Ano V - março  2003 - nº 55

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 55
FESTANÇA
CANCIONEIRO

setaquad.gif (95 bytes)O namoro na roça, por Zé do Norte.

setaquad.gif (95 bytes)Casamento de Onório, pasquim recolhido por Osvaldo R. Cabral.

setaquad.gif (95 bytes)Uma seleção de quadrinhas jocosas.

IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


O NAMORO NA ROÇA

Zé do Norte


Se o leitor fosse um dia na roça para ver de perto o que é o namoro natural e cheio de cerimônias, teria muito que escrever e dar muitas risadas através da filosofia sertaneja. O namoro, na roça, tem muita coisa interessante e exige muita perspicácia e arte para se namorar.

A parte mais interessante do namoro da roça consiste:

1) Na simpatia de ambos os namorados, sem maldades.

2) Dos bilhetinhos escritos em algarismos e dos versos apaixonados.

3) Cartas apaixonadas, solicitando resposta pelo mesmo portador.

4) Encontros nas festas de ladainhas ou nas missas dos arraiais.

5) Consentimento ou discórdia das famílias de ambos saracotiadores.

6) Com consentimento ou sem ele, dada ou roubada, é feito o casamento.

Para dar a entender mais ou menos o que é um namoro na roça, vejamos esta carta de um velho solteirão de quarenta anos, e a resposta da moça, assim como a segunda carta do velho desiludido.

O velho:

São José do Egito, 2 de outubro de 1901

Minha adorada Don-Don,
Só em pensar que te logro,
Não tenho fome nem sede,
Só em te amar rosa verde.

A moça:

Ingá do Bacamarte, 6 de outubro de 1901

Velho atrevido e enxerido. Dane-se.
Tu és um vovô buchila
És lama de caranguejo
És lêndea de percevejo
És um boca de mochila
És murrinha e és quesila
És serpente de outro século
És cordão de badanéco
(Velho — é bicho de ruma)
Tem a cabeça de espuma
E a cara de Tacareco

Segunda carta do velho:

Veneno de cascavel, te arrenego
Acho ser muita baixeza
De vosmicê, senhora moça
Querê se exprimi por força
Contra mim sem ter nobreza!
Deus queira que seja logo
Minhas forças eu manobro
E quem mez pode valê?
Por ti me obrigo a morrê
Por ti minha vida eu dô
Minha delicada fulô
Abismo do meu bem querê

Inté durmindo ou em sonho
Tenho um valor tão exato
Que por ti pelejo e mato
Faço questão e me oponho
Não há perigo medonho
Que eu não rompa ou destrua
Só pela beleza tua
Minha fulô admirave
Rosa Branca, Estrela d’Arve
Só eclipse e claro da lua

Se tu não podes casá
Devido argum embaraço
Eu pretendo nos meus braço
Acabá de te criá
Bom trato te hei de dá
(Mais do que tua mamãezinha)
Até lhe darei papinha
(Comida mais delicada)
Meu ramalhete dourado:
Iaiá, Don-Don, sinhainha!
Não diga que isto é firmeza
(Quem muito quer, muito logra)
Muita demasia tem sobra
(Isso, a meu peito não cabe)
Quem sabe o que você sabe
Só sendo filha de cobra

Botei-te em muitas alturas
Exaltei-te em fidalguias
Vendo que não merecias
Esta tão baixa figura
E o teu corpo sem ventura
Não merece que te exalte
Por este grande combate
Dei-te tantas garantias
Vi que tu não merecias
Esse tão baixo caráte

Se eu fosse um rapaz galante
Dos cabelos agraduuados
Você fazia-me agrados
Cada hora, cada instante
Você mesmo é namorante
Vá namorar quem quiser
Os seus agrados são falsos
Natureza de carrasco
Falsa, onerosa e crué

Veja bem:

Faça de conta, a senhora
Que esta vai em pagamento
Do bom agradecimento
De um pobre aflito que chora!
Ouça a petição, agora:
Você, ingrata Don-Don
Que toda música tem som
Toda carta tem resposta
Para ver se você gosta
Se passar recado é bom

O namoro na roça não tem beijos nem abraços. Os namorados não vão aos cinemas, nem aos teatros, nem tão pouco freqüentam os cassinos e bailes de carnaval, com fantasias exóticas e máscara contra a feiúra. O namoro da roça é muito diferente do das cidades. É um namoro que garante um noivado com alicerces seguros e um casamento bem edificado e abençoado por Deus. O sertanejo tem arte para namorar. Os galanteios e pilhérias não existem para eles e sim, a poesia, os versos, as canções e toadas chorosas.



(Norte, Zé do. Brasil sertanejo. Rio de Janeiro, Artes Gráficas, 1948, p.72-75)

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