|
|
| COLHER DE PAU - Nesta seção, textos
sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa;
horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e
alimentos... |
O emprego do vocábulo "vinho" tem um sentido especial, significa "suco de
fruta"; entretanto, para efeito de propaganda comercial, é usado para que lhe
empreste a outra acepção a de produto oriundo da uva. Aliás isso é completado
quando se adiciona anilina ao melaço grosso de jenipapo, transformando-o em
"vinho" e no rótulo propositadamente é colocado o desenho de um cacho de uvas.
É a química da falsificação que impinge produto manipulado com as características
e... preços do legítimo. Grande é o consumo desse "vinho" da Guaiúba, no
Ceará.
Matéria-primaO jenipapo é uma fruta que
dá o ano todo, principalmente em região de terreno fresco, "pé de serra". Nos
terrenos não frescos só dá por ocasião do inverno. Cada árvore tem carga para três
anos. Em cada galho há o jenipapo do ano presente que vai cair de maduro; logo a seguir
vem o do ano seguinte e bem pequena já desponta a fruta do outro ano. Não falta nunca a
fruta. Na região da Guaiúba nem na seca de 1958 faltou essa fruta prodigiosa que
verdadeiramente ainda não tem sido aproveitada na indústria de bebidas.
Processo
O jenipapo vem maduro do pé. Depois de lavado e cortado põe-se em infusão. Depois de
três dias leva-se à prensa. Extrai-se todo o suco, deixando-se fermentar. Leva açúcar
e álcool. Põe-se no tonel de madeira onde passará no mínimo noventa dias.
Para o tonel usam especialmente o bálsamo, madeira empregada há muito para a confecção
desse recipiente, chegando mesmo a chamarem os tonéis de "balseiro".
Por ocasião do inverno enchem os balseiros com jenipapo e essência. Aquele a que atrás
nos referimos, leva açúcar e álcool e vai fermentar. A essência não. Ela é o suco do
jenipapo que não leva açúcar, fica um melaço grosso com a qual fazem o vinho tinto,
ajuntando-se-lhe anilinas. O proprietário dessa fábrica da Guaiúba, afirmou: "a
fiscalização não quer que se faça este tipo de bebida, porém é o que tem maior
saída por causa do preço baixo de quarenta cruzeiros o litro. Já a bebida que no
rótulo está jenipapo ou jurubeba, custa cem cruzeiros o litro".
Outros produtos
O industrial já produziu aguardente composta, deixando de fazê-la para fabricar
bebidas mais saudáveis como sejam: vinho de jenipapo, tinto, jurubeba e vinagre. Fez
antigamente a genebra que era água com álcool, essência de hortelã e bagas de zimbro.
Deixou de fabricá-la por não ter saída.
O fabricante
A industrialização do jenipapo é feita em pequena escala em Guaiúba por João de
Araújo Cabral, branco, de 42 anos de idade. Aprendeu com seu falecido pai e este havia
aprendido com o avô. É portanto uma herança que possui, os segredos do preparo. Seu pai
fazia verdadeiras especialidades em vinho de frutas. Várias delas, não apenas com o
jenipapo. "Agora não se pode fazer mais, tem que se fabricar bebidas de qualidade
inferior para ser de preço popular e encontrar consumidores. Só assim se pode vender
muito". Em maio de 1962 afirmou que vendia entre cinco e seis mil litros por mês das
bebidas produzidas em sua fábrica.
O transporte é feito por comboeiros em surrões de canaúba por pequenos jegues, de uma
cidade para outra. Transporte rudimentar e arriscado a causar perdas por causa da maneira
de carregar os litros nos surrões.
(Araújo, Alceu Maynard. Folclore nacional. São Paulo, Edições
Melhoramentos, v.2, p.237-238)
|
|