Mariza LiraOntem 19 de março foi dia de São José, mas,
muitos atos religiosos em sua intenção serão rezados hoje por ser domingo.
São José é um dos esteios da tríade bíblica da Sagrada Família: Jesus-Maria-José.
Descendente da nobreza judaica dos David, José fez-se, por humildade e complacência, o
carpinteiro de sua terra.
Desde o século V que a sua devoção é conhecida no Oriente, e a difusão no Ocidente
data do ano 800.
Os papas Pio V, Urbano VIII, Pio X e Leão XIII, determinaram festas, ofícios e
obrigações para o culto de São José.
O povo sagrou-o na lenda, ressaltando a sua bondade e paciência.
As lendas de São José não são lendas de fundo original, mas firmadas em velhos temas
mitológicos.
No décimo segundo volume de Pensânias, lá está a história da "verga
florida", que é a mesma do "bastão reverdecido" e a do "cajado
florido".
Do que não resta a dúvida, é que todas essas lendas fazem parte da literatura de
edificação do cristianismo na época medieval.
Mas são aproveitamento de motivos tão antigos que invadem o paganismo.
As variantes correm mundo.
Sobre São José, o boníssimo padroeiro dos "bem casados" e protetor dos
agonizantes, há essa lenda ingênua e doce, como a alma do bom velhinho. É de caráter
miraculoso e portanto de aspecto sobrenatural.
A Bíblia justifica a escolha de José para esposo de Maria de Nazaré de uma forma
pitoresca.
Certa vez, Zacarias, judeu e undécimo profeta menor, estava em meditação quando lhe
apareceu um anjo do Senhor, dizendo: "Convoque entre o povo aqueles que são livres.
Diga-lhes que cada um compareça com o seu cajado para que o Senhor, a um sinal especial,
designe o que deverá desposar Maria, a virtuosa virgem de Nazaré."
A ordem em forma de arauto, ecoou por toda a Judéia, inteirando os homens do desejo do
Senhor.
Até José o velho carpinteiro não fugiu à obrigação. Na sua modéstia e
recolhimento, lá estava com seu velho cajado, não se furtando ao cumprimento da ordem
divina. Postou-se, como todos, à porta do templo.
Na hora determinada, abre-se a porta. Um sacerdote solenemente recolhe os cajados. Leva-os
para o interior do templo. Aí há a cerimônia da bênção, enquanto todos se prostram
em oração.
Quando o sacerdote volve a entregar os cajados, repara que o de José está florido com
lindos lírios e deles voa uma pombinha branca, que vai pousar sobre a cabeça encanecida
de José.
Era esse o sinal divino. José seria o esposo de Maria. E Deus não quisera apenas provar
a sua vontade com a floração do cajado, dera um sinal da sua divina graça através da
pombinha sagrada que pousara na cabeça do velho carpinteiro.
O simbolismo da pureza de Maria nos lirios perfumados e da centelha do Espírito Santo na
alva pombinha, ali estava patenteado.
Essa lenda de sabor místico propagou-se pelo mundo cristão, ora exaltando virtudes, ora
apontando missões e até martírios.
É tão forte o poder convincente, que se firmou em outras religiões. |
Esse tema do bastão florido é encontrado no
agiológico católico, na degolação de São Mérole, em São Libério, Santo Antônio de
Pádua e outros mais; é o mesmo bastão de Padma Sambhava, da Árvore de Ali, e até o
encontramos no budismo japonês. Isso porque esse tema, embora aproveitado pelo
cristianismo, nos vem da mais alta antigüidade.
Ganhando o mundo, a lenda se apresenta em inúmeras variantes, conforme as influências
regionais.
Assim, no Rio de Janeiro, a lenda apresentou-se já atingida pela maldade caluniosa, pelo
diz-que-diz infamante.
Conta-se que os incrédulos de Nazaré, não aceitando a imposição do Senhor através do
anjo, escolhendo José para esposo de Maria, puseram em dúvida a pureza da jovem.
O bom velhinho pôs à prova a verdade irrefutável. Propôs que diante de toda a gente,
com vigilância constante, o cajado fosse depositado ao anoitecer em determinado local.
Pela manhã, se reverdecesse, estaria provada a pureza de Maria. Assim se fez. Noite
invernosa, José depositou na porta de sua casa seu velho cajado. Toda a gente permaneceu
durante a noite toda em severa vigilância a seu lado. Ao raiar do dia, todos correram a
verificar o que se passara e constataram, assombrados, que o cajado reverdecera, florira
três lindos lírios perfumosos, símbolos da alma pura de Maria de Nazaré, que sendo
mãe de Jesus é também a mãe dos Homens.
Essa lenda, cheia de simbolismo, propalou-se no mundo, firmou-se na tradição popular que
a canta lindamente nessa encantadora trova:
No ventre da Virgem Maria
Encarnou divina graça
Entrou e saiu por ela
Como o sol pela vidraça
São José foi no Brasil, em tempos idos, o padroeiro da Bandeira dos Carpinteiros, uma
espécie de sindicato da época.
O nome do santo é quase comum aos homens do Brasil: os Josés, Zézinhos, Zé, Juca,
Juquinha, etc., espalham-se por todo o Brasil.
É nome muito usado nas casas de negócio, nos barcos e até nos caminhões que cortam as
estradas dos mais longínquos lugares da nossa terra.
Num caminhão de carga, certa vez, colhi essa quadrinha:
São José que me acompanha
Nessa longa caminhada
Faça que eu ganhe dinheiro
Também amor da minha amada
No estado do Rio de Janeiro (Araruama) ouvi de um velhote:
Ó bondoso São José
Protetor de boa sorte
Ajudai-me toda vida
Até que se chegue a morte
É muito preferido pelos noivos o dia de São José para celebração dos esponsais e
parece que ainda ouço uma cabocla dizer confiante:
Se São José e Maria
Viveram santa união
Assim vos peço, meu Deus
Casai-me mais o João
Há também pelo Brasil, um sem número de igrejas dedicadas a São José e várias que,
pelo menos, têm um altar com sua invocação. |