Ano V - março  2003 - nº 55

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


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SUMÁRIO - EDIÇÃO 55
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO

setaquad.gif (95 bytes)O preguiçoso e o demônio, uma história de Zé do Norte.

setaquad.gif (95 bytes)A noiva de São Pedro, por Viriato Padilha.

setaquad.gif (95 bytes)João Palavrão, por Alceu Maynard de Araújo.

OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

JOÃO PALAVRÃO

Alceu Maynard Araújo


Em Piracicaba, na primeira década deste século, havia um lixeiro que além de barulhento, gostava muito de proferir nomes feios, palavrões. À boca pequena o chamavam de "João Palavrão", porém jamais alguém ousou chamá-lo pelo apelido porque estaria sujeito a ouvir a cartilha todinha, da primeira à última página dos nomes feios, sem gaguejar nas sílabas.

Logo pela manhã, lá vinha ele blasfemando, ora cantando, ora surrando os burros que puxavam o carroção coletor de lixo da sempre limpa "Noiva da colina".

Um dia encontraram o lixeiro morto na boléia do carroção.

Depois disso, nas últimas noites de quinta para a sexta-feira de todos os meses, nas horas mortas da noite, ouvia-se o passar do carroção de lixo e o barulho de alguém a fustigar os animais. Ia-se se ver, nada se via, só ouvia o barulho que passava.

Certa noite, um grupo de estudantes da "Luís de Queirós" e outros moços da cidade, esperaram para "segurar" aquele carroção barulhento. Eis que, em determinada hora, ouviu-se o barulho do carroção de lixo que vinha pela rua Alferes abaixo. Todos se aprestaram para acabar com a barulheira, ficando no meio da rua para impedir a passagem. Eis porém que o barulho do carroção, do resfolegar dos animais chicoteados passa por eles e ninguém viu nada. Até os mais corajosos trataram de ir para as "repúblicas" ou para casa, com o cabelo em pé e o corpo todo arrepiado... alguns mais mal cheirosos do que o antigo carroção coletor de lixo...

Dizem os barranqueiros que aquele lixeiro blasfemo cumpriu sua pena, acabando assim, lá por 1915 essa aparição, não saindo mais à noite para cumprir o seu fadário.



(Araújo, Alceu Maynard. Folclore Nacional. São Paulo, Edições Melhoramentos. v.1, p.434)

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