Março
2002
Ano IV - nº 43 |
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Quando se aproxima a época em que a tainha
sobe a costa, em busca de águas quentes, para a desova, vai uma agitação intensa pelos
núcleos de pescadores do litoral paulista a nordeste de Santos. A aproximação do
cardume é acompanhada com toda atenção, e a notícia corre de praia em praia,
aprontando os pescadores o material para a tarefa que se avizinha. Sob os ranchos, entre o
"jundu", no fundo das estreitas enseadas ou na ponta das praias, consertam-se as
redes, revistam-se as tralhas, examinam-se chumbeiros, alcalas, cortiças e remos.
Descansam as canoas nos roletes, abrigadas em cobertas juntos ao mar.
Enquanto todos esse preparativos se processam, numa faina coletiva que caracteriza a
população litorânea e que a irmana, toda entregue que fica aos misteres de uma
atividade coletiva em que cada um tem o seu papel e a que nem mesmo as mulheres escapam
há um elemento que já está em função e função importante, de cujo exato
desempenho dependerá o êxito do cerco que os pescadores farão. É o "espia".
Do alto de uma "costeira" favorável, ou de um ponto elevado da praia, onde
possa se avistar desde longe as águas oceânicas, sua vigilância não tem pausa. Olhos
postos no mar, como que fareja a aproximação do cardume. A agudeza de sua observação
é impressionante. Antes que qualquer outra pessoa perceba, está acompanhando os
movimentos dos peixes, prenunciando mesmo a sua aproximação, sentindo o seu rumo e até
avaliando o seu número. Dia após dia, noite após noite, aguarda o aparecimento do
cardume e, quando verifica a sua chegada nas águas próximas, pertence-lhe o sinal que
dá começo à intensa atividade que consome a população local.
Tarda, às vezes, o alarme. É que o peixe, não raro, demora dias e dias em frente à
praia, ora se aproximando ora se afastando, reunindo-se ou se dispersando, entrando pelas
águas profundas ou retornando à tona. Um aviso fora de tempo, um lançamento
precipitado, um atraso qualquer e a tarefa está ameaçada de malogro. Pertence ao
"espia" e constitui a parte difícil e de responsabilidade pessoal de sua
tarefa, a escolha do momento propício, quando as operações devem ser desencadeadas.
Atento, acompanha todos os movimentos do cardume e, depois de prolongada espera, decide da
convocação do pessoal da praia e do início da atividade do cerco das tainhas. Soa,
então o búzio e o seu ruído ecoa pelas praias e encostas vizinhas. O pessoal acorre
destinando-se cada um ao lugar que lhe cabe e apanhando o material de seu trabalho. A
população toda corre para a praia, saindo dos caminhos, encostas e ranchos escondidos no
"jundu". Rolam-se as canoas praia abaixo. Formam-se as canoas na conformidade
das redes que levam, embarcam as tripulações. E avançam, vagarosamente, ao impulso de
remadas pausadas e silenciosas, enquanto canoas menores, dos "aparadores", vão
acompanhando, prontos a completar a tarefa dos redeiros.
Mais atento do que nunca, o "espia" está acompanhando e comandando todos esses
movimentos. De seu posto, com sinais de braço, desenvolve a manobra dos barcos. Há um
momento em que o cardume se dirige para o lugar favorável ao cerco. A flotilha está
pronta e deixou o peixe entre ela e a praia. A distância em que se encontra o peixe, a
densidade de sua reunião, sua posição em relação à costa, condicionam o lançamento
das redes. O sinal do "espia" é decisivo. Lançam-se as redes, com os barcos
aproximados e ela é estendida, depois, pelo afastamento deles, até fechar-se, com as
pontas sobre a praia. Está pronto o cerco que fica complementado pelas tarefas miúdas.
Não está senão iniciada a tarefa do "espia", embora a sua parte principal
esteja feita. Cabem-lhe ainda pormenores do cerco, até começar a puxada para a praia.
Acabada a pescaria, quando todos se aprestam para a partilha do peixe, reunidos em volta
dele, na praia, esse "general dos cercos de tainha", com o denominou Carlos
Borges Schmidt, tem a sua paga. De acordo com a sua responsabilidade e a importância do
seu trabalho, seu quinhão é maior.
(in Revista Brasileira de Geografia, ano 13, nº 2)
(Sodré, Nelson Werneck. Em Tipos e aspectos do Brasil. p.337-338)
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