
As santas missões, por Alexandre José
de Melo Morais Filho.
O
morcego, o dominó, o papangu, o doutor, o urso, o príncipe, a morte, o diabinho, por
Eustórgio Wanderlei
Entrudo
e frevo, por Mário Sette
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| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
O MORCEGO, O DOMINÓ, O PAPANGU, O DOUTOR, O URSO, O
PRÍNCIPE, A MORTE, O DIABINHO |
Ainda vibram no ar os acordes festivos do carnaval que passou no início da primeira
semana deste mês. Não é, portanto, fora de propósito recordar tipos populares do
carnaval antigo do Recife, antes, mesmo, da época em que o clube dos Vassourinhas
começou a ensaiar os primeiros passos das esfuziantes réplicas do "frevo" com
a célebre e tradicional marcha nº 1, ao Regresso, cantada com a popular
quadrinha:
Se esta rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas de brilhante
Para meu bem passear...
Naquele tempo grupos de mascarados, com as mais diversas fantasias, saíam cantando,
acompanhados por violões, harmônicas (sanfonas) e triângulos (ferrinhos) quase todos
estalando castanholas e enfeitadas as fantasias com inúmeros guizos.
Salientavam-se, entre eles, os morcegos que vinham, sempre à frente do grupo, abrindo as
grandes asas de veludo negro, lantejouladas, fazendo piruetas, como se pretendessem
voar...
Seguiam-se-lhe os dominós, alguns também de veludo ou de seda, com fitas multicores na
ponta do capuz, trazendo as mãos calçadas de luvas para não serem reconhecidos pelos
dedos. Com os dominós vinham os papangus tendo como fantasia... duas saias e uma fronha.
As saias brancas ou anáguas, como se usavam outrora muito rodadas e rendadas eram
amarradas uma na cintura, e outra em volta do pescoço: enfiavam a cabeça em uma fronha
de "tampo rendado", à guiza de máscara, e se divertiam assim. O doutor usava
invariavelmente máscaras representando a cabeça de um burro, trazendo nas mãos vários
livros e uma grande palmatória. Sua indumentária era um fraque de longas abas, ou
casaca, algumas vezes feita de estopa ou aniagem. O urso, com a mascara desse animal,
usando roupa ou macacão marrom de estopa desfiada para imitar o pêlo do bicho, trazia
nas mãos um pau, ou cabo de vassoura... Fazia-se acompanhar pelo domador, tipo de cigano
com grandes bigodes e chapelinho de abas largas segurando. em uma das mãos, a extremidade
da corrente que amarrava o urso pela cintura, e tocando um pandeiro.
Além desses mascarados vinha a figura tétrica da morte com aterradora máscara de
caveira, envolta em lençóis e trazendo nas mãos uma longa foice e uma sineta badalando
sempre. Era o pavor das crianças que lhe fugiam gritando com medo.
Aparecia também, ao lado desses tipos de fantasia o príncipe ou princes... Usava
calções pelo joelho, meias finas, sapatos de entranha baixa (scarpins) muitos laçarotes
no gibão, capa de veludo ou de seda, gorro enfeitado de plumas e de arminho, assim como
cabeleira loura ou castanha de cachos encaracolados, caindo-lhe sobre os ombros. Eram-lhe
indispensáveis as luvas, o leque e o espadim.
É preciso também não esquecer o diabinho, figura, por assim dizer, clássica, do
carnaval de antanho. Todo de vermelho, geralmente em tecido de malha, ou de meia, colado
ao corpo, quando não era feita a fantasia em cetineta e até em cetim vermelho.
Indispensável se lhe tornava uma longa cauda com que, às vezes batia nos garotos que o
seguiam. Empunhava um tridente e ostentava na fronte os dois característicos chavelhos de
satanás. Realmente endiabrado, pulava e gritava pelas ruas.
Entre outras modinhas em andamento de marcha, cantadas por esses grupos de alegres
foliões estava muito em voga uma que tinha estes versos:Seu sordado não me
prenda
Não me leve pro quarté
Que eu não vim fazê baruio
Vim buscá minha muié
Ai, amor!
Amor do coração!
Viva Beberibe
Santamaro, Jabatão!
Raramente hoje se vêem esses tipos do carnaval de outrora no Recife. Outras fantasias
os substituíram. Sucederam-se os clubes pedestres, as troças, os blocos e outros
agrupamentos, alguns com vistosas e ricas fantasias relembrando passadas épocas da
história pernambucana e o frevo, avassalando tudo.
Muito louvável essa evolução. Entretanto da memória dos antigos não se apague a
lembrança, nem no seu coração morre a saudade dos antigos tipos do carnaval do Recife
de outrora, cantando, ingenuamente.
Ai, amor
Amor do coração!...
(Wanderlei, Eustórgio. "O morcego, o dominó, o papangu, o doutor, o urso, o
príncipe, a morte, o diabinho". Boletim da Comissão Catarinense de Folclore.
Florianópolis, ano 2, nº 8, junho de 1951, p.92-93)
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