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Almanaque: Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...


setaquad.gif (95 bytes)As lendas de São José

setaquad.gif (95 bytes)Março, mês de São José

setaquad.gif (95 bytes)Pelo correio eletrônico

setaquad.gif (95 bytes)Calendário

setaquad.gif (95 bytes)Latrinália

setaquad.gif (95 bytes)No Estradão

setaquad.gif (95 bytes)Escrito em papel-moeda

setaquad.gif (95 bytes)Na parede do boteco

setaquad.gif (95 bytes)Máximas do Barão de Itararé

setaquad.gif (95 bytes)Provérbios

Mariza Lira

Ontem — 19 de março — foi dia de São José, mas, muitos atos religiosos em sua intenção serão rezados hoje por ser domingo.

São José é um dos esteios da tríade bíblica da Sagrada Família: Jesus-Maria-José.

Descendente da nobreza judaica dos David, José fez-se, por humildade e complacência, o carpinteiro de sua terra.

Desde o século V que a sua devoção é conhecida no Oriente, e a difusão no Ocidente data do ano 800.

Os papas Pio V, Urbano VIII, Pio X e Leão XIII, determinaram festas, ofícios e obrigações para o culto de São José.

O povo sagrou-o na lenda, ressaltando a sua bondade e paciência.

As lendas de São José não são lendas de fundo original, mas firmadas em velhos temas mitológicos.

No décimo segundo volume de Pensânias, lá está a história da "verga florida", que é a mesma do "bastão reverdecido" e a do "cajado florido".

Do que não resta a dúvida, é que todas essas lendas fazem parte da literatura de edificação do cristianismo na época medieval.

Mas são aproveitamento de motivos tão antigos que invadem o paganismo.

As variantes correm mundo.

Sobre São José, o boníssimo padroeiro dos "bem casados" e protetor dos agonizantes, há essa lenda ingênua e doce, como a alma do bom velhinho. É de caráter miraculoso e portanto de aspecto sobrenatural.

A Bíblia justifica a escolha de José para esposo de Maria de Nazaré de uma forma pitoresca.

Certa vez, Zacarias, judeu e undécimo profeta menor, estava em meditação quando lhe apareceu um anjo do Senhor, dizendo: "Convoque entre o povo aqueles que são livres. Diga-lhes que cada um compareça com o seu cajado para que o Senhor, a um sinal especial, designe o que deverá desposar Maria, a virtuosa virgem de Nazaré."

A ordem em forma de arauto, ecoou por toda a Judéia, inteirando os homens do desejo do Senhor.

Até José — o velho carpinteiro — não fugiu à obrigação. Na sua modéstia e recolhimento, lá estava com seu velho cajado, não se furtando ao cumprimento da ordem divina. Postou-se, como todos, à porta do templo.

Na hora determinada, abre-se a porta. Um sacerdote solenemente recolhe os cajados. Leva-os para o interior do templo. Aí há a cerimônia da bênção, enquanto todos se prostram em oração.

Quando o sacerdote volve a entregar os cajados, repara que o de José está florido com lindos lírios e deles voa uma pombinha branca, que vai pousar sobre a cabeça encanecida de José.

Era esse o sinal divino. José seria o esposo de Maria. E Deus não quisera apenas provar a sua vontade com a floração do cajado, dera um sinal da sua divina graça através da pombinha sagrada que pousara na cabeça do velho carpinteiro.

O simbolismo da pureza de Maria nos lirios perfumados e da centelha do Espírito Santo na alva pombinha, ali estava patenteado.

Essa lenda de sabor místico propagou-se pelo mundo cristão, ora exaltando virtudes, ora apontando missões e até martírios.

É tão forte o poder convincente, que se firmou em outras religiões.

Esse tema do bastão florido é encontrado no agiológico católico, na degolação de São Mérole, em São Libério, Santo Antônio de Pádua e outros mais; é o mesmo bastão de Padma Sambhava, da Árvore de Ali, e até o encontramos no budismo japonês. Isso porque esse tema, embora aproveitado pelo cristianismo, nos vem da mais alta antigüidade.

Ganhando o mundo, a lenda se apresenta em inúmeras variantes, conforme as influências regionais.

Assim, no Rio de Janeiro, a lenda apresentou-se já atingida pela maldade caluniosa, pelo diz-que-diz infamante.

Conta-se que os incrédulos de Nazaré, não aceitando a imposição do Senhor através do anjo, escolhendo José para esposo de Maria, puseram em dúvida a pureza da jovem.

O bom velhinho pôs à prova a verdade irrefutável. Propôs que diante de toda a gente, com vigilância constante, o cajado fosse depositado ao anoitecer em determinado local. Pela manhã, se reverdecesse, estaria provada a pureza de Maria. Assim se fez. Noite invernosa, José depositou na porta de sua casa seu velho cajado. Toda a gente permaneceu durante a noite toda em severa vigilância a seu lado. Ao raiar do dia, todos correram a verificar o que se passara e constataram, assombrados, que o cajado reverdecera, florira três lindos lírios perfumosos, símbolos da alma pura de Maria de Nazaré, que sendo mãe de Jesus é também a mãe dos Homens.

Essa lenda, cheia de simbolismo, propalou-se no mundo, firmou-se na tradição popular que a canta lindamente nessa encantadora trova:

No ventre da Virgem Maria
Encarnou divina graça
Entrou e saiu por ela
Como o sol pela vidraça

São José foi no Brasil, em tempos idos, o padroeiro da Bandeira dos Carpinteiros, uma espécie de sindicato da época.

O nome do santo é quase comum aos homens do Brasil: os Josés, Zézinhos, Zé, Juca, Juquinha, etc., espalham-se por todo o Brasil.

É nome muito usado nas casas de negócio, nos barcos e até nos caminhões que cortam as estradas dos mais longínquos lugares da nossa terra.

Num caminhão de carga, certa vez, colhi essa quadrinha:

São José que me acompanha
Nessa longa caminhada
Faça que eu ganhe dinheiro
Também amor da minha amada

No estado do Rio de Janeiro (Araruama) ouvi de um velhote:

Ó bondoso São José
Protetor de boa sorte
Ajudai-me toda vida
Até que se chegue a morte

É muito preferido pelos noivos o dia de São José para celebração dos esponsais e parece que ainda ouço uma cabocla dizer confiante:

Se São José e Maria
Viveram santa união
Assim vos peço, meu Deus
Casai-me mais o João

Há também pelo Brasil, um sem número de igrejas dedicadas a São José e várias que, pelo menos, têm um altar com sua invocação.

(Lira, Mariza. "As lendas de São José". A Manhã. Rio de Janeiro, 20 de março de 1955)

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