Março
2002
Ano IV - nº 43 |
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O BOI, AMIGO DO
HOMEM, NO FOLCLORE |
Na acepção comum, por boi se entende o bos
tauros L, do qual provêm as raças de bovinos atuais, não mais encontrados em estado
selvagem. Admite-se comumente que a domesticação do boi teve lugar na Ásia Central e na
Índia, de onde passou para a Europa e a África. Desde priscas eras que o boi é
conhecido. Nas cavernas já se viam pinturas ou desenhos que faziam lembrar o boi. Os
egípcios já o conheciam, tanto assim que fizeram do boi Ápis objeto de culto, na cidade
de Mênfis. Conhecem-se inscrições do boi Ápis nas necrópoles e nos templos egípcios,
comumente acompanhado por um camponês e com grandes chifres. Na Babilônia, juntamente
com o Sol e o lobo, o boi era tido como divindade benfazeja. Os hebreus o conheciam, e
são numerosas as passagens da Bíblia que a ele se referem. Entre os gregos era medida
pela qual se avaliava a fortuna, sendo moeda corrente nas trocas. O dote das mulheres
casadouras se fazia em bois, costume que ainda perdura entre vários povos do Oriente e da
África. Os lacedemônios sacrificavam-os a Marte toda vez que obtinham uma vitória por
meio de ardil, substituindo-o por um galo quando a vitória era conquistada pela força
das armas. Na Roma Antiga, o boi de trabalho não podia ser morto. Os vitoriosos romanos
imolavam, a Júpiter Capitolino, bois brancos provenientes da Úmbria. Às portas dos
templos eram suspensas as cabeças dos bois imolados. Como se verifica, o boi vem vindo
através dos séculos junto ao Homem.
O boi é um animal mamífero quadrúpede, ruminante, bovídeo utilizado pelo Homem para o
trabalho do campo, de carga e de lavoura, quer puxando o carro ou o arado. Dócil,
obediente, compreensível e amigo do Homem, o boi, ao lado do camponês, é a alavanca do
progresso dos campos brasileiros. Na nomenclatura usual dos campos, boi inteiro é touro;
castrado, é boi-de-trabalho. O recém-nascido é bezerro; e já crescido é novilho. A
fêmea do boi é vaca; a cria nova é bezerra; e já crescida, é novilha. A vaca dá ao
criador as crias e a sobra do leite cria as crianças que não se amamentam. A carne do
boi é considerada a mais sadia, digestível e saborosa. Por estas enumerações, o boi e
a sua fêmea, vistos através do caleidoscópio econômico, avaliam o progresso material
de uma civilização...
O rebanho bovídeo no Brasil, segundo estatística de 1952 era estimado em 55.853.990
cabeças, ocupando o primeiro lugar o Estado de Minas Gerais, com 12.261.800, vindo logo
após o Rio Grande do Sul, com 8.899.000; São Paulo, com 7.750.000; Mato Grosso, com
5.843.500; Goiás, com 4.883.000; Bahia, com 4.374.000; Ceará, com 1.449.020; etc. O
Brasil ocupa o terceiro lugar entre as nações que possuem os maiores rebanhos de
bovídeos no mundo. Pelos dados estatísticos acima mencionados pode-se aquilatar do
reflexo econômico da pecuária brasileira sobre diversos setores, inclusive o folclore;
visto que o folclore é como a sombra que acompanha o corpo: quando o corpo pára, a
sombra pára, também; quando o corpo anda, a sombra anda, igualmente...
O folclore, nas regiões pecuaristas vive uma literatura oral, louvando o boi, suas
façanhas, agilidade, força, decisão e a amizade ao Homem, recíproca. A literatura
regional e mesmo a literatura-de-cordel estão pletóricas de estórias em prosa e verso
de passagens pitorescas da vida dos vaqueiros destemidos; dos bois ariscos, bravios e
amantes de façanhas; episódios da ferra, da apartação, do lançamento do
laço e que tais; tudo isso é oportunidade para o folclore glosar e enriquecer o
acervo de estórias.
No Norte e no Nordeste do Brasil, além do mais, o boi é utilizado como cavalgadura (boi
de carga), mediante uma montaria singela, levando um balaio de cada lado onde vai a
mercadoria transportada. Na venta está argola metálica, onde se prende uma corda à
guisa de rédea. Trepado neste dispositivo, o roceiro engancha as pernas e empreende
grandes distâncias. Inegavelmente, o boi é o factótum do homem.
As estórias zoomorfas ou zoófilas em que é protagonista o boi são sempre lidas com
simpatia, porque o boi, em todas as esferas, sempre se revela compreensível e
humanizado... Somente nos hábitos espanhóis brutalizou-se o boi nas touradas,
tornando-se-o, muitas vezes, criminoso, revidando a estupidez do toureiro desalmado e
sedento de sangue. Mesmo no estouro da boiada, que Euclides da Cunha tão bem descreveu
com coloridos campesinos, o boi revela-se um animal explicável... Não sei por que a
maledicência humana desvirtuou os chifres que ornamentaram a cabeça dos bois,
pejorativamente, apelidando de corno o marido enganado...
Dentre as numerosas estórias em que protagoniza o boi, a do "bumba-meu-boi"
percorre meio-mundo. Vou incorporar neste capítulo de No mundo maravilhoso do
folclore uma crônica que publicamos há tempo:
Inegavelmente, outra sobrevivência folclórica que desafia a ação destruidora e
implacável do tempo, em face ao rolo compressor do progresso, é o bumba-meu-boi.
O bumba-meu-boi é uma distração pertencente ao ciclo do Natal que se estende do mês de
novembro até ao dia 6 de janeiro, Dia do Santos Reis.
O bumba-meu-boi, em algumas regiões, é, também, conhecido pelo nome de boi-pintadinho;
todavia, em todos esses folguedos afro-brasileiros predomina, inegavelmente, um culto
sub-reptício ao boi, animal doméstico e que trabalha ao lado do homem do campo, quer
puxando o arado, quer locomovendo o carro-de-bois ou cavalgando pelos vaqueiros.
De velhas datas, desde tempos imemoriais, no Egito prestou-se culto ao boi Apis. No
Nordeste brasileiro, os fanáticos do Padre Cícero Romão Batista, do Juazeiro, no
Ceará, adoraram um touro pertencente ao padre místico, atribuindo ao boi-mansinho poderes
milagrosos...
Bumba é interjeição, záz, calendo a impressão de choque, batida,
pancada. Bumba-meu-boi será: - Bate! Chifra, meu boi! Voz de excitação repetida nas
cantigas do auto, o mais popular, compreendido e amado no Nordeste, o folguedo brasileiro
de maior significação estética e social, no dizer de Renato Almeida.
O bumba-meu-boi, disse Sílvio Romero vem a ser um magote de indivíduos, sempre
acompanhados de grande multidão, que vão dançar nas casas, trazendo consigo a figura de
um boi por baixo da qual oculta-se um rapaz dançador.
Na nossa região, o bumba-meu-boi é conhecido vulgarmente por boi-pintadinho. Há
os entendidos na organização de um boi-pintadinho e todos os anos eles saem à rua nas
proximidades no Natal.
A figura de um boi é feita por uma armação interna de sarrafos e coberta por pano
pintado e adaptado na região anterior; uma máscara perfeita de um boi com chifres
enormes, tal qual; e na parte posterior uma longa cauda. É um travesti perfeito.
Há, no interior, os especialistas na "fabricação" de boi-pintadinho... Por
baixo do boi-pintadinho colocam-se dois rapazes, também especialistas no
"oficio", isto é, nas "marradas", nas "chifradas", nas
"corridas" e nas danças. São um gozo as proezas do boi-pintadinho, que tem
amarrada no chifre uma corda que é segurada pelo vaqueiro. Atrás, se coloca a cantoria:
- sanfonas, violas e a bateria de baticuns. A cantoria, ao sinal do
"contramestre", espouca , entusiasmada; e o vaqueiro, numa voz de excitação
repetida e monótona grita:
Êi, êi, êi-boi!
E a multidão acompanhante repete também:
Êi, êi, êi-boi!
É uma verdadeira festa a chegada de um boi-pintadinho num povoado, ou num bairro, ou numa
rua. Os "boiadeiros" recebem espórtulas, após a cantoria, as danças e as
proezas do boi-pintadinho com a garotada. É um gozo para os garotos e até para os
marmanjos...
É comum ver-se, ali cá e acolá, exibições do boi-pintadinho no tríduo carnavalesco.
Os folcloristas ortodoxos, porém, não vêem com bons olhos essa inversão de valores, de
vez que a tradição registra o bumba-meu-boi ou o boi-pintadinho, como uma das melhores
tradições do passado, em que o sincretismo consegue irmanar folguedos ingênuos com o
sentimento religioso do homem rústico dos campos.
O cronista se filia aos folcloristas ortodoxos, porque "um povo que esquece a sua
poesia, que não sabe cantar as suas estórias, nem dançar ao som de suas músicas, é,
infelizmente, um povo sem destino".
* * *
Linhas acima, referi-me incidentemente a um tourinho que foi adorado e divinizado e que
existiu numa das fazendas do padre Cícero Romão Batista, misto de sacerdote católico,
taumaturgo e político-coronel-de-batina, como se verá em capítulo posterior.
O padre Cícero, milagroso e soba de toda a região do Crato, no sul do Estado do Ceará,
recebia diariamente centenas de romeiros vindos de zonas longínquas para receber sua
benção. Dentre desses romeiros veio um crioulo chamado José Lourenço, beato e que caiu
na simpatia do padre Cícero, que lhe deu uma das fazendas para administrar. Aí começou
a estória do tourinho: - de ordinário, os romeiros traziam presentes e lembranças para
o padre Cícero; certa vez, um romeiro trouxe para o soba do Crato um lindo tourinho. Todo
mundo admirava a beleza do animal. Diziam que o beato José Lourenço, finório, começou
a atribuir ao lindo animal qualidades milagrosas: as suas fezes curavam feridas e o seu
mijo ingerido era remédio para todas as doenças... Começaram as romarias ao tourinho,
levando-lhe até flores, adorando-o e em busca das fezes e do mijo milagrosos...
Conta-se que o doutor Floro Bartolomeu, médico e braço direito do padre Cícero na
política, ficou tão enojado com o culto do tourinho, que mandou recolher ao xadrez o
beato José Lourenço, a quem atribuiu o culto grosseiro e a crendice das curas obtidas
com os excrementos do tourinho. Ainda mais: o doutor Floro mandou abater o animal
"milagroso" em praça pública e distribuiu a carne e as vísceras para o povo.
Mas, inacreditavelmente, nada dos restos mortais do tourinho se perdeu: vinha gente de
longe comprar um "pedacinho do tourinho milagroso" para a confecção de
amuletos... Quem era capaz de comer carne e vísceras de animal milagroso?...
Os que contam as estórias do tourinho milagroso esclarecem que o prestígio do beato
José Lourenço cresceu; e que o prestígio do doutor. Floro Bartolomeu foi excomungado na
opinião pública daquela gente rude e rústica. O doutor Floro Bartolomeu revelou-se,
nesse caso, mau conhecedor da psicologia das multidões...
Dizem que a solução do caso do tourinho milagroso e a corrigenda do beato José
Lourenço infligidas pelo doutor Floro Bartolomeu desagradaram ao padre Cícero. Mas o
sacerdote taumaturgo nada piou a respeito, porque o padre achou prudente não ciar um caso
político com o doutor Floro, seu cupincha da politicalha, no sul do Estado do Ceará.
* * *
O boi, até mesmo depois de morto, é útil ao Homem. Como é isso? A estória se conta
assim: - quando alguém perde um boi por morte, a sua caveira é disputada, porque os
vizinhos querem a mesma para ser colocada no cimo de um pau alto e roliço, ficando ali,
dentro do curral onde se trata do gado. A caveira, com os seus chifres enormes, passa a
ser um amuleto contra o mau-olhado. Lá no sertão campista não há um curral onde se
trata do gado e que não haja uma caveira de boi, bem alta, no topo de um pau ou na
cumeeira da casa próxima, destisada para amuleto contra o mau-olhado. Dizem que o tal
amuleto tem muito poder...
Lá, na minha fazendola, em Campos, no curral onde se trata o gado e tira-se o leite das
vacas, está uma caveira enorme, que, em vida, fora de um belo touro gir, morto em virtude
de uma estiagem de dez meses: fome e sede.
Quando o campeiro ali colocou a caveira do touro, adverti-o: para que isso? Ele
respondeu-me: "agora, não haverá mais mau-olhado nesta fazenda. Muita coisa, aqui,
doutor, não anda para frente por causa de mau-olhado..." E benzeu-se...
(Carvalho, Hernani de. No mundo maravilhoso do folclore, p.141) |
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