| Mariza Lira
Primitivamente, março foi o primeiro mês do
calendário romano, hoje é o terceiro.
Dedicado a Marte, deus da guerra é, no entanto, um mês pleno de tranqüilidade, embora
seja de arrefecimento. Haja vista que é durante seu transcurso (21 de março), que no
nosso hemisfério, o verão se arrefece para dar lugar ao outono.
E nem esse acontecimento, quase imperceptível para nós, fica sem o registro da poética
popular, que diz assim:
Em março vai-se o verão
Para o outono dar lugar
Todas as árvores dobram ramos
Para seus frutos ofertar
No seu versejar constante, a alma simples da nossa gente, liga a seqüência dos meses às
pazes gostosas dos seus amores:
Em março te conheci
Logo em abril te namorei
Em maio foi que noivei
Té que em junho me casei...
E observando os próprios fenômenos atmosféricos, o povo gosta de fazer prognósticos:
Março ventoso, abril chuvoso...
Ou
Março chuvoso
São João farinhoso...
Mas como a março sucede o mês de abril, não dando tempo para nada, nemmesmo para
comparações, conclui:
De março a abril pouco há de vir
Tirando, porém, a passagem do equinócio, a maior data de março é o dia de São José.
Padroeiro dos "bem casados", como protetor dos agonizantes, São José, que
descende da nobre família dos David, por sua bondade, tolerância e pureza mereceu do
Senhor a mais alta dignificação.
Sem milagres espetaculares, santo por vontade direta do Senhor, tem uma alma serena, mas,
sensível, na história do cristianismo. Dizem que morreu muito velho.
Ninguém lhe nega dedicação protetoral a Jesus, desde a fuga memorável da Sagrada
Família para o Egito.
Conta-nos a Bíblia da sua escolha para o pai de Jesus sob um aspecto lendário.
O anjo do Senhor, certa vez, teria aparecido a Zacarias ordenando-lhe: "Convoque
entre o povo aqueles que são livres. Diga-lhes que cada um compareça com o seu cajado
para que o Senhor, a um sinal especial, designe o que deverá desposar Maria, a virtuosa
Virgem de Nazaré."
Em forma de arauto, a ordem espalhou-se por todo o país da Judéia.
No dia marcado todos acorreram ao chamado do Senhor. Até José na sua modéstia e no seu
recolhimento, não se furtou ao cumprimento da ordem divina, postando-se com os outros à
porta do templo com o seu cajado.
Um sacerdote recolheu os cajados, levando-os ao interior do templo para orar e benzer.
Pouco depois voltava. Ao entregá-los aos seus donos, repara que o de José estava florido
e dele voa uma pombinha branca que lhe vai pousar na cabeça.
Estava dado o sinal.
O sacerdote diz-lhe então: És o designado pelo Senhor para receber como esposa a
Virgem que será a mãe do filho de Deus. |
E José foi esposo de Maria... Abandonou tudo,
tornou-se carpinteiro para da sua oficina melhor zelar pelo menino Deus e ali lutou
modestamente pelo bem-estar da Sagrada Família.Essa
lenda angelical prende-se a muitas outras, de várias procedências e múltiplos aspectos,
criadas pela imaginação popular em torno do tema simbólico de inocência e pureza
o cajado florido.
Esse tema foi criado, por certo, pela literatura da época, como motivo primordial de
edificação do cristianismo.
E desde então vem correndo mundo, ora apontando missão excepcional a certos personagens,
ora exaltando virtudes de um santo ou glorificando um mártir.
O que não resta a dúvida é que essa lenda, mesmo tratada pelos escritores de vários
países e épocas selecionadas e estudadas pelos mais categorizados folcloristas, sofre de
fato sensíveis alterações, mas, que não afetam a estrutura de tradicionalismo
imorredouro.
O culto de São José espalhou-se no Oriente desde o século V, sendo adotado no Ocidente
aí pelo ano de 800.
Foi pelos papas Pio V, Urbano VIII, Pio X e Leão XIII, determinada a toda a cristandade
as obrigações, festas e ofícios inerentes ao culto do esposo de Maria.
Tomaram-no como protetor dos carpinteiros e no Rio de Janeiro foi o padroeiro da
"bandeira" desse ofício.
O papa Leão XIII, preocupado com a questão social que assaltou o mundo, considerando
São José um modelo de virtude, assim aconselhou aos trabalhadores na magistral
encíclica Quainquam-peuries, 1889:
"Quanto aos proletários, aos operários, têm eles, um direito especial a recorrer a
São José, com efeito, sendo de origem régia, unido pelo matrimônio à primeira e mais
santa entre as mulheres, para ser tido como o pai do filho de Deus, passa porém a vida a
trabalhar e pede só ao seu labor de artífice tudo quanto é necessário para sustentar a
família."
Sâo José, no Brasil, tem um lugar destacado entre as devoções de maior fulgor.
Há uma fé muito especial pelo santo velhinho carpinteiro, notadamente dos noivos que na
esperança de um matrimônio feliz, preferem o dia e também a igreja de São José, para
esperançosos irem receber o sagrado matrimônio.
Inúmeras localidades do Brasil têm a sua denominação ligada ao nome de São José e
raro é a igreja ou capela onde não haja a imagem sagrada do virtuoso carpinteiro ou da
Sagrada Família Jesus, Maria e José.
Na imaginação popular perdura aquele quadro seráfico que se fixou no subconsciente
brasileiro desde quando pequenino, o Brasil ouvia da mamãe, da vozinha, ou da mãe preta,
o doce ingênio acalento:
Nossa Senhora lavava
São José estendia
O menino chorava
Do frio que sentia
E para terminar ainda uma quadrinha ouvida de uma velha beata carioca:
Ó, São José, bom velhinho
Querido esposo de Maria
Protegei vossos devotos
Como do Brasil a família |