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Março 2002
Ano IV - nº 43

MULHERES QUE NÃO MUDAM

As mulheres e os médicos são as criaturas mais sujeitas à moda, esse tirânico fenômeno sociológico... Não são os únicos, são porém os mais, porque até a fé, o céu, tem modas. Há santos e santuários da moda: não fossem homens os devotos. Mas as mulheres dominam. Ouvimo-las dizerem todos os dias: usar isto? Não vê! Nem rachada! Daí a dias, estão, mesmo não rachadas, usando isto. Chapéus, vestidos, sapatos, tudo!

Pois bem, uma exceção. As cambraias, as mulatas, as crioulas da Bahia têm seu indumento próprio, que não varia, pelo menos, faz... um século! "Mulher de saia" é o nome, "fixe", diferente da mulher de vestido, a ventoinha. Tem isso enorme significação, até moral.

Santos Vilhena já as descrevia, no fim do século XVIII: "as mulatas e pretas vestidas com ricas saias de cetim branco, becas, de liniste finíssimo e camisas de cambraia ou cassa, bordados de forma tal que vale o lavor três ou quatro vezes mais que a peça e tanto é o ouro que cada uma leva em fivelas, cordões, pulseiras, colares ou braçaletes e bentinhos que, sem hipérbole, basta para comprar dois ou três negros ou mulatas..." Os americanos reverendos Kidder e Fletcher, em 1857, diziam delas: "seu torso, seu xale, seus ornatos, seu passo elástico nas chinelas pontudas exibe uma graça natural, que não obtêm as modas modernas".

Ainda hoje é assim, mais de século ou século e meio decorridos; assim irá. As "baianas" como dizem os cariocas tem sua tradição, a sua moda...

O indumento festivo, como o ordinário, é o mesmo, menos a riqueza dos tecidos e das jóias. Torso ou turbante, camisa branca rendada, saia e anáguas, pano da Costa e chinelinhas: aí está tudo. O torso vela os cabelos crespos lanosos. Temo que o alisamento americano dos cabelos elimine o torso, que era um gracioso turbante. Um pano quadrado é dobrado em diagonal, como as tipóias, a ponta do meio caindo sobre a fronte, as duas extremas atando-se à nuca: é o torso de bico. Mais complicada é outra maneira oposta, em que o bico fica para trás e se vai encontrar com as extremidades da nuca, deixando lisa a fronte, concertando o efeito dos nós como gracioso turbante. Como o feio da raça ou da sub-raça é o cabelo e não a cor, a "baiana", graciosamente, suprimiu o que tinha de feio, escondido no torso de seda ou de pano fino, branco ou de cor, variegado, que apenas deixa à mostra os lóbulos da orelha com argolas ou brincos e a nuca prometedora.

A camisa é branca, de linho finíssimo e bordada esmeradamente. A cambraia de linho é dissociada a agulha, fazendo-se, na trama lisa do tecido, pontos à jour, de graciosas e difíceis combinações, a que o crivo ou o relevo bordado, ornado de várias cruzes, flores, volutas, grinaldas, e outros pontos, faz dar os nomes de asa-de-mosca, jasmim, vem-do-Rio, estrada de ferro, boa-noite, barafunda, labirinto... combinações de desfiado e tecido, ou bordado, do efeito mais rico ou delicado, que se possa ver, para adorno de pele humana, em baixo, são assim rendadas, a crivo e bordado. (Essa expressão – cabeção de camisa, a parte que fica em cima, sobre o colo e as costas, parte visível, lembra-me Euclides da Cunha, que achava, a esta, a mais bela trova brasileira:

Duas coisas neste mundo
São minha grande paixão:
Perna grossa, cabeluda,
Peito em pé no cabeção...

Perna cabeluda seria de gosto rude, mas o que estaria sob o cabeção, sem possível discordância. Essas camisas teriam cintura, alargando-se de novo, para as ancas. As mangas curtas e rendadas, apenas cobrem o ombro e velam as axilas.

As anáguas ou saias brancas (Lisboa e Rio de Janeiro não saberão o que é anágua, que Bahia e o Minho não esquecem) são também rendadas e de bicos largos na beira, engomadas de goma rala, porém três pelo menos, para fazerem a saia balão. Esta saia ou duas, superpostas, em roda, que tomam largura, atrás e nos flancos: é de pano fino, seda, ou tecido estampado, com desenhos ou listas de cores, trespasses de lã, terminadas em babados largos e superpostos.

À cintura, preso um lenço bordado finíssimo, de labirinto ou renda teia de aranha. Sobre as costas do xale de seda ou pano da Costa a tiracolo, sobre o ombro direito, preso ou não sob o braço esquerdo. Essas ancas da crioula, das quais as saias e anáguas descem sem pressa, são gabadas dos conhecedores. Holden, pastor protestante americano, que visitou a Bahia (1866-1868) registrou um samba:

A mulata é de ouro
É ouro só
As cadeiras dela
É ouro só


Interpretamos que seria o ouro das pencas...

Nos pés as sandálias, de couro ou pano, forradas de seda, cetim ou veludo, muitas vezes na ponta do pé que foi areado, à areia... (A "baiana" ainda não usa o pedicuro). No ordinário, usam às vezes as batas ou casacos, sem decote, mangas compridas, boca larga, rendadas no punho e a beca, xale estreito e peludo, preso com uma fivela sob o braço, ajustado à cinta. Quando se sentam dispõem estas saias exuberantes aos lados, correta ordenação que, aliada ao colorido visto, dá exatidão à imagem de Zweig: parecem mulheres sentadas numa flor. Se não são as flores as mulheres, com as suas pétalas e cálices vistosos...

A riqueza das jóias, arrecadas, colares, correntes, braceletes, presilhas, anéis, multiplicados e reluzentes, fazem das "baiana" ídolos humanos revestidos de trapos caros e metais caríssimos, não uniformes, apesar da moda tradicional, pela variedade de cores e dos adereços, principalmente pela beleza dos exemplares humanos, que esses indumentos de tecidos e jóias reveste, como precioso miolo ou semente de fruto raro...

O que pretendo, porém, afirmar, aqui, é que dentro da variedade individual do gosto e da fortuna pessoal de cada mulher de saia na Bahia, nos dias comuns ou de fausto festivo, há a mesma tradição mantida... em contraste com a leviana imitação constante das mulheres de vestido, que não são baianas mais, tanto são internacionais ou vulgares. As outras, o que só a Bahia tem...

[1945]


(Peixoto, Afrânio. Breviário da Bahia. p.327-330)

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