Ano V - março  2003 - nº 55

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 55
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU

setaquad.gif (95 bytes)A salga do peixe, por Virgílio Várzea.

setaquad.gif (95 bytes)Mocotó é o barato!

setaquad.gif (95 bytes)"Vinho do Ceará, por Alceu Maynard Araújo.

PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


"VINHO" DO CEARÁ

Alceu Maynard Araújo


O emprego do vocábulo "vinho" tem um sentido especial, significa "suco de fruta"; entretanto, para efeito de propaganda comercial, é usado para que lhe empreste a outra acepção — a de produto oriundo da uva. Aliás isso é completado quando se adiciona anilina ao melaço grosso de jenipapo, transformando-o em "vinho" e no rótulo propositadamente é colocado o desenho de um cacho de uvas. É a química da falsificação que impinge produto manipulado com as características e... preços do legítimo. Grande é o consumo desse "vinho" da Guaiúba, no Ceará.


Matéria-prima

O jenipapo é uma fruta que dá o ano todo, principalmente em região de terreno fresco, "pé de serra". Nos terrenos não frescos só dá por ocasião do inverno. Cada árvore tem carga para três anos. Em cada galho há o jenipapo do ano presente que vai cair de maduro; logo a seguir vem o do ano seguinte e bem pequena já desponta a fruta do outro ano. Não falta nunca a fruta. Na região da Guaiúba nem na seca de 1958 faltou essa fruta prodigiosa que verdadeiramente ainda não tem sido aproveitada na indústria de bebidas.

Processo

O jenipapo vem maduro do pé. Depois de lavado e cortado põe-se em infusão. Depois de três dias leva-se à prensa. Extrai-se todo o suco, deixando-se fermentar. Leva açúcar e álcool. Põe-se no tonel de madeira onde passará no mínimo noventa dias.

Para o tonel usam especialmente o bálsamo, madeira empregada há muito para a confecção desse recipiente, chegando mesmo a chamarem os tonéis de "balseiro".

Por ocasião do inverno enchem os balseiros com jenipapo e essência. Aquele a que atrás nos referimos, leva açúcar e álcool e vai fermentar. A essência não. Ela é o suco do jenipapo que não leva açúcar, fica um melaço grosso com a qual fazem o vinho tinto, ajuntando-se-lhe anilinas. O proprietário dessa fábrica da Guaiúba, afirmou: "a fiscalização não quer que se faça este tipo de bebida, porém é o que tem maior saída por causa do preço baixo de quarenta cruzeiros o litro. Já a bebida que no rótulo está jenipapo ou jurubeba, custa cem cruzeiros o litro".


Outros produtos

O industrial já produziu aguardente composta, deixando de fazê-la para fabricar bebidas mais saudáveis como sejam: vinho de jenipapo, tinto, jurubeba e vinagre. Fez antigamente a genebra que era água com álcool, essência de hortelã e bagas de zimbro. Deixou de fabricá-la por não ter saída.

O fabricante

A industrialização do jenipapo é feita em pequena escala em Guaiúba por João de Araújo Cabral, branco, de 42 anos de idade. Aprendeu com seu falecido pai e este havia aprendido com o avô. É portanto uma herança que possui, os segredos do preparo. Seu pai fazia verdadeiras especialidades em vinho de frutas. Várias delas, não apenas com o jenipapo. "Agora não se pode fazer mais, tem que se fabricar bebidas de qualidade inferior para ser de preço popular e encontrar consumidores. Só assim se pode vender muito". Em maio de 1962 afirmou que vendia entre cinco e seis mil litros por mês das bebidas produzidas em sua fábrica.

O transporte é feito por comboeiros em surrões de canaúba por pequenos jegues, de uma cidade para outra. Transporte rudimentar e arriscado a causar perdas por causa da maneira de carregar os litros nos surrões.



(Araújo, Alceu Maynard. Folclore nacional. São Paulo, Edições Melhoramentos, v.2, p.237-238)

Jangada Brasil © 1998-2002