|
|
| IMAGINÁRIO
- Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas;
narrativas populares; seres fantásticos... |
Jesus Cristo e seus dois amados discípulos, Pedro e João, passeavam uma vez pelo mundo,
como Nosso Senhor costumava fazer para ver de perto o estado dos homens e das coisas.
Enquanto caminhavam, discorriam sobre vários assuntos.
É preciso que te cases, Pedro, disse de repente o Salvador.
Casar-me, eu! na minha idade, mestre?
Sim, é preciso que te cases.
Mas a quem quereis então que despose, mestre?
A primeira rapariga que encontrarmos no caminho.
Seja, pois assim o quereis.
Pouco tempo depois, encontraram os três, uma rapariga feia e suja, uma criada do campo,
de tamancos e com as pernas cheias de lama do curral.
Então, Pedro, disse Jesus Cristo vendo-a, eis ali a que será tua
mulher!
Não, meu Senhor peço perdão, mas com essa não me caso eu, respondeu
Pedro fazendo uma careta.
Porque não a queres, então?
Por quê?; Vede quanto é feia e suja, e nem ao menos moça.
Tu também não és moço, nem tão belo rapaz, como talvez penses. Mas, enfim,
como não queres essa, há de ser agora a primeira mulher que encontrarmos nesta estrada.
Prefiro isso, porque espero que será impossível encontrar pior.
E continuaram o caminho.
Não tardaram a encontrar uma velha apoiada sobre um cacete, a cabeça trêmula, os pés
atravessados e mais suja ainda do que a primeira.
Nosso Senhor riu-se, vendo-a, e, voltando-se para São Pedro, disse: Agora, eis
aqui a tua mulher.
Nunca, respondeu Pedro, voltando a cabeça e fazendo uma horrível careta.
Antes a primeira; mas não quero nem uma nem outra...
Acho-te bem difícil, meu amigo, mas não importa. A primeira que encontrarmos
agora é preciso que aceites, qualquer que seja.
Perfeitamente, e seja o que for, não será jamais coisa pior.
* * *E, continuando o seu caminho, encontraram outra velha, curvada sobre um bastão
nodoso, e arrastando com dificuldade os pés; além disso, era corcunda e zarolha, não
tinha na boca senão dois dentes compridos e negros, que estremeciam a cada passo que ela
dava.
Dir-se-ia uma verdadera feiticeira, O seu corpo era coberto de sujos molambos, e, tão
cheirosos, que causavam náuseas ao mais forte estômago.
Agora não podes mais recusar, Pedro; eis a tua mulher. disse Jesus.
O pobre Pedro soltou um grande suspiro, voltou a cabeça de desgosto, e não pronunciou
uma palavra.
Não há que hesitar, continuou o Salvador, é preciso que a desposes, já
que desdenhaste as outras, que eram talvez um pouco melhores.
Casarei na primeira aldeia que encontrarmos.
E continuaram o caminho acompanhados da velha, que apesar da sua idade e do seu miserável
estado, estava satisfeita de encontrar enfim com quem casar. Mas Pedro não queria
caminhar ao lado dela, nem mesmo olhá-la, e Nosso Senhor gracejava, dizendo que fosse
mais galante com a sua noiva, que lhe desse o braço. Ele marchava alguns passos atrás,
com a cabeça baixa e muito triste.
Um milagre de Jesus
Chegaram assim a uma forja. Havia ali um ferreiro muito afamado no país e de quem não
se falava senão com respeito, chamando-o sempre grande ferreiro; o primeiro de todos os
ferreiros.
Entremos um pouco nesta forja, disse Nosso Senhor aos seus companheiros de
viagem.
Entraram todos quatros, e Jesus disse ao mestre ferreiro:
Dê-me licença, ferreiro, de fazer uma boa têmpera sobre a sua bigorna, pois
também sou ferreiro.
O ferreiro olhou com desdém para aquele que lhe falara, ergueu os ombros e não
respondeu; mas o seu ajudante disse:
Não é assim, meu bravo, que se fala a meu mestre; pois deveis saber que é o
primeiro ferreiro do mundo, e não há igual nem mesmo que dele se aproxime.
Como é então que preciso falar a seu mestre?
Desta maneira (e com o chapéu na mão): "Salve, grande ferreiro, mestre, o
primeiro dos ferreiros; terá a bondade de me permitir que faça uma têmpera sobre sua
bigorna?
O Senhor repetiu as palavras do ajudante.
Com prazer, agora que me falas como me convém.
* * *
A mãe do ferreiro, velha e caduca, aquecia-se ao pé do fogo; Jesus Cristo
suplicou-lhe que se afastasse um pouco, e, tomando a noiva de São Pedro, atirou-a ao
fogo.
Deus! que fazes, malvado? exclamou a mãe do ferreiro.
Deixa-me fazer, vovó, e não se incomode; é para o seu bem, como vai ver.
Ainda bem, disse São Pedro, eis-me livre desta feiticeira.
Pouco depois, Nosso Senhor, retirou a velha do fogo, com as tenazes e pondo-a sobre a
bigorna, como uma massa de ferro vermelho que se tira da fornalha, disse:
Vamos, cada um que tome um malho e bata forte.
E tomaram cada um o seu malho e bateram a velha sobre a bigorna, como se fosse de ferro;
São Pedro, principalmente, malhava de rijo, com verdadeiro prazer.
Depois, Jesus tornou a pô-la no fogo, retirou-a e bateram-na de novo. E assim três
vezes. À força de passar no fogo e de ser batida, a noiva de São Pedro perdeu a
corcunda, tornou-se uma mulher jovem, bela e tão perfeita, que os assistentes ficaram
boquiabertos.
Então, ferreiro, mestre ferreiro, o primeiro dos ferreiros, és capaz de fazer
outro tanto?, perguntou o Salvador.
Ele nada respondeu e mal disfarçava o seu pasmo.
Então? embora se faça chamar mestre ferreiro, o primeiro dos ferreiros achou o
seu mestre, parece-me.
É possível, mas experimentarei todavia, porque me custa crer que haja ferreiro no
mundo capaz de fazer um trabalho de oficio, que eu não possa fazer também.
O ferreiro e sua velha mãe
Os três viajantes partiram então e a linda mulher acompanhou-os.
São Pedro estava agora muito feliz de ter noiva tão jovem, tão bela, e já não se
fazia rogar para se aproximar dela.
Apenas deixaram a forja, o mestre ferreiro disse:
Farei também o que aquele homem fez e não se dirá que achei enfim mestre.
E tomando sua velha mãe, atirou-a ao fogo.
Mas ai! quando a retirou da fornalha, para batê-la na bigorna, a cada golpe que batiam,
ele e o seu companheiro, o sangue jorrava de todos os lados, com pedaços de ossos
esmagados.
Batiam cada vez mais, sem verem chegar a mulher bela e jovem que esperavam.
Eis o ferreiro desolado de ter assassinado a sua boa mãe.
Correu atrás dos três estrangeiros. Viu de longe que subiam uma encosta escarpada, e
gritou-lhes:
Eh! eh! não me ouvem? Senhores estrangeiros!
Eles bem ouviam, mas de propósito faziam ouvidos de mercador e continuavam a caminhar.
Então o ferreiro mudou de linguagem e gritou-lhes:
Mestre, caro mestre, em nome de Deus.
Que há, bom homem? perguntou Nosso Senhor. E parou.
Ai aconteceu-me uma grande desgraça!...
Que lhe aconteceu então mestre ferreiro, o primeiro dos ferreiros?
Minha mãe, minha pobre mãe morreu!
Como assim?
Ai! quis fazer como o senhor fez para remoçá-la e matei-a!
Como! Pois o amigo me tinha dito que era um mestre ferreiro, que não tinha igual
no mundo?
Ah sim, mas agora vejo que não valho nada ao pé do senhor, e peço-lhe perdão.
Oh! certamente.
O mestre amava sua mãe?
E tem saudades dela?
Oh! sim; tenho saudades do fundo do meu coração; restitua-ma.
Pois bem, volte e encontrará sua mãe viva e de saúde. Mas para outra vez, seja
mais modesto e não diga que não há mestre na terra.
O ferreiro voltou à forja e encontrou sua mãe, que se aquecia sentada em um banco ao pé
do fogão. Foi uma boa lição, para ele não ser tão orgulhoso.
E São Pedro casou-se? perguntarão os nossos leitorezinhos.
A história não o diz.
(Padilha, Viriato. Histórias do arco da velha; livro para
crianças. Nova edição. Rio de Janeiro, Livraria Quaresma, 1959. Biblioteca Infantil da
Livraria Quaresma, p.134-136)
|
|