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Março 2002
Ano IV - nº 43

MENINAS PARA CONVENTO

"Meter lança em África", isto é, pagar ou aliciar, preparar, equipar um soldado ou lanceiro, para ir combater infiéis, no norte d’África – Ceuta, Tânger, Fez, Marrocos... custava tanto, que, além do valor "economia", ficou no ditado, como empresa de dificuldade.

"Meter uma filha no convento" era bem melhor, embora fosse também muito caro. Porque as meninas tinham dote, em dinheiro, e levavam enxoval e escravos. Mas os pais ficavam descansados. Estas estavam bem colocadas, perto de Deus, protegidas contra o amor profano, e livres de marido, filhos e outras maçadas. Já que houveram filhas, evitavam os genros e suas conseqüências.

A mulher foi sempre, mesmo no mundo ocidental, como aquelas chinesas que, nascidas, aos pais mandavam as relações tijolos e telhas, pois mulheres são pisadas na vida, como os tijolos, e a má sorte cai sobre elas, como a intempérie sobre as telhas. Nos conventos estavam os pais tranquilos e as filhas remediadas.

Na Bahia, como no Reino. A tanto porém subiu a moda, que o conde de Galveias, dom André de Melo e Castro, o vice-rei, em 8 de abril de 1739, pediu a el-Rei providência, pois, no ano anterior, em 1738, apenas na cidade príncipe do Brasil se haviam realizados dois casamentos. E quem se casava era gente de menos. Esses mesmos por luxo, porque a regra dispensava o... menos e se contentava com a casa em comum, sem o casamento.

A gente de mais preferia meter as filhas no convento. Conveniência de pais e fé ou inocência das meninas. O vice-rei pedia a dom João V providências para por cobro a essa necessidade do Estado, que era ter população. Apesar de sua fama de freirático, sabendo que o convento era um desvio, que não impedia nada, el-Rei, certamente, pensaria na providência. Mas não chegou à Bahia.

Esse problema da procriação da "gente de menos" eternamente se oporá à restrição, por vários motivos, à escassez restritiva de "gente de mais". Já para os Romando o proletário, que tinha prole, era o pobre, o que não tinha com que dar de comer aos filhos. A raça branca próspera estará sumindo, submersa diante do oceano de tinta, que sobe...

Nesse século XVIII não seria o egoísmo a razão de se desembaraçarem os pais ricos, das filhas, nos conventos. Ao contrário, melhor colocação delas do que no século e até dispendiosa. O padre Manuel Bernardes disse dos Conventos de Portugal: "Ver uma cela de freira é ver uma casa de estrado de uma noiva. Lâminas, oratórios, cortinas, sanefas, rodapés, tomadas a trechos com rosas de maravalhas, banquinhos de damasco, franjados de seda ou de ouro, pias de cristal, guarda-roupa de Holanda, caçorelas, espelhos, craveiros, manjericões ou naturais ou contrafeitos, passarinhos, cachorrinhos de manga, que, se adoeçem, de puro mimo se chama o mais perito na arte de curar; jarros, ramalhetes, perçolanas, brinquinhos de sangria, figuras de alabastro, de gesso, frutos escolhidos para coroar as molduras da alcofa ou dos contadores, perfumes, alambiques, todo o gênero de arame para a fábrica de doces, celas com tais paisagens, relevos, pinturas, que passam para as mãos dos oficiais da bolsa dos parentes e devotos mais ricos".

A citação é necessária para explicar a Pastoral, em 1764, do Arcebispo dom frei Manuel de Santa Inês, que publicou o nosso Wanderley Pinho, e denuncia esses incríveis luxos de freiras baianas: "por conta de seus pais e parentes correm as despesas excessivas que fazem", "religiosas de boa vida", " o toucado nimiamente descomposto e indicente às religiosas por lhes deixar descobertas, grande parte das cabeças e todo pescoço; também as unções com que as anciãs tingem de negro os seus cabelos já brancos e os artifícios com que todas os compõem". E vem a longa descrição de luxos que usam consigo e com as suas negras escravas adornadas e embelezadas, "trombetas" das vaidades das donas, que as exibem. O prelado admoesta: "Proibimos as religiosas o uso de ouro, prata, diamantes e outras preciosidades por serem contra o voto de pobreza... como também o poderem usar dos mesmos trastes para adorno e compostura das servas"...

Ao marquês de Valença em 1779, nas instruções dadas cita-se o dito do Arcebispado existirem para 75 freiras do Convento do Desterro 400 escravas e criadas de serviço: "perturbação, desconcerto, e desordem que desta multiplicidade de mulheres ociosas, sem educação, sem emprego e sem trabalho algum em que se ocupem"...

"Meter lança em África" seria de menos responsabilidade que filha em convento. Não na Bahia apenas...


(Peixoto, Afrânio. Breviário da Bahia. Livraria Agir Editora, 1945. p.117-119)

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