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| COLHER DE PAU - Nesta seção, textos
sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa;
horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e
alimentos... |
Nessa mesma noite pelas casas dos donos de redes há toda uma faina doméstica: a do
preparo e salga do peixe. A menagère com as filhas, moças, parentas e outras das
famílias amigas da vizinhança, acomodam-se nas cozinhas e nessas amplas varandas de
chão dos prédios abastados, em torno do peixe colocado ao centro num grande montão: e
cada uma de cócoras, agachada sobre esteiras ou sentada em pequenos cepos de madeira,
empunhando uma faca amolada, com a pedra de afiar ao pé para quando se fizer necessária,
começa o trabalho da estripação e da salga. Este serviço era feito outrora pelos
escravos da casa, homens e mulheres, que tinham longos serões nessas noites hibernais de
pesca junto ao brazeiro confortável, ardendo e crepitando a um canto nos trafogueiros e
toros. Extinta a escravidão, passou ele a ser desempenhado pela família dos pescadores
que, quando se julga insuficiente para dar conta da tarefa, reclama o auxílio da
parentela e gente conhecida das proximidades, a qual acode prontamente mediante pequena
remuneração.
Mas vejamos o modo por que se realiza o trabalho da estripação e salga. Postadas a dona
da casa e as moças filhas e estranhas em volta no montão, conforme se viu
acima, a faina principia, pegando cada qual um peixe, que é aberto pelas costas e lanhado
em sentido longitudinal desde a altura da cabeça até a cauda, depois de convenientemente
extraídas a guelra, as ovas e a banha, como lá se chama a uma pasta gelatina que a
tainha tem no ventre agarrada à espinha, e a qual derretida dá um azeite espesso e
escuro, muito utilizado para luz nesses sítios. Desdobrada assim a tainha em numerosos
lanhos, são este cobertos por uma mancheia de sal que é espalhada em toda a superfície
das duas bandas cortadas. O peixe conserva a escama, e recebido este preparo se o depõe
aberto como fica em grandes balatos de taquara. Todo o serviço se faz com certa rapidez e
destreza, sendo que em duas ou três horas um grupo de dez ou quinze pessoas pode escalar
de setecentas a mil tainhas. As ovas recolhem-se num balaio menor, à parte, depois de
terem levado também uma camada de sal. Durante o trabalho servem-se todos de três
gamelas oblongas e de variados tamanhos uma contendo água, que é renovada de vez
em quando, para a lavagem do peixe; outra que recebe as tripas e guelras; e outra. onde
está depositado o sal. Os filhos e agregados dos donos de redes, se os possuem, ao
chegarem da labuta do mar, atiram-se também ao trabalho de alanhar e salgar, auxiliando
as mulheres.
E até a madrugada, nessas cozinhas e varandas inundadas de peixe, há uma alegre
algazarra de faina que só termina quando a última tainha é escalada. A essa hora
então, empilhados os balaios cheios a um canto, onde ficam a escorrer, e despejadas e
arrumadas as gamelas, pegam-se em oito ou dez tainhas , conforme o número de
pessoas e, preparadas, escamadas e reduzidas a postas, são lançadas à panela
para o caldo ou peixada da ceia. O caldo é o peixe cozido em água e sal, com tomate,
cebola verde e poucos outros temperos. É prato simples e comum, mas ali tão bem feito
às vezes que constitui excelente repasto. Em geral, ao largar do serviço já a peixada
está pronta, pois que fôoa cuidada antecedentemente. Livre e arranjada a varanda,
puxa-se um largo estrado portátil, muito usado na roça como mesa para as refeições, e,
estendida sobre ele uma pequena toalha alvíssima, que as mais das vezes não cobre senão
a parte central, colocam-se os pratos em quadrado, põe-se-lhes ao pé a panela, com a
competente colher de pau para tirar-se o caldo. Sentados todos aos seus lugares, a menagère
entra a servir primeiro ao marido que está a seu lado, em seguida aos filhos e
outros pela gradação das idades. Um molho de laranja-azeda ou limão, com uma porção
de pimentas esmagadas, enche ao centro um prato fundo, junto à cesta da farinha forrada
de pano por dentro e junto à travessa colossal onde as postas alastram em montículo. Com
o seu prato de caldo em frente às pernas, cruzadas comodamente à beira do estrado, cada
um abarrotado de farinha, deixando porém um lugar aberto, por onde, antes de mexer o
pirão, bebe algumas colheradas... Finda a ceia com uma tigela de café, após a qual
todos se vão deitar.
De manhã muito cedo já tudo está de pé e, bebido o aparado, arranjam-se os
varais no terreiro, tiram-se grandes lascas de embira às bananeiras, rasgam-se estas em
fibras finas, faz-se um pequenino furo à faca nas tainhas escaladas e passa-se aí o
atilho, unindo-as duas a duas e as estendendo depois sobre as varas para secarem ao sol.
Às tainhas que têm de um a seis dias de sol chamam-se frescaes, porque conservam
ainda a umidade da salga; às que desse tempo e começam a ganhar uma cor amarelada e uma
oleosidade nos talhos endurecidos, denominam-se propriamente secas. Esse peixe no estado
frescal é o que há de sabaroso; seco porém perde muito do seu valor, sobretudo quando
tem alguns meses, pois entra a cobrir-se de uma espécie de ponilha e a rançar, o que o
torna às vezes intragável. A tainha frescal ou seca é de muita procura e consumo por
esses sítios, onde se vende a 100 réis e mais, quando termina o inverno e o peixe
torna-se menos abundante.
Este mesmo processo de salga e seca é aplicado igualmente à enxova e à palombeta, que
aparecem conjuntamente com a tainha, como já observamos, sendo a última numerosíssima
até a entrada do verão, época em que ainda acode às enseadas em enormes cardumes. A
palombeta é miúda e pouco maior que a savelha, mas escalada e seca conserva-se anos e
anos em bom estado, porque não é oleosa. Substitui perfeitamente o bacalhau e posta não
seja de fina qualidade, é superior a corvina (abundantíssima ali todo o verão) e tem
agradável sabor, tanto fresca como seca. Semelhante peixe constitui uns dos recursos do
pobre nesses lugares pela sua barateza, pois cada cento dele custa de 200 a 400 réis, e
às vezes muito menos.
Durante o inverno, quem atravessa os caminhos que cortam em várias direções as
freguesias e arraiais da ilha, não encontra uma casinha ou choupana em cujo terreiro não
ostente a secar ao sol, em varais, uma multidão de peixe escalado tainha, enxova
ou palombeta desenhando um risonho quadro de fartura no meio dessas populações em
geral pobres. Presos aos pares pelo atilho de embira, o peixe assim aberto e dependurado
às varas delgadas, correndo em linha e horizontalmente sobre estacas a prumo, palpita
vagamento ao vento, assemelhando-se, de longe, a enormes bandos de estranhas borboletas
gigantescas, de uma cor térreo-avermelhada, que pousassem ao acaso entre verdura à
frente de cada vivenda.
(Do livro Santa Catarina A ilha. Tio de Janeiro, 1900)
(Várzea, Virgílio. "A salga do peixe". Boletim da Comissão Catarinense de Folclore.
Florianópolis, ano 2, nº 8, junho de 1951, p.82-83)
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