Ano V - março  2003 - nº 55

Sua revista com a cara e a alma brasileiras

SUMÁRIO - EDIÇÃO 55
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO

setaquad.gif (95 bytes)Adivinhas

setaquad.gif (95 bytes)Maria Moncaguê

setaquad.gif (95 bytes)Fórmula de escolha: ô dô tê câ

setaquad.gif (95 bytes)Palitinho

setaquad.gif (95 bytes)Quebra pote

ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CATAVENTO - Nesta seção, textos sobre cantigas de roda; acalantos; brincadeiras; brinquedos feitos em casa; adivinhas; trava-línguas; parlendas; lengalengas; fórmulas de escolha, mnemônicas...

PALITINHO

Alceu Maynard Araújo


Ilustração de Marcos JardimO hábito bem brasileiro dos paulistanos de tomar cafezinho a todo momento, incentivou a prática de um antigo jogo feito com pedrinhas ou sementes, hoje chamado do palito-de-fósforo ou apenas palitinho.

As regras consuetudinárias do "palitinho" são várias, uma porém é universal — cada jogador disputará com três palitinhos. O número de disputante varia entre dois e cinco. Raramente além de cinco, porque sendo por exemplo seis, fazem dois jogos de três, disputando depois os dois vencedores. Vejamos um exemplo em que entrem quatro jogadores: A, B, C, D. A primeira rodada é apenas para ver a ordem que deve seguir a "rodinha" de disputantes. Foi o B o ganhador. Então será o último a jogar.

Todos disputantes procuram ocultar a mão, na algibeira ou atrás, nenhum palito colocando nela ou colocando de um a três palitos. Fecha-a e todos colocam as mãos fechadas na frente, uma ao lado da outra, geralmente com as unhas voltada para baixo. Então C dirá um número, a seguir D, depois A, e por último B. Aquele que ficou por último levará mais tempo para dizer porque procura calcular mediante os números dados pelos demais jogadores. Todos deram o "palpite". Abrem então a mão e contam os números de palitos. Pode ser que um acerte. Caso não, recomeça, agora o primeiro a dizer será o B, depois C, D e A . Coincidindo com o palpite de um dos disputantes, esse é o ganhador que passará então a disputar com um palito a menos. Cada vez que acertar jogará com um a menos até sair do jogo quando perfizer três. É vencedor. Os demais irão jogando até que um fique o perdedor. Este pagará o cafezinho...

Esta é uma das formas que dificulta a disputa porque é necessário guardar de memória o número de palitos com que cada jogador pode disputar.

Os disputantes acordam sobre as maneiras de conduzir o jogo e a seleção do perdedor: Exclusão imediata do vencedor (quando se tem pressa); não disputará mais o que tiver duas vitórias seguidas. Quando há apenas dois disputantes, e há tempo de sobra, jogam a "melhor das cinco" ou outra combinação qualquer.

O jogo generalizou-se não só na Paulicéia mas em várias cidades e capitais brasileiras. É, além de boa distração, uma forma acalentadora dessa verdadeira fobia que o homem tem de "arriscar a sorte para ganhar".

Na paisagem citadina é comum ver-se nas calçadas ou nas portas de bares, restaurantes, cafés, quatro ou mais homens com a mão fechada e estendida para o centro da roda que formaram, calados e com "cara de quem está pensando". São "barbados" jogando palitinho, disputando quase sempre, qual deles pagará o cafezinho...

Nas rodas boêmias e de freqüentadores de bares no Rio de Janeiro um jornalista chegou a organizar um "campeonato de palitinho" vencido por um tal doutor Zuru que afirmou: "Desde que apareceu o jogo do palitinho, nunca mais paguei um cafezinho. Convido os amigos, mas, no palitinho eles é que pagam... quando muito na quinta rodada já estou fora, mais de fora que joelho de escoteiro..."



(Araújo, Alceu Maynard. Folclore nacional. São Paulo, Edições Melhoramentos, v.3, p.347-348)

Jangada Brasil © 1998-2002