Jangada Brasil – março 2003 – nº 55 – Oficina: O monjolo

O MONJOLO

Fausto Teixeira


No capítulo folclórico da arte dos mecanismos vamos encontrar o monjolo como uma das mais simples máquinas utilizadas na indústria rural.

Não se sabe ao certo de sua origem; sabe-se, porém, que Brás Cubas foi quem primeiro providenciou a sua instalação nas proximidades da atual cidade paulista de Santos, quando de sua fundação. Os índios logo denominaram a rudimentar máquina, enguaguaçu, que significa: pilão grande, nome que passou à localidade onde o primeiro foi instalado.

Supõe-se que o monjolo foi trazido ao Brasil, pelos povoadores portugueses da China. Na verdade, na seção chinesa da Exposição Universal de 1873, em Viena, foram expostos modelos de monjolos, denominados chui toi no Celeste Império.

Aluísio de Almeida, esclarecido historiador e folclorista de Piratininga, acha que seja provável a importação do monjolo da Índia. Referindo-se à esta máquina agrícola afirma que ela faz parte da área geográfica do Brasil, influenciada pelos bandeirantes paulistas. O inferno – esclarece ele, – o lugar onde cai a água utilizada no monjolo, tem esse nome também em Portugal para qualquer máquina hidráulica.

Ainda circunscrevendo a sua distribuição geográfica em nosso país, o ilustre historiador escreveu: “Se bem que o monjolo pode socar mandioca, descascar arroz e café, a sua função principal é a fabricação da farinha de milho. Não o tendo encontrado, na descrição de como os bandeirantes fabricavam farinha de milho em Minas Gerais, no precioso manuscrito matoso, mas tão somente a palavra pilão, nem por isso podemos dizer que ele não existia antes de 1717. São os pontos de interrogação que ficam na história. O monjolo paulista não é encontrado no Nordeste e no sertão onde falta água; ele existe em função da farinha de milho e desaparece onde predomina a da mandioca, menos litoral paulista, onde servia para o arroz”.

É preciosa a observação de Aluísio de Almeida; nada mais se pode escrever para se situar, geograficamente a distribuição do monjolo em terras brasileiras.

Nos documentos antigos da história mineira que nos têm sido possível manusear, nada encontramos a respeito do monjolo que não seja em data posterior à 1800. Acreditamos entretanto, que sua ocorrência nas Minas Gerais data de muito antes, desde o início do povoamento pelos bandeirantes paulistas. Estes não poderiam prescindir do seu uso, habituados que eram ao consumo diário da farinha de milho.

Eschwege, pelo ano de 1814, estando em Vila Rica, encontrou a rudimentar máquina desempenhando importante papel no fornecimento da alimentação para os senhores e escravos. Observou que, dentre os diversos homens que tinham suas ocupações definidas, um era sempre destacado para o serviço do monjolo, a preparar o fubá.

Notamos, nessa informação, que o rudimentar mecanismo estava se prestando a fabricar fubá; isso não significa, porém que fosse sua exclusiva finalidade; era apenas uma das suas finalidades, pois Saint-Hilaire, um ano depois, descrevem a mesma máquina como produtora da farinha de milho.

Esse erudito viajante francês, em sua obra Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, fez interessantes observações sobre o monjolo, descrevendo-o com uma simplicidade e clareza tais que, transcrevendo-o poupamos o trabalho de tentar explicação melhor; “sobre uma peça de madeira vertical e imóvel, é colocada, à maneira duma gangorra, outra peça de madeira, móvel e horizontal; esta última é escavada numa das extremidades como uma larga colher, e na outra é armada de um soquete bem resistente. A máquina está sempre colocada debaixo de uma pequena queda d’água. O líquido, caindo na espécie de colher que, de um lado termina a viga oscilante, faz inclinar-se esta para o mesmo lado, enquanto a extremidade exposta, armada na parte inferior com o soquete que descrevi, se ergue descrevendo um arco de circunferência: mas enquanto a extremidade escavada se inclina, a água escorre, o peso do pilão sobrepuja o da colher, a máquina range, e o pilão cai pesadamente num cocho destinado a receber o grão”.

Afirmou o escritor que o mecanismo descrito era chamado “manjola” ou “preguiça”. Este segundo nome, e também “preguiçoso”, foi encontrado em uso em Cantagalo, na província do Rio de Janeiro, em 1808, por John Mawe que também fez observações sobre a máquina.

Da mesma maneira que se fabricava a farinha de milho no monjolo, há cento e quarenta anos, se fabrica ainda hoje em toda parte onde funciona essa máquina. Aí a razão de ser de incluirmos o maquinismo em apreço no capítulo das artes dos mecanismo dentro da ciência folclórica. É uma sobrevivência; e não só de um século, mas, em nosso país, de mais de quatrocentos anos!

A descrição que fez o minucioso Saint-Hilaire, em 1815, do processo de fabricação da farinha de milho pelo monjolo, pode ser transcrita sem se aduzir nem se retirar uma palavra; “A farinha de que se nutrem geralmente homens livres exige algumas preparações a mais (do que o angu)”. Separa-se o milho de seus envoltórios com auxílio da máquina que já descrevi e que chamam manjola. Para esse fim coloca-se o milho na escavação em que cai o dente pesado da máquina; Esse dente despoja o grão sem triturá-lo e um pouco de água que se teve o cuidado de pôr no cocho, facilitando a separação dos envoltórios, impede também os grãos de saltarem e se perderem. Quando o milho está assim limpo, colocam-no em outros alguidares, cuja água continuamente se renova; deixa-se aí durante dois ou três dias, e mesmo mais, até o momento em que começa a fermentação; levam-no então, bem embebido à manjola, e, por meio dessa máquina, reduzem-no a uma espécie de pasta. Passa-se esta última por uma peneira sobre uma caldeira pouco profunda, sob a qual se acendeu o fogo, a pasta ou cozido seca; reduz-se a um pó grosso, e é isso o que constitui essa farinha com que pulverizam, como já disse, os alimentos e que, sem dúvida alguma, é mais saborosa e nutritiva que a de mandioca”.

A descrição é simples e clara; assim como serve ainda hoje para o processo de fabricação da farinha de milho pelos monjolos, acreditamos que serviria há quatro séculos atrás.

Quanto à origem do nome “monjolo” muitas são as hipóteses apresentadas; os etimologistas, porém, não chegam a um acordo e o vocábulo continua reclamando a atenção dos estudiosos de sua origem.

Amadeu Amaral afirmou que o termo “munjolo” se dava outrora ao tráfico dos africanos e Sílvio de Almeida, por ele citado, aventou o étimo “mulincolum” para o vocábulo designativo dessa antiga máquina agrícola.

Jacques Raimundo não tem dúvidas sobre a sua procedência africana. Afirma que foi introduzida em nosso país pelos negros “munjolos” da Contra Costa, e deles tomou o nome.

Certamente, baseou-se o ilustre africanólogo, na afirmação feita por Beaurepaire-Rohan, em seu Vocabulário, de que, dentre os negros importados da África, vieram ao Brasil, representantes da nação dos Monjolos.

Basílio de Magalhães ocupando-se deste termo, afirmou que a máquina foi introduzida no Brasil pelos colonizadores ibéricos e que o apelativo e “evidentemente africano, não se sabendo, porém, se o pilão acionado pela água, a que o mesmo foi aplicado, é criação dos melamodermos ou se veio da Malásia para o continente negro”. Concordando com a exposição feita por Jacques Raimundo, afirma com ele que “munjolo” é o nome de uma nação de africanos, que eram importados como escravos.

Joaquim Ribeiro nega que tenha havido negros “monjoles”, afirmando que o nome da nação era “monjolos”. Entretanto, em um interessante estudo, Aires da Mata Machado Filho incluiu os negros “monjolos” como integrantes do contigente de africanos vindos ao Brasil como escravos. É difícil dizer-se quem teria razão. De nossa parte, como não somos etimologistas senão simples curioso, continuamos assistir os debates em que os eruditos se empolgam.

Negando a origem africana do termo, Joaquim Ribeiro afirma que “monjolo” significa “certa máquina agrícola” e “bezerrinho”. “A segunda acepção – continua ele – deve ser a mais antiga e só depois passou a se dar o nome à máquina por um processo semântico muito comum de nomear certas máquinas com nomes de animais (por exemplo) – “ariete de áries” carneiro; “testudo”, nome de tartaruga e dos escudos usados pelos romanos: “mosquete de muscatus”. Nome de certo gavião; “colubrina, falconete, etc.). Da acepção de “bezerrinho” é que se vai ao verdadeiro étimo do vocábulo “monjolo” que nada mais é do que “munj” (do verbo “mungir”. Do latim mulgere) mais o sufixo “olo” (variante de “ulo” de “casulo”) que aparece em “nolo” “Manolo” (diminutivo de Manoel, etc.”

Estávamos quase simpatizando com a etimologia proposta por Joaquim Ribeiro quando, para envolver-nos novamente na dúvida, demos com a proposta por Varnhagem “mon-joelo” (deve ser a corruptela de um dialeto chinês) e, para completar, com a aventada por monsenhor Rodolfo Delgado: o vocábulo é de origem sânscrita (“musala” que significa: pilão de descascar o arroz – mediante a nasalização do “u”).

Quanto à existência da nação de negros “monjolos” não temos dúvidas. Na poesia popular (o folclore sempre socorre a história e a lingüística) goiana, José A. Teixeira colheu a letra de um moçambique, da qual transcrevemos um trecho:

Esta língua,
língua que veio d’Angola;
esta língua
língua de Rebolo;
segunda língua de “minjólo”
“terceira língua, negro mina”
etc etc. etc.

Não podemos concluir, entretanto, pela escolha de qualquer das etimologias apresentadas. Parece-nos, realmente, muito difícil essa escolha não fazemos mesmo questão de escolher algumas das muitas apresentadas, apesar da variada paternidade que ofereceram ao termo monjolo: africana, indiana, chinesa, latina e até sânscrita!

Devemos ter paciência: com o tempo – e com a ajuda valiosa dos dedicados etimologista – teremos maior número para procedermos a uma escolha bem cuidadosa. Não devemos comprar o primeiro artigo que nos oferecem só porque é barato e precisamos dele; antes, vejamos se é legítimo e, sempre que tivermos dúvidas, rejeitemo-lo.

(Teixeira, Fausto. “O monjolo”. Folha de Minas, 22 de agosto de 1948, suplemento literário, p.3)

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