Março
2002
Ano IV - nº 43 |
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Em Jacarepaguá, entre os rios Estiva e
Pavuna e as estrada da Caieira e Taquara, está situada a localidade denominada de Pavuna,
atravessada pelas estradas de Guaratiba e Velha da Pavuna, antigamente conhecida por Vale
Fundo.
Esta região, habitada por inúmeros lavradores, é o seio da indústria da esteira. Ali,
em casas de pau à pique, sopapo e rancho, vive uma população laboriosa e feliz,
longe do tumulto da cidade, entregue à vida pura e roceira e onde o forasteiro que passa
é sempre bem acolhido.
No quilômetro oito da estrada Velha da Pavuna nº 504, numeração colocada pelo Serviço
de Profilaxia Rural, há um pequeno sítio denominada da Maria Portuguesa (a
falecida Maria do Carmo), exímia esteireira da localidade, de quem até hoje se fala e
que ensinou as filhas, pequeninas ainda, a técnica da fabricação da esteira, as quais
são hoje em dia duas mestras no seu preparo.
Maria do Carmo e Olívia, a caçula, contam que sua mãe fazia esteiras há mais de vinte
e cinco anos; nascidas ali, foram criadas nesse ofício; seus brinquedos prediletos eram
os tendais pequeninos, com os quais faziam esteiras para bonecas. Atualmente, vivem com
seu velho pai, uma irmã viúva e um irmão, que faz o serviço militar.
Em quase todas as habitações desse lugar e redondezas fazem-se esteiras, trabalho
executado pelas mulheres, pois os homens não fazem.
As esteiras são tecidas de junco, taboa e tiririca, sendo as mais comuns as de taboa; as
de junco e tiririca são mais caras, por ser mais incômoda sua confecção.
A Taboa (Typha latifolia, Linn., variedade dominguensie Pers. da
família das Typhaceas), planta de flores unisexuais em espigas declíneas, vive à
beira dos rios e lagoas, em grande quantidade, formando o que se denomina de taboal;
cresce até quatro metros de altura.
O corte é feito da tabua ou taboa verde e, quando colhida, já seca, dão-lhe o nome de capote.
Esta planta fornece palha para esteiras, cadeiras, obras trançadas, assim como
paina para travesseiros e almofadas, tornando-se, por assim dizer, a verdadeira cama do
pobre.
Junco Tabua (Cyperus giganteus Vakl. ou Papyrus radiatus Schrad. Família
das Cyperaceas). Esta planta, rica em celulose, é também útil à indústria e
medicina. Sua palha é mais valorizada que a da taboa verdadeira, por sua resistência,
mas não pela maciez; fornece material para o fabrico de papel e esteira. É ainda chamada
de pery-pery ou piri-pyry, do tupi: junco-junco, capim de esteiras;
vive em lugares pantanosos.
Tiririca (Scleria bracteata Cav.) De porte menor que a taboa e pior
para o corte, por ter a folha afiada como uma navalha, tanto que se diz: tiririca é faca
de cortar, do tupi tiriri cortante. Tem diversos nomes por que é conhecida:
tiririca do Brejo, tiririca navalha e, erradamente, citada como tiririca.
A tiririca faz parte da família das Cyperaceas, portanto, rica também em
celulose, Dizem ser sinônimo desta palavra (tiririca) a Tupinambásem.
As esteireiras fazem o trabalho a meias com os que vão colher as palhas, nas margens da
lagoa, nos alagados de Camorim, pelas vésperas da festa de Nossa Senhora da Penha,
realizada na igreja situada no cume de um morro, a 160 metros de altura, que domina toda a
planície, tendo um ponto de vista maravilhoso sobre a grande bacia hidrográfica de
Jacarépaguá. Essa festa é comemorada a 8 de setembro, dia de sua padroeira.
Nessa época, os guris da redondeza vão à lagoa cortar taboa, dizendo "Vamos
nos livrar de um ano péssimo". e caem no taboal, cortando a palha, mas voltam
à margem, isto é, ao seco, assim que têm um feixe, por não suportarem a frieza das
águas da lagoa, o que se verifica nas camadas profundas; depois voltam novamente, e,
assim, nesse vai e vem constante, conseguem cortar a quantidade desejada, levando as
palhas às esteireiras conhecidas; a confecção é às meias, isto é, vendidas, recebe a
metade cada um; varia o preço de mil a mil e duzentos réis a esteira.
Nessa brincadeira infantil ganham de quinhentos a seiscentos réis, por esteira. Não sei
se por devoção ou por lucro, o certo é que a gurizada prepara-se toda, com roupa
nova para ir à festa de Nossa Senhora, que se reproduz todos os anos.
* * *
A técnica da fabricação de esteira é fácil, própria para as mulheres.
O tendal consiste em uma espécie de varal, formado de duas varas, colocadas
paralelamente, presas ao alto a um caibro ou pilar, no plano vertical, e as outras
extremidades afastadas desse plano, na horizontal, dando determinada inclinação ao
tendal, que se firma no chão. Essas duas varas são ligadas, à altura de um metro e
quarenta, a um pau roliço, em linha horizontal, o qual é dividido em dez sulcos, ou,
como dizem, cortadelas, por ondem passam os fios presos aos cambitos, sendo que, em
cada sulco, passam dois fios, um em cada cambito, o da frente e o de trás, formando um
conjunto de vinte cambitos. A madeira empregada na confecção do tendal, isto é, nos
varais e pau roliço, é a tabebuia.
O cambito é feito de um pedaço de pau roliço, de uns vintes centímetros de
comprimento e duas polegadas de diâmetro, dividido ao meio por um sulco onde se amarra o
fio que prende a palha, tecendo a esteira; a madeira neles empregada é o ingá.
O tendal, que acabamos de explicar, serve para a fabricação de esteiras grandes, de um
metro e setenta de largura por noventa e quatro de comprimento, mas, para esteiras
menores, o pau roliça terá sete sulcos ou cortadelas e quatorze cambitos, resultando
esteiras de um metro e vinte de comprimento por vinte de largura.
A confecção da esteira tem uma técnica facílima, como veremos adiante, preparadas as
palhas de taboa e os fios; das palhas já conhecemos a origem e o corte. Vamos rapidamente
mencionar a origem do fio, que é de Guaximba.
Guaximba ou Guaximba-roxa (Urena lobata Cav. Família das Malvaceas),
do tupi gua-cyma, pronunciando guáchima o que é liso ou lustroso,
alusão à fibra sedosa da planta deste nome, também é conhecida por Guaxuma, Guachuma e
Guajima.
A Guaxima é apanhada na vargem, em varas, às quais, depois de secas, torna-se fácil
tirar a casca, de que se extrai a fibra com que se faz o fio grosso para amarrar ou tecer
as palhas da taboa. É conhecida também pela denominação de carrapicho de lavadeira em
alguns lugares.
As esteireiras colocam em pequenos feixes de três a quatro palhas ou mesmo duas, depois
de molhadas ligeiramente, acamando-as sobre o pau roliço ou pau dos cambitos; para tecer
a esteira, prendem as palhas por meio dos fios grossos da guaximba, que se acham presos
aos cambitos, verdadeiros bilros.
O jogo dos cambitos é simples: os da frente vão para trás, jogados pela mão, e os
detrás para frente, fazendo-se com rapidez cruzar os dez da frente com dez detrás; a
seguir, outra camada de novo feixe de palha e novamente o cruzamento dos vintes cambitos
e, assim, sucessivamente, até chegar a largura ou comprimento desejado.
Depois são retiradas as esteiras, ligadas entre si e separadas, para o aparamento e
remate; por fim, empilham-se a um canto.
As moças esteireiras trabalham, das 7 da manhã às 7 da tarde, obtendo o resultado de
dez esteiras diariamente, vendidas a razão de $800 à 1$200 cada uma, à porta. Assim,
essas flores silvestres, em labor contínuo, nesse recanto rural, são as representantes
duma indústria bem nacional.
A venda, ou comércio, das esteiras é feita pelos homens que arrecadam toda a produção,
para levá-la aos mercados e armazéns das zonas rural, suburbana e urbana, vendendo à
razão de 1$800 a 2$800.
O nacional Manuel Luiz dos Santos, conhecido por Manuel Pindoba, que possui sítios, um em
Pavuna e outro na Itapeba, é o vendedor mais conhecido de esteiras.
São seus vizinhos e amigos que as fabricam e ele vende, transportando em burros ou
carroça aos centros comerciais. O transporte por meio de burro é muito interessante: o
animal quase desaparece entre os rolos de esteira, de volume extraordinário e peso
relativamente leve.
O animal com a respectiva cangalha, chega a transportar cinqüenta esteiras, divididas em
cinco rolos, dois de cada lado e um ao centro, por cima dos outros, amarrados entre si e
ao animal.
Merece atenção o modo de enrolamento das esteiras para cangalhas: colocadas quinze
esteiras no terreiro, umas sobre as outras, faz-se outro grupo idêntico ao lado, para que
o volume regule o mesmo; dois homens enrolam o primeiro grupo e amarram e fazem o mesmo ao
outro, deixando duas alças ao amarrarem para serem presas à cangalha. Enroladas as
esteiras, os dois homens levando-as à cabeça, vão colocar, ao mesmo tempo, cada um dos
rolos de um lado na cangalha, para que não haja desequilíbrio na carga. Feito este
primeiro serviço, preparam os segundos rolos, separando dois grupos de onze esteiras cada
um no terreiro, enrolando-os separadamente e renovando a operação da colocação no
burro e, finalmente, como remate, fazem um rolo menor, de cinco esteiras, para ser
colocado ao centro dos outros, culminando a carga.
Amarram, depois, todo o conjunto, apertando com um pau as cordas e, às vezes, como
contra-peso, pequenas pedras, para o equilíbrio da carga; e, assim, fica o burro
carregado, que parte com seu guia, pelas estradas e ruas das zonas mais remotas, como
Campo Grande, Irajá, Inhaúma, Engenho Novo e, mesmo Vila Isabel, vendendo a varejo sua
carga. A volta é mais agradável para o dono e o animal.
A condução pela carroça é mais fácil, pois é feita em empacotados de dez esteiras,
dobradas em três e amarradas por um envolucro de esteira, formam um fardo.
A carroça mais facilmente conduz maior número de esteiras, pois é de varal, com dois
burros, propriedade do mencionado Manuel Pindoba.
[1936]
(CORRÊA, Magalhães. O sertão carioca. p. 93-98) |
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