
As santas missões, por Alexandre José
de Melo Morais Filho.
O
morcego, o dominó, o papangu, o doutor, o urso, o príncipe, a morte, o diabinho, por
Eustórgio Wanderlei
Entrudo
e frevo, por Mário Sette
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| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
Mário Sette
Especial para o Anuário do carnaval pernambucano |
De começo não havia propriamente carnaval no Recife. Existia, apenas, entrudo. O
brinquedo intenso e brutal de água, em combates a quartinhas, gamelas, bacias e barris.
Todos se empenhavam nessas lutas - forros e escravos, por vezes misturados como se fossem
de igual plano social. Um periódico crítico, da época, verberava essas misturas em que
as "sinhazinhas", nas varandas, brincavam o entrudo com todo mundo, "até
com as molecas". Pouco a pouco esse entrudo se estemdia à goma, farinha do reino,
açúcar e mesmo pó de carvão.
Os jornais dele só se ocupavam para fazer censuras. Conta Pereira da Costa que já em
1822 expedira-se uma portaria proibindo esses costumes, mas tão enraizados eles se
achavam que o ato oficial foi letra morta, "para inglês ver", como se dizia
nesse tempo. Ao contrário, o entrudo chegava ao auge, atingindo arrabaldes e povoações
do interior, tingindo-se mesmo a água de várias cores para tornar os indivíduos que a
recebessem de cabeça abaixo mais carnavalescos... Nem sempre, porém, as vitimas se
conformavam com o banho, para sorrir com agrado ou sem ele; muitos reagiam e brotavam daí
barulhos, conflitos, mortes.
Como um meio de atenuar um tanto a brutalidade do brinquedo nasceram as limas e limões de
cheiro, fabricadas de cera e cheias de água perfumada. As famílias meses antes dos dias
de Momo, preparavam essas limas e limões para uso próprio ou para mandar vendê-las nas
ruas, em tabuleiros, pelos escravos.
A mascarada apareceu, no Recife, no meado do século XIX. Nos bailes apenas. Trajos
vistosos ou cômicos, com cabeleiras e máscaras. A moda pegou depressa. Os teatros
públicos se encheram de foliões e de curiosos. Tanto assim que os mascarados logo depois
se afoitaram a sair à rua, em cortejos ou isolados, afrontando os preconceitos da épocv.
Foram em seguida surgindo os cordões formados por elementos de classes trabalhadoras de
que tomavam os nomes, como lenhadores, espanadores, caiadores, vassourinhas, ciscadores...
Exibiram-se os maracatus, reminiscências dos cortejos africanos e os caboclinhos alusivos
aos indígenas.
Mas, mesmo assim, o carnaval não merecia grande importância. Sente-se isso pelas folhas
daqueles tempos. Em 1880, por exemplo, os três agitados dias de hoje, passavam sem que a
imprensa falasse neles, ou, se falava, era para dar notícias ligeiras ou pejorativas
deste padrão:
"O carnaval, com todo seu cortejo de folias, caricaturas e obscenidades ao som dos
gonzos e dos tamborins. O primeiro dia a mascarada animada; segundo, mais fraco, terceiro,
animadíssimo. lnteressantes pretas quitandeiras da Bahia, de saia e camisa; os negros
fugidos e caranguejeiros; os carregadores de barril. Também não faltou o bumba-meu-boi,
fandango e a cena do rei do Congo."
Outra notícia:
"Poucos máscaras ricos, ou de espírito. Troças de negros pelas ruas. Negros
escravos vestidos de saias. Muitos maracatus. Nas varandas moças de faces afogueadas,
cabelos em desalinho, desenvoltas, a atirarem laranjinhas para defronte, para os
transeuntes, recebendo-as também, até de negros."
Nada mais do que esses períodos curtos, indiferentes, cortantes.
Folheando-se os jornais antigos nota-se que por volta de 1885 foi que o carnaval começou
a interessar também o periodismo como um reflexo de mais amplitude do seu prestígio
entre a população. Já se nomeavam comissões para enfeitar as ruas; já havia
iluminação especial; já "os mancebos folgazões" se reuniam constituindo a
sociedade sob título Sumidades carnavalescas. Surgiam os clubes Cavalheiros da
Época e Trinta e Três que exibiam préstitos de alegorias e críticas "muito
apreciáveis". Em 1893 saiu à rua o clube Os Filomomos, (criado entre funcionários
da Alfândega e comerciantes em grosso do bairro do Recife), que foi a sociedade de maior
destaque no Recife de então. Os bailes à fantasia do lnternacional Juventude, Nova
Hamburgo, teatro Santo Antônio, davam sorte.
O brinquedo já evolvera do primitivo entrudo para as bisnagas, o pó de ouro, o papel
picado. E, depois, o confeti. Civilizava-se. A mascarada aumentara e tinha mais gosto.
Dominós, morcegos, diabinhos, pierrôs, cabeças-grandes. Vários deles em grupos com
pequenas orquestras. Por sua vez, os cordões multiplicavam-se. Houve anos de se
licenciarem para mais de cento e cinqüenta e a maioria se apresentava com luxo de trajos,
estandartes, fanfarras.
O povo fazia tanta questão do seu carnaval que em 1895, no governo Babosa Lima, estando
"as coisas meio pretas", com a cavalaria nas esquinas, a proibição de
máscaras nas caras, os boatos de "bernardas", nem por isso os três dias
decorreram desanimados.
Em 1901 fundou-se o Clube Caraduras. Constituiu uma novidade para o Recife pelos novos
moldes emprestados à folia. Um mês antes do carnaval, o Caraduras, composto quase todo
de oficiais do exército, realizava nas noites de sábados barulhentos zés-pereiras,
levando numa carroça umm palco onde, em pontos movimentados da cidade, dançavam uns
arremedos de pastoris e cantavam cançonetas maliciosas. Era o teatrinho João-Minhoca.
Não se falava noutra coisa. Quando o "palco" se deslocava de uma rua para
outra, o povo ia atrás ansioso de novas "representações" e novas gargalhadas.
Costumavam também os Caraduras, com grande pompa, efetuar o desembarque e o embarque do
rei Momo, com seus filhos: o príncipe Confeti e a princesa Bisnaga.
Nunca mais o Carnaval no Recife perdeu o seu caráter de animação. Modificou-se, é
verdade. A mascarada quase que desapareceu, nas ruas. Os cordões diminuíram de número.
Em compensação, os bailes à fantasia revestiam-se de mais brilho e o "frevo"
proporcionou maior vibração aos clubes. Porque, a princípio, a massa popular que
acompanhava o Pás, Vassourinhas, Lenhadores, por exemplo, não dançava com o ardor de
agora. Fazia o "passo", as suas dobradiças, tesouras, chans de barriguinha
etc., com mais discreção. Hoje, é aquilo que se vê, contagiando até as famílias que
rodam no corso em seus automóveis. O "frevo" passou a ser mesmo a nota típica
do nosso carnaval.
Por sua vez o corso, outrora formado de alguns carros de passeio, puxados a cavalo,
transformou-se no cortejo de dois ou três mil automóveis da atualidade. Desapareceram,
porém, os cavalerianos que antigamente faziam correrias pelas ruas da cidade, exibindo o
garbo e os animais. O brinquedo, por seu turno, requintou-se. Das gamelas e barris do
começo do século XIX, filtrado pelas modificações de lima de cheiro, da bisnaga, do
papel picado, do getoni, alcançou a delicadeza do lança-perfume e da serpentina.
Sem alterar o seu cunho próprio, antes procurando reviver detalhes antigos e que iam
caindo no esquecimento, procura-se, no momento, dar maior realce e importância ao
caranaval de Pernambuco, fazendo dele um motivo de atração turística, como o do Rio de
Janeiro, que, por sinal, não possui o "sabor" do nosso. Poderá ser mais
luxuoso, mais vasto, mais aristocrátivo. O do Recife, porém, é muito mais
característico, mais vibrante, mais popular. A música de nossas marchas e de nossos
maracatus não tem medo de um confronto com as canções e os sambas cariocas. O nosso
"frevo", como o célebre reclamo de um locutor de rádio, é "único".
Este ano tenta-se uma inovação interessante: - os modelos de fantasias inspirados em
estilizações de nossos frutos, de nossos produtos, nossas belezas naturais. A manga, o
coqueiro, a jangada, o engenho, o algodão, são motivos para esses trajes carnavalescos,
e felizes. Havemos de vê-los pelas ruas da cidade, no próximo carnaval, e de gostar
deles, porque são bonitos e expressivos.
Num golpe de vista, resume-se deste modo o carnaval de Pernambuco: - dois desenlhos
simbolizariam a evolução - num, o gamenho que derrama uma quartinha dágua nos
cabelos soltos da gamenha; noutro, um desportista de hoje que esguicha um lança-perfume
na "ondulação permanente" da sua datilógrafa ou da sua cantora de rádio...
(Em Anuário do carnaval pernambucano. Recife,
Federação Carnavalesca Pernambucana, 1938, p.35-40) |
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