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Março 2002
Ano IV - nº 43

ALIMENTAÇÃO DA ALMAS

A prática ritualística da "alimentação das almas" encontrada no vale do Rio São Francisco, principalmente na região média, pode ser perfeitamente classificada como uma forma de "ex-voto preventivo".

O desejo de conquistar o bem-estar futuro, a compra de um lugar no céu, tem impressionado aos homens desde a antigüidade. Nas eras medievais, desde o século XI, cujas sombras e misérias se projetaram até o século XVII, aqueles que, embora se rotulassem de cristãos, olvidando entretanto os ensinamentos de Cristo "misericórdia quero e não sacrifício", praticaram largamente na Europa sacrifícios e mortificações do corpo com o interesse de alcançar depois da morte um lugar na glória, no céu, como fazem os atuais "penitentes". Estes vão além, mostram um verdadeiro altruísmo porque ao bater com a "disciplina" visam também melhorar a situação das "almas santas benditas" que ainda não se acomodaram em definitivo na mansão celestial... segundo acreditam.

As ilhas culturais que tais comunidades se tornaram, são ambiente propício que permitem a vivência dessas práticas atuais dos "penitentes". Sabe-se que ainda hoje algumas ordens monásticas católicas romanas continuam a ciliciar seus corpos. Talvez a permanência desse traço e o próprio revigoramento do ritual entre os "penitentes" sejam causados pelo fato do atendimento que estes crentes dão às missões pregadas pelos sacerdotes que descrevem o fim do mundo e sua proximidade, as aflições que os pecadores terão no inferno, a necessidade do arrependimento e da penitência.

Em 1961, em Tarrachil, margem baiana do São Francisco, presenciamos uma dessas missões. Não há duvida de que as palavras candentes do orador sacro, os seus apelos patéticos e mesmo a figura desse missionário ao lado da enorme cruz que chantara na praçola da cidade, eram de impressionar. Um sermão como o que fora por nós ouvido (e gravado em fita magnética) tem mesmo o condão de reforçar a prática da flagelação, autoflagelação por aqueles beiradeiros patrícios desassistidos espiritual, economicamente e assombrados com a ameaça de perder a vida futura.

A prática da flagelação em nada diminuiu nessa região e a impressão que se tem é que ela está cada vez mais intensa, embora reprimida. Ultimamente seus praticantes procuram ocultar-se cada vez nas caatingas para que olhares profanos não a desvirtuem. (Nossa palavra foi cumprida: não levamos máquina fotográfica e nem gravador de som. O que menos esperavam aconteceu: cantamos com eles os "benditos", fazendo a segunda voz, aumentando assim o nosso prestígio de observador participante).

O observador arguto poderá ver à saciedade "pertinentes" em toda a região sanfranciscana, pelo fato do hábito dos homens da classe mais desvalida andar sem camisa, põe à mostra o dorso lanhado pela "disciplina", as costas "cortadas", as "cicatrizes sagradas".

Xique-Xique na Bahia, parece ser o centro maior dessa prática conforme assinalou Fernando Altenfelder Silva, nosso ilustre colega de equipe de pesquisas sociológicas supervisionadas pelo professor doutor Donald Pierson, em 1952, ao longo do rio São Francisco.

Graças às sucessivas ondas de "pau-de-arara", de migrantes nordestinos que se dirigem para o Sul, para São Paulo, aqui, quando podem, continuam a prática da flagelação. Em Itanhaém, nas plantações de bananas, onde o número de nordestinos é enorme, em 1960, na Semana Santa, alguns flagelantes, nas proximidades do rio Curitiba, puderam prosseguir na prática porque o "penitente" terá que fazê-lo sete anos seguidos. Caso não o faça não recebe as bênçãos. Outros, que disseram sentir coceiras nas costas, são impedidos a fazer, portanto continuar em terras distantes da suas de origem, as práticas doutrora, iniciadas nesses lugares onde a miséria econômica é um móvel. Miséria que continua para aqueles que vêm para os bananais da região caiçara paulista, ambiente propício onde se ceva a ritualística da flagelação, praticada só pelos homens.

No rio Curitiba, na margem direita estavam oito "penitentes" (cinco baianos e três alagoanos): o corpo nu da cintura para cima, um saiote de pano de farinha de trigo, lenço branco na cabeça. Passaram a noite rezando e surrando as costas com uma espécie de azorrague, não com bolotas de metal, porém nós no couro ou amarrando pequenas lâminas de faca velha. Rezando e autoflagelando-se, uma vez terminada a prática lavaram as costas com cachaça ou pinga alconforada. Beberam também fortes doses de cachaça pura. As tangas foram lavadas para que "quem não compreendesse fosse assoprar no ouvido do Delegado de Polícia e seriam todos presos". Banharam-se depois num pequeno riacho e a seguir vestiram as roupas comuns. Findou-se também o período de abstenção sexual.

Voltemos às margens do São Francisco, por ocasião da Quaresma de 1961 para ouvir os "benditos" cantados na cerimônia noturna da "alimentação das almas", para acompanhar uma "lamentação".

O toque seco da matraca quando a noite vai larga, é ouvido a longa distância. De uma casa do povoado sai um caboclo de meia-idade carregando enorme cruz de dois metros, mais ou menos, de altura, em cujos braços, está pendurada uma toalha branca. Dirigiu-se para a porta do cemitério. Segue-lhe os passos o tocador de matraca. Os devotos alertados pelo sinal convencional desta voz de madeira (quando os sinos se emudecem!) vão se aglomerando no local tradicional de encontro. Já na porta do "sagrado" onde tem início a reza, há um número considerável deles. O "dono" da cruz dá começo a reza. Vários "benditos" são cantados porque, desse local eles saem para percorrer "sete estações", guardarem a cruz na casa do "mestre". Finda-se assim a "lamentação" na qual homens e mulheres tomam parte. Assemelha-se muito à "recomenda das almas" praticada no sul do país.

Realizam com tais "lamentações" um trabalho sagrado – alimentam as almas que ainda estão penando nos ares ou no purgatório, expiando com esta prática os seus penares. Alimentação das almas dos outros e ao mesmo tempo protegem-se "fechando o corpo" contra perigos e males e adquirem a salvação futura, caso não interrompam as sete vezes que deram assim proceder.

A prática de sete anos seguidos é o mínimo exigido porque não há proibição para que se reencete novo período; o que não devem fazer é iniciar e depois não continuar. Neste caso, há sanções que o sobrenatural aplicará: doenças, desditas, etc.

Os praticantes desse ritual estão firmemente imbuídos da presença das almas dos que morreram enquanto fazem aquele percurso dos "sete passos". Mais uma vez se confirma o que assinalamos atrás, que, enquanto na Europa o encontro dos mortos com os vivos se dá no Carnaval, no Brasil é na Quaresma.

Alta madrugada, antes de ser guardada a cruz, há a cerimônia do "beijamento" com o qual encerram naquela noite a "alimentação das santas almas benditas".

As rezas entoadas têm muito do canto sacro – a suavidade. As vozes atenoradas dos meninotes, as graves, dos homens e as mulheres, formam um conjunto mavioso. Aquelas melodias repassadas de fervor religioso ficam cantando nos ouvidos de quem presencia as "lamentações", os muitos "benditos":

"Ó bendita cruz,
cruz bendita
ali Jesus Cristo
foi
croncificado,
ali vosso sangue
foi derramado.."

[1964]


(Araújo, Alceu Maynard. Folclore nacional. v.3, p.29)

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