Ano V - março  2003 - nº 55

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 55
FESTANÇA

setaquad.gif (95 bytes)As santas missões, por Alexandre José de Melo Morais Filho.

setaquad.gif (95 bytes)O morcego, o dominó, o papangu, o doutor, o urso, o príncipe, a morte, o diabinho, por Eustórgio Wanderlei

setaquad.gif (95 bytes)Entrudo e frevo, por Mário Sette

CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


O MORCEGO, O DOMINÓ, O PAPANGU, O DOUTOR, O URSO, O PRÍNCIPE, A MORTE, O DIABINHO

Eustórgio Wanderlei


Ainda vibram no ar os acordes festivos do carnaval que passou no início da primeira semana deste mês. Não é, portanto, fora de propósito recordar tipos populares do carnaval antigo do Recife, antes, mesmo, da época em que o clube dos Vassourinhas começou a ensaiar os primeiros passos das esfuziantes réplicas do "frevo" com a célebre e tradicional marcha nº 1, ao Regresso, cantada com a popular quadrinha:

Se esta rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas de brilhante
Para meu bem passear...

Naquele tempo grupos de mascarados, com as mais diversas fantasias, saíam cantando, acompanhados por violões, harmônicas (sanfonas) e triângulos (ferrinhos) quase todos estalando castanholas e enfeitadas as fantasias com inúmeros guizos.

Salientavam-se, entre eles, os morcegos que vinham, sempre à frente do grupo, abrindo as grandes asas de veludo negro, lantejouladas, fazendo piruetas, como se pretendessem voar...

Seguiam-se-lhe os dominós, alguns também de veludo ou de seda, com fitas multicores na ponta do capuz, trazendo as mãos calçadas de luvas para não serem reconhecidos pelos dedos. Com os dominós vinham os papangus tendo como fantasia... duas saias e uma fronha. As saias brancas ou anáguas, como se usavam outrora muito rodadas e rendadas eram amarradas uma na cintura, e outra em volta do pescoço: enfiavam a cabeça em uma fronha de "tampo rendado", à guiza de máscara, e se divertiam assim. O doutor usava invariavelmente máscaras representando a cabeça de um burro, trazendo nas mãos vários livros e uma grande palmatória. Sua indumentária era um fraque de longas abas, ou casaca, algumas vezes feita de estopa ou aniagem. O urso, com a mascara desse animal, usando roupa ou macacão marrom de estopa desfiada para imitar o pêlo do bicho, trazia nas mãos um pau, ou cabo de vassoura... Fazia-se acompanhar pelo domador, tipo de cigano com grandes bigodes e chapelinho de abas largas segurando. em uma das mãos, a extremidade da corrente que amarrava o urso pela cintura, e tocando um pandeiro.

Além desses mascarados vinha a figura tétrica da morte com aterradora máscara de caveira, envolta em lençóis e trazendo nas mãos uma longa foice e uma sineta badalando sempre. Era o pavor das crianças que lhe fugiam gritando com medo.

Aparecia também, ao lado desses tipos de fantasia o príncipe ou princes... Usava calções pelo joelho, meias finas, sapatos de entranha baixa (scarpins) muitos laçarotes no gibão, capa de veludo ou de seda, gorro enfeitado de plumas e de arminho, assim como cabeleira loura ou castanha de cachos encaracolados, caindo-lhe sobre os ombros. Eram-lhe indispensáveis as luvas, o leque e o espadim.

É preciso também não esquecer o diabinho, figura, por assim dizer, clássica, do carnaval de antanho. Todo de vermelho, geralmente em tecido de malha, ou de meia, colado ao corpo, quando não era feita a fantasia em cetineta e até em cetim vermelho. Indispensável se lhe tornava uma longa cauda com que, às vezes batia nos garotos que o seguiam. Empunhava um tridente e ostentava na fronte os dois característicos chavelhos de satanás. Realmente endiabrado, pulava e gritava pelas ruas.

Entre outras modinhas em andamento de marcha, cantadas por esses grupos de alegres foliões estava muito em voga uma que tinha estes versos:

Seu sordado não me prenda
Não me leve pro quarté
Que eu não vim fazê baruio
Vim buscá minha muié

Ai, amor!
Amor do coração!
Viva Beberibe
Santamaro, Jabatão!

Raramente hoje se vêem esses tipos do carnaval de outrora no Recife. Outras fantasias os substituíram. Sucederam-se os clubes pedestres, as troças, os blocos e outros agrupamentos, alguns com vistosas e ricas fantasias relembrando passadas épocas da história pernambucana e o frevo, avassalando tudo.

Muito louvável essa evolução. Entretanto da memória dos antigos não se apague a lembrança, nem no seu coração morre a saudade dos antigos tipos do carnaval do Recife de outrora, cantando, ingenuamente.

Ai, amor
Amor do coração!...



(Wanderlei, Eustórgio. "O morcego, o dominó, o papangu, o doutor, o urso, o príncipe, a morte, o diabinho". Boletim da Comissão Catarinense de Folclore. Florianópolis, ano 2, nº 8, junho de 1951, p.92-93)

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