esmagando a caça. Anotamos dois tipos de mundé: um menor, para animais pequenos (roedores, etc.) e um grande utilizado para matar raposas, gatos, guaxinins, etc. As tribos da região conheciam as armadilhas ou mundéus como registra Estevão Pinto (Indígenas do Nordeste, citando Gull Piso e G. Marcgrav em História naturalis Brasiline, 372, Lugdun, Batavomm et Amstelodomi, 1648). Em outro livro (Etnologia brasileira) diz que encontrou as armadilhas ou mundéus entre os índios fulniô (Águas Belas, PE), sob a designação de quixó. Também na área limitada por essa nossa pesquisa, alguns sertanejos embaralham os termos quixó, mundé e quebra-cabeça.

Quebra-cabeça

É uma tora de árvore, pesada, erguida em armadilha a moda do mundé. De banda, constroem pequenas faxinas que obrigam a caça alcançar a isca por uma única entrada.

Fôjo ou quixó

a) Para roedores

Pequena tábua, com eixo encravado a poucos milímetros do centro para que gire quando se faça pressão no seu lado menor, voltando, por si mesma, à posição anterior (horizontal). É armada sobre uma lata de querosene enterrada no chão para impedir que o animal prisioneiro fuja cavando o solo. As alas da entrada são barradas com pedras e rosetas de espinho (xique-xique) de modo a forçar a caça o acesso apenas pela tábua alçapão. Estevão Pinto encontrou-a entre os fulniô com o nome de arataca.

b) Fojo de porcos

Ainda como o registrava Antônio de Morais (Dicionário da língua portuguesa):

"Cova profunda, cuja boca é tapada com rama ou caniçada sutil, e uma tona de terra, de sorte que ceda ao peso do animal, que lhe passe por cima."

c) Fojo de veado

A referência encontrada falava de uma ramada de garranchos, à moda faxina, alevantada a cerca de 60 centímetros de altura, na vereda onde o veado costuma passar. Depois de uns dias, quando o bicho já estava acostumado a transpor o pequeno obstáculo — cavavam um buraco de mais ou menos dois metros de profundidade após o mesmo. O veado transpunha a pequena faxina indo cair no fosso onde ficava prisioneiro.

Arataca

Armadilha de ferro que consiste em duas "queixas" (mandíbulas) impelidas por uma mola fortíssisna. Quando armada, as queixas ficam escancaradas e a isca no centro das mesmas. A caça muitas vezes fica aprisionada pela mão. A armadilha é presa por uma corrente à árvore mais próxima. É usada para onças, raposas, gatos, etc. Há muito tempo, eram importadas; agora são manufaturadas pelos ferreiros sertanejos. O matuto vê na arataca um modelo de feiura, donde a comparação: "feio que só uma arataca..."

Chiqueiro

Gaiola estaqueada no chão, de madeira resistente e tapada por cima —cuja porta é armada em gaveta. São iscados com uma ave putrefata ou com um animal vivo — dependendo da caça para qual foi armada. Ulisses Lins (Um sertanejo e o sertão) encontrou a usança no sertão pernambucano:

"Ainda hoje ss sertanejos pegam onças que acaso aparecem nos lugares mais ermos, preparando armadilhas nos caldeirões, de maneira tal que, quando uma delas pisa em determinado ponto, a tampa da armadilha cai, ficando a bicha prisioneira."

Otávio Domingues (A cabra na paisagem do Nordeste) faz detalhada descrição do chiqueiro encontrado nos sertões do Ceará:

"Trata-se de uma sólida construção de madeira, com três divisões (ou duas): numa delas, a menor (1 x 1,80m), fica a "isca", que é em geral um bode, mas pode ser também um cavalo; as outras duas, maiores (1,80 x 1,80), têm por fim aprisionar a onça, e ficam cada uma de cada lado da primeira.

As paredes dos três chiqueiros são de pau-a-pique, roliço, bem fincado no chão, com 15 cm de diâmetro, e com 1,60m de altura. Fechados, por cima, os chiqueiros, e na altura de 1m do chão, há uma estiva de madeira roliça, recoberta de pedras, para dar mais segurança contra a onça, que tente escapar, depois de aprisionada.

A entrada para o chiqueiro-armadilha, fica no meio da parede lateral, e tem a largura de 40 cm por 80 cm de altura, quando aberta. Obturando esta abertura, corre uma porta de guilhotina, que é mantida suspensa por um dispositivo à moda de arapuca. A onça, atraída pelos berros do bode, tenta alcançá-lo penetrando pela porta de um dos chiqueiros, únicas aberturas à sua vista. Ao penetrar, a onça faz disparar a armadilha; a porta cai, e ela fica prisioneira sem poder agarrar o bode, que se acha ao lado, no chiqueiro menor, fora de seu alcance.

A onça vermelha, que é mais comum por aquelas paragens, é o Felis (Puma) concolor greeni (Nelson & Goldman), raça geográfica do Nordeste. A pintada ou Panthera (Jaguarius) onca onca (L.) — raça geográfica do Norte e Nordeste, é hoje muito rara.

Mas a onça não ataca apenas os bodes; ela come também poldros e jumentos, dizendo-se até mesmo que enquanto algumas preferem estes, outras dão preferência à miunça. Por isso a isca é às vezes um cavalo e em outros casos usam mesmo duas iscas, uma de cada espécie para maior segurança do êxito da armadilha."

Esparrela

Em Portugal, A. Morais, no dicionário aludido, já definia o termo como "armadilha de caçar pássaros".

Em uma vara flexível, de mais ou menos a grossura de um dedo, fazem um pequeno orifício (no terço mais grosso da vara). Na ponta é atada uma linha forte que passa pelo furo da vara, então flexionada, para formar uma laçada. A extremidade de um ponteiro é introduzida no mencionado orifício, obstruindo assim a passagem do nó da laçada. O laço fica armado sobre o referido ponteiro — pouso forçado do pássaro que venha beliscar a isca. A avezinha pisando no ponteiro, desobstrui o furo que faz apertar o nó da laçada, prendendo-a pelos pés.

Arapuca

Parece obedecer ao mesmo feitio em todo o Brasil. Idênticas às manufaturadas pelos meninos sertanejos encontramos no interior do Maranhão e do estado do Rio de Janeiro. Ribeiro C. Lessa — Vocabulário de caça, a descreve:

"Pequena armação de pedaços de pau ou taquara, em cuja armadilha colocam alguns grãos de milho. A ave, ao picar o milho, faz desandar a armadilha, e a arapuca perdendo o apoio que a mantinha suspensa de um lado, cai-lhe em cima e a prende."

Sangra

É semelhante, na sua forma de pirâmide, à arapuca. De tamanho, é mais avantajada. Repousa no solo havendo apenas uma entrada, à moda de jequi, por onde as aves penetram ficando aprisionadas. É muito empregada na caça das ribaçãs, marrecas, paturis, etc. Não é raro, em um dia, apreender dez a vinte aves.

Espingarda (Ou rifle Winchester calibre 44)

É apontado, à guisa de armadilha, para a vereda por onde a caça costuma passar. Atravessando o caminho fica uma linha de carretel que, forçada, faz saltar uma vara flexionada que percute em outra vara ligada ao gatilho da arma. Empregada para caça mais grossa (onças, gatos, veados, etc.).

No município de Macaé (estado do Rio de Janeiro) encontramos o uso de uma pequena cruz na beira da vereda onde havia armadilha de espingarda para alertar os que por ali passavam.

Ulisses Lins (Um sertanejo e o sertão) registra-a na caatinga pernambucana:

"Outros, armam um bacamarte (ou um Winchester) numa estreita vereda por onde sabem que a onça tem de passar forçosamente para a bebida (um, caldeirão ou uma aguada); e, quando a sua pata pousa no ponto estratégico — um cordel, ali amarrado, é impelido, puxando o gatilho da arma. O tiro atinge certeiro o peito da fera! Às vezes acontece que uma rês passa por ali e recebe a descarga..."

Facho

O sertanejo facheia a ribaçã, nas noites de escuro, de modo parecido ao que o pescador das praias faz com a lagosta e o aratu. F. Barros Júnior (Caçando e pescando por todo o Brasil) faz uma descrição minuciosa do processo:

"... apesar da proibição do governo, ainda as apanham à noite, quando dormem empoleiradas nos galhos dos pequenos arbustos da caatinga. Levam dependurado ao pescoço, um saco de aniagem. Na mão esquerda, vai um archote resinoso, ou lamparina de querosene, e com a direita as apanham, de modo a evitar que se debatam, para não assustar as outras. Pela posição em que as tomam, ficam elas com o pescoço entre os dedos polegar e indicador, e com um movimento da unha daquele quebram-lhes o pescoço de encontro à falange deste. Também costumam esmagar-lhes a cabeça entre os dentes... Enchem um saco em menos de uma hora!"

Cabaça

Empregada exclusivamente na caça dos palmípedes. Com antecedência de alguns dias, deixam flutuando no açude grandes cabaças (Lagenaria vulgaris Ser., família das Cucurbitáceas). Logo que as aves, geralmente marrecas, se acamaradam com as cabaças, fazem, em uma maior, um buraco que caiba a cabeça do freguês e mais dois pequenos furos, na altura dos olhos, por onde espiar. Nadando, de manso, o caçador toma chegada até que as bichinhas lhe fiquem ao alcance da mão. Ali é só puxá-las pelos pés, torcer o pescoço e guardá-las em um saco que leva preso à cintura.

 

Alçapão

Pequena gaiola de tampa articulada que se fecha quando o pássaro pisa no seu interior. Empregado na captura de aves canoras.

Visgo

A caatinga seridoense é escassa em árvores leitosas para visgo (exceto a maniçoba — Manihot Glaziovii Muell. Arg., da família das Euforbiáceas — cujo látex não é considerado bom para este fim). Daí, há uns tempos atrás, os pegadores de papagaio mandar trazê-lo do baixo sertão. O "leite" mais preferido era o de jaqueira (Artocarpus integrifolia Linn., da família das Moráceas), maçaranduba — Manilkara rufula Lam., da família das Sapotáceas e a burra-leiteira (Sapium sceleratum Ridley, da família das Euforbiáceas).

Colhido o leite, é aquecido à consistência desejada, adicionando carvão em pó para camuflá-lo. O visgo é espalhado em varinhas colocadas em derredor da "ave chama". A caçada de visgo é usada sempre à tardinha para evitar o saque pelas abelhas do arapuá. Ouvimos de um pegador de papagaios que a ave não fica presa pelos pés, isto é, sentindo-se tolhida começa a se debater até desprender-se, ficando porém impossibilitada de voar em vista das penas das asas estarem grudadas de visgo.

Laço

Forte vara flexionada de cuja extremidade parte uma corda ou relho aberto em laçada. Usada na apreensão dos gatos, raposas, etc. A caça fica presa quase sempre pelo pescoço sendo por isso revestida a parte superior da laçada com uma taquara, evitando assim que corte a corda com os dentes. Os meninos usam também armar laços de crina de cavalo, no chão, para pegar passarinhos.

Lata de soda cáustica

A lata, depois de iscada, é deixada perto da morada do peba. Este, tentando alcançar a isca, dizem que fica sem poder retirar a cabeça de dentro da lata, devido as articulações dorsais ficarem presas nos bordos da mesma.

Telha amarrada

Duas telhas são amarradas com as partes côncavas para o interior e de modo que uma abertura seja bem maior que a outra. O processo de apreensão é idêntico ao ítem anterior.

Cachaça

Dizem utilizar na caça da raposa. Enchem uma casca de melão ou melancia com aguardente e colocam nos locais mais freqüentados pela caça. Asseguram que as raposas bebem todo o liquido e ficam bêbadas a perambular pelos roçados...

Anzol

No início da estação chuvosa (inverno) os tejuaçus, que durante a seca ficam entocados, em latência — surgem, nas horas de sol a pino, quando são caçados. Daí o gracejo aos que acordam tarde: "Fulano fez madrugada de tejuaçu". A caçada do teju é feita quase sempre com cachorro. Vez por outra, entretanto, é fisgado por um anzol iscado com carne verde.



(Faria, Osvaldo Lamartine de. A caça dos sertões do Seridó. Rio de Janeiro, Serviço de Informação Agrícola, 1961. Documentário da Vida Rural, 16, p.46-52)

Jangada Brasil © 1998-2002