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| IMAGINÁRIO
- Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas;
narrativas populares; seres fantásticos... |
Em Piracicaba, na primeira década deste século, havia um lixeiro que além de
barulhento, gostava muito de proferir nomes feios, palavrões. À boca pequena o chamavam
de "João Palavrão", porém jamais alguém ousou chamá-lo pelo apelido porque
estaria sujeito a ouvir a cartilha todinha, da primeira à última página dos nomes
feios, sem gaguejar nas sílabas.
Logo pela manhã, lá vinha ele blasfemando, ora cantando, ora surrando os burros que
puxavam o carroção coletor de lixo da sempre limpa "Noiva da colina".
Um dia encontraram o lixeiro morto na boléia do carroção.
Depois disso, nas últimas noites de quinta para a sexta-feira de todos os meses, nas
horas mortas da noite, ouvia-se o passar do carroção de lixo e o barulho de alguém a
fustigar os animais. Ia-se se ver, nada se via, só ouvia o barulho que passava.
Certa noite, um grupo de estudantes da "Luís de Queirós" e outros moços da
cidade, esperaram para "segurar" aquele carroção barulhento. Eis que, em
determinada hora, ouviu-se o barulho do carroção de lixo que vinha pela rua Alferes
abaixo. Todos se aprestaram para acabar com a barulheira, ficando no meio da rua para
impedir a passagem. Eis porém que o barulho do carroção, do resfolegar dos animais
chicoteados passa por eles e ninguém viu nada. Até os mais corajosos trataram de ir para
as "repúblicas" ou para casa, com o cabelo em pé e o corpo todo arrepiado...
alguns mais mal cheirosos do que o antigo carroção coletor de lixo...
Dizem os barranqueiros que aquele lixeiro blasfemo cumpriu sua pena, acabando assim, lá
por 1915 essa aparição, não saindo mais à noite para cumprir o seu fadário.
(Araújo, Alceu Maynard. Folclore Nacional. São Paulo, Edições
Melhoramentos. v.1, p.434)
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