Ano V - março  2003 - nº 55

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 55
FESTANÇA
CANCIONEIRO

setaquad.gif (95 bytes)O namoro na roça, por Zé do Norte.

setaquad.gif (95 bytes)Casamento de Onório, pasquim recolhido por Osvaldo R. Cabral.

setaquad.gif (95 bytes)Uma seleção de quadrinhas jocosas.

IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


QUADRINHAS JOCOSAS

Seleção de Rolando de Serigi
do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe


A mulher do Zé Moreno
Teve menino chorão
O povo anda dizendo
Que era filho de Lampião

Lá de trás daquele cerro
Tem um pé de pimenteira,
Para pôr dentro da boca
De quem for mexeriqueira

A açucena quando nasce
Arrebenta pelo pé
Assim arrebenta a língua
De quem fala o que não é

Ourila-lai...
Outra vez ourila-lai,
Minha mãe ficou sem dente
De tanto morder meu pai

Esta vai por despedida,
Por despedida esta vai
De tanto morder nha mãe
Ficou sem dente nhô pai

Sai daí seu porco magro
Não fuçe no meu terreiro
Vou falar com teu patrão
Que te prenda no chiqueiro

Lá em cima daquele morro
Passa boi, passa boiada
Também passa o seu chefe
Com a calça remendada

Minha sogra morreu ontem
A enterrei no galinheiro
O padre a dizer a missa
E eu a tocar pandeiro

Quem não quiser em seu caminho
Algum maluco encontrar
Fique num quarto vazio
Para os espelhos quebrar

Atirei um limão verde
Na porta da sacristia
Deu na careca do padre
Isso mesmo que eu queria

Tenho meu colete novo
Que me impõe respeito
Remendo sobre remendo
Ninguém sabe o que foi feito

Quem fala de mim, quem fala
Quem fala de mim, quem é?
É algum chinelo velho
Que me não serve no pé

Lá em cima daquele morro
Tem uma velha pra morrer
Os corvos já estão dizendo:
Temos carne pra comer

Quando vejo casa velha
Se eu fosse fogo queimava
Quando vejo homem feio
Se eu fosse morte matava

Joguei o chapéu pra cima
Para ver onde caía
Caiu no coxo das velhas
Cruz credo, Ave Maria

Não quero mulher que tenha
As pernas bastante finas
Com medo que em mim se enrosquem
Como cobras assassinas

Lá vem a lua saindo
Por detrás da pimenteira,
Já me doi o céu da boca
De beijar moça solteira

Vi dois papudos brigando
Lá no pátio da cadeia
Batendo papo com papo
Pra ganhar pataca e meia

O tatu me foi à roça
Toda a roça me comeu
Plante roça quem quiser
Que o tatu quero ser eu

Já vi barata de ponche
Pernilongo dando escola
Mosquito jogando pôquer
No cabo da caçarola

A pinga é meu parente
O vinho meu primo-irmão
Não há fandango nem festa
Que meu parentes não vão

Comi cem carros de "abobra"
Quatrocentas "melancia"
Disse pra meu companheiro
Minha barriga está vazia

A mulher e a galinha
São dois bichos "interesseiro"
A galinha pelo milho
A mulher pelo dinheiro

Eu não sei qual é a graça,
Que um beijo possa ter
Beijos não enchem barrigas
Nem são coisas de comer

Aqui jaz um homem rico
Nesta rica sepultura
Escapava da moléstia
Se não morresse da cura

Em negócio de fiado
Duas coisas acontecem
A gente fica zangado
O freguês desaparece

Nos tempos em que te amava
Pulava cercas de espinho
Agora, salto no fogo
Para não ver o teu focinho

Esta noite tive um sonho
Parece sonho de louco
Que abraçado com uma abóbora
Dei boquinhas em um toco

Tenho meu cavalo ruço
Minha mula pangaré
Quando meu cavalo rincha
Minha mula bate o pé

Quando vim de minha terra
Muita menina chorou
E o diabo daquela velha
Muita praga me rogou

No alto daquele morro
Tem um sino sem badalo
Minha boca está cansada
De falar com esses cavalos

Quantos gênios há que morrem
Desconhecidos, pacatos
O que inventou, por exemplo
Meias solas nos sapatos

Quem tiver sua filha moça
Não a leva na função
Se a livra da boquinha
Não livra do pinicão

Eu sou cabra perigoso
Quando pego a "pirigá",
Arrasto pau com raiz
No chão não deixo "siná"

Quando saguru for peixe
E mocotó for lombo
Juro que morro de fome
Mas tal comida não como

Peguei no rabo da cobra
Botei na boca da gia
Na boca de quem não presta
Quem é bom não tem valia

Entrei em casa da ópa
Saí na tesouraria
Capei calango de volta
Tirei couro de polia

A pulga vai à missa
Percevejo à procissão
O piolho por ser pequeno
É quem toca o rabecão

São guarda-chuvas no porte
Os amigo que eu conheço
Quando o vento é muito forte
Viram logo no avesso

Alfaiate quer tesoura
Sapateiro quer tripeça
Moça bonita quer ouro
Moça velha quer conversa

As mulheres quando juntas
A falar da vida alheia
Começam na lua nova
E acabam na lua cheia

Comprei um vintém de ovos
Pra tirar a criação
O pinto morreu na casca
Não tenho fortuna, não

Eu fui indo por um caminho
Encontrei com uma barata
Eu pisei na asa dela
Me xingou de cara chata

Chico, Chico barrigudo
Não venha me espiar
Que estou lavando o lençinho
Para o dia de Natal

Nunca vi mulher bonita
Ter cabelos no nariz
Nunca vi mulher alguma
Ter constância no que diz

Olha não me atires pedras
Que eu nunca fui atirado
Se querer, me atires beijos
Que com beijos fui criado

Tenho fome, tenho sede
Não é de pão, nem de vinho
Tenho fome de um abraço
Tenho sede de um carinho

Arranquei do ferro frio
Eu fiz o povo remar
Eu sou cabra perigoso
É bom não facilitar

Já subiu o meu balão
Murcho como um "jaú"
Como vela de tostão
Em papo de urubu

Duas coisas tem o mundo
Que meu coração não quer
Os piolhos de galinha
E os ciúmes de mulher

Você com esse jeitinho
Que a toda me seduz
Você hoje é o caminho
Que ao hospício me conduz



("Quadrinhas jocosas". Correio paulistano, 5 de setembro de 1954)

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