Ano V - março  2003 - nº 55

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 55
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COLHER DE PAU

setaquad.gif (95 bytes)A salga do peixe, por Virgílio Várzea.

setaquad.gif (95 bytes)Mocotó é o barato!

setaquad.gif (95 bytes)"Vinho do Ceará, por Alceu Maynard Araújo.

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REALEJO
COLABORAÇÕES

 

COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


A SALGA DO PEIXE

Virgílio Várzea


Nessa mesma noite pelas casas dos donos de redes há toda uma faina doméstica: a do preparo e salga do peixe. A menagère com as filhas, moças, parentas e outras das famílias amigas da vizinhança, acomodam-se nas cozinhas e nessas amplas varandas de chão dos prédios abastados, em torno do peixe colocado ao centro num grande montão: e cada uma de cócoras, agachada sobre esteiras ou sentada em pequenos cepos de madeira, empunhando uma faca amolada, com a pedra de afiar ao pé para quando se fizer necessária, começa o trabalho da estripação e da salga. Este serviço era feito outrora pelos escravos da casa, homens e mulheres, que tinham longos serões nessas noites hibernais de pesca junto ao brazeiro confortável, ardendo e crepitando a um canto nos trafogueiros e toros. Extinta a escravidão, passou ele a ser desempenhado pela família dos pescadores que, quando se julga insuficiente para dar conta da tarefa, reclama o auxílio da parentela e gente conhecida das proximidades, a qual acode prontamente mediante pequena remuneração.

Mas vejamos o modo por que se realiza o trabalho da estripação e salga. Postadas a dona da casa e as moças — filhas e estranhas — em volta no montão, conforme se viu acima, a faina principia, pegando cada qual um peixe, que é aberto pelas costas e lanhado em sentido longitudinal desde a altura da cabeça até a cauda, depois de convenientemente extraídas a guelra, as ovas e a banha, como lá se chama a uma pasta gelatina que a tainha tem no ventre agarrada à espinha, e a qual derretida dá um azeite espesso e escuro, muito utilizado para luz nesses sítios. Desdobrada assim a tainha em numerosos lanhos, são este cobertos por uma mancheia de sal que é espalhada em toda a superfície das duas bandas cortadas. O peixe conserva a escama, e recebido este preparo se o depõe aberto como fica em grandes balatos de taquara. Todo o serviço se faz com certa rapidez e destreza, sendo que em duas ou três horas um grupo de dez ou quinze pessoas pode escalar de setecentas a mil tainhas. As ovas recolhem-se num balaio menor, à parte, depois de terem levado também uma camada de sal. Durante o trabalho servem-se todos de três gamelas oblongas e de variados tamanhos — uma contendo água, que é renovada de vez em quando, para a lavagem do peixe; outra que recebe as tripas e guelras; e outra. onde está depositado o sal. Os filhos e agregados dos donos de redes, se os possuem, ao chegarem da labuta do mar, atiram-se também ao trabalho de alanhar e salgar, auxiliando as mulheres.

E até a madrugada, nessas cozinhas e varandas inundadas de peixe, há uma alegre algazarra de faina que só termina quando a última tainha é escalada. A essa hora então, empilhados os balaios cheios a um canto, onde ficam a escorrer, e despejadas e arrumadas as gamelas, pegam-se em oito ou dez tainhas —, conforme o número de pessoas — e, preparadas, escamadas e reduzidas a postas, são lançadas à panela para o caldo ou peixada da ceia. O caldo é o peixe cozido em água e sal, com tomate, cebola verde e poucos outros temperos. É prato simples e comum, mas ali tão bem feito às vezes que constitui excelente repasto. Em geral, ao largar do serviço já a peixada está pronta, pois que fôoa cuidada antecedentemente. Livre e arranjada a varanda, puxa-se um largo estrado portátil, muito usado na roça como mesa para as refeições, e, estendida sobre ele uma pequena toalha alvíssima, que as mais das vezes não cobre senão a parte central, colocam-se os pratos em quadrado, põe-se-lhes ao pé a panela, com a competente colher de pau para tirar-se o caldo. Sentados todos aos seus lugares, a menagère entra a servir — primeiro ao marido que está a seu lado, em seguida aos filhos e outros pela gradação das idades. Um molho de laranja-azeda ou limão, com uma porção de pimentas esmagadas, enche ao centro um prato fundo, junto à cesta da farinha forrada de pano por dentro e junto à travessa colossal onde as postas alastram em montículo. Com o seu prato de caldo em frente às pernas, cruzadas comodamente à beira do estrado, cada um abarrotado de farinha, deixando porém um lugar aberto, por onde, antes de mexer o pirão, bebe algumas colheradas... Finda a ceia com uma tigela de café, após a qual todos se vão deitar.

De manhã muito cedo já tudo está de pé e, bebido o aparado, arranjam-se os varais no terreiro, tiram-se grandes lascas de embira às bananeiras, rasgam-se estas em fibras finas, faz-se um pequenino furo à faca nas tainhas escaladas e passa-se aí o atilho, unindo-as duas a duas e as estendendo depois sobre as varas para secarem ao sol. Às tainhas que têm de um a seis dias de sol chamam-se frescaes, porque conservam ainda a umidade da salga; às que desse tempo e começam a ganhar uma cor amarelada e uma oleosidade nos talhos endurecidos, denominam-se propriamente secas. Esse peixe no estado frescal é o que há de sabaroso; seco porém perde muito do seu valor, sobretudo quando tem alguns meses, pois entra a cobrir-se de uma espécie de ponilha e a rançar, o que o torna às vezes intragável. A tainha frescal ou seca é de muita procura e consumo por esses sítios, onde se vende a 100 réis e mais, quando termina o inverno e o peixe torna-se menos abundante.

Este mesmo processo de salga e seca é aplicado igualmente à enxova e à palombeta, que aparecem conjuntamente com a tainha, como já observamos, sendo a última numerosíssima até a entrada do verão, época em que ainda acode às enseadas em enormes cardumes. A palombeta é miúda e pouco maior que a savelha, mas escalada e seca conserva-se anos e anos em bom estado, porque não é oleosa. Substitui perfeitamente o bacalhau e posta não seja de fina qualidade, é superior a corvina (abundantíssima ali todo o verão) e tem agradável sabor, tanto fresca como seca. Semelhante peixe constitui uns dos recursos do pobre nesses lugares pela sua barateza, pois cada cento dele custa de 200 a 400 réis, e às vezes muito menos.

Durante o inverno, quem atravessa os caminhos que cortam em várias direções as freguesias e arraiais da ilha, não encontra uma casinha ou choupana em cujo terreiro não ostente a secar ao sol, em varais, uma multidão de peixe escalado — tainha, enxova ou palombeta — desenhando um risonho quadro de fartura no meio dessas populações em geral pobres. Presos aos pares pelo atilho de embira, o peixe assim aberto e dependurado às varas delgadas, correndo em linha e horizontalmente sobre estacas a prumo, palpita vagamento ao vento, assemelhando-se, de longe, a enormes bandos de estranhas borboletas gigantescas, de uma cor térreo-avermelhada, que pousassem ao acaso entre verdura à frente de cada vivenda.

(Do livro Santa Catarina — A ilha. Tio de Janeiro, 1900)



(Várzea, Virgílio. "A salga do peixe". Boletim da Comissão Catarinense de Folclore. Florianópolis, ano 2, nº 8, junho de 1951, p.82-83)

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