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Março 2002
Ano IV - nº 43

NO TEMPO EM QUE JESUS ANDAVA PELO MUNDO

O gato e o burro


No tempo em Jesus andava pelo mundo, aconteceu que o gato foi amaldiçoado e o burro abençoado. É que Jesus Cristo ia indo por uma estrada muito ruim, debaixo de uma soalheira muito forte e, por isso, sentiu muita sede. De repente, ele se encontrou com um gato e, então, lhe disse: - "Gato, me ajude a encontrar um pouco d’água." – "Se quiser água procure, que não sou e nunca fui criado de ninguém, e muito menos de um andante que eu não conheço" respondeu o gato. – "Não faz mal" – respondeu Jesus. – "Vou procurar sozinho, mas a água há de ser sua inimiga." Assim o gato foi amaldiçoado.

Jesus foi andando e, mais na frente, encontrou um burrinho pastando e lhe fez o mesmo pedido. O burrinho saiu correndo e arrumou água para Nosso Senhor. Jesus disse ao burrinho, abençoado: - "Deus te abençoe, burrinho, e que nunca te falte água, que teu focinho possa sempre encontrar por mais difícil que ela seja." Assim o burro foi abençoado.

(Taiaçu, Taiúva e Jabuticabal)


O tapa


Quando Jesus andava pelo mundo, chegou certa vez na beira do mar para conversar com os peixes. Os peixes vinham e Jesus ia perguntando o nome deles, e eles respondiam um porção de coisas e iam embora. Então chegou um peixe malcriado e, quando Jesus perguntou: "Como bos chama", ele, para escárnio, arremedou Jesus Cristo, torcendo a boca para uma banda e revirando os olhos. Jesus lhe deu um tapa na cara, e, por causa disso, aquele peixe deixou de ser peixe, ficou com a cara torta e recebeu o nome de tapa

(Ilha do Búzios, São Francisco, São Sebastião e Maresias)


O tapa

Certa vez, Jesus perguntou a um peixe qual era o caminho que ele devia seguir para poder chegar num certo lugar. O peixe, que era de muito escárnio, repuxou a boca para um lado como que mostrando o caminho. Jesus amaldiçoou o peixe, que ficou para sempre com a cara torta.

(Maresias e São Francisco)


Jesus e o Lázaro


Quando Jesus e São Pedro andavam pelo mundo, passaram certa vez por um campo e se encontraram com um lazarento. São Pedro olhou o homem e disse: - "Senhor, você que multiplicou os pães e os peixes, porque não cura também esse pobre lázaro?" Jesus respondeu que era muito fácil fazer aquilo e mandou Pedro arrumar uma galinha preta, abri-la pelo meio e colocá-la bem por cima das chagas do doente. Enquanto Pedro fazia aquelas coisas Jesus pegou umas flores de maracujá e ia dizendo estas palavras: - "Estas chagas hão de sarar, com sangue de galinha preta e flores de maracujá". As flores foram ficando vermelhas com jeito de chagas, e assim, o lázaro sarou.

(Poá)


Jesus e o Lázaro


Jesus ia passando,
Lázaro me chamou.
Pedro perguntou.
"Por que Jesus não cura?"
- "Lázaro se curará,
com sangue de galinha preta
e flor de maracujá."

(Poá)


A mulher do seio inflamado


Jesus disfarçado de velhinho, juntamente com São Pedro e São Tiago, chegou numa casa onde uma mulher tinha dado à luz. Bateram palma e pediram pouso, mas o marido da mulher gritou com eles, dizendo que não tinha lugar nenhum para dar pouso pra ninguém, e que, de mais a mais, a sua mulher estava muito doente e que fossem bater noutra porta. Jesus disse que qualquer lugar servia para eles, só para ficarem no resguardo da chuva que estava caindo. A mulher, lá dentro, ouviu a conversa e disse para o marido não atropelar os pedintes, que tinha lugar na cocheira. Os animais que estavam lá e sabiam que aquele velhinho era Jesus e que seus companheiros eram dois apóstolos, por isso, limparam bem o lugar onde eles iam dormir.

No meio da noite, a mulher piorou e falou pro marido: - "Será que aquele velhinho ainda está por aí? Eu gostava que ele viesse me ver e falar comigo". O marido respondeu: - "Você está louca, mulher? O que é que essa gente pode saber?"

Mas a mulher tanto insistiu e reclamou que o marido acabou chamando Jesus e lhe fazendo o pedido. Jesus disse que trouxesse a mulher até a estrebaria. O homem respondeu que não podia, por causa da chuva e da febre. Jesus fincou o pé e, então, o homem teve que trazer a mulher. Ela veio cheia de fé e Jesus, pegando barro da cachoeira, benzeu o seio dela assim:

"Mulher boa me deu pousada,
homem me fez a cama,
entre o tijuco e a alma.
Sara esse peito
e a criança mama."

Repetiu o benzimento três vezes e o seio da mulher sarou. Então, o homem, vendo a mulher curada, arrependeu-se de ter desconfiado de Jesus Cristo, ajoelhou-se, rogou perdão e disse:

- Será que o Senhor Jesus podia curar meu irmão que está encarregado num catre já faz muito anos? Não anda, malemal pode sentar.

A gente fez de tudo e, esses aí de mal dizer, juram que ele está estributado...

- Onde está o teu irmão? - perguntou Jesus - Tragam ele aqui!

- Ele está muito longe, no sertão. De a cavalo ele não pode vir e, andando, que esperança, nem se fala, é muito longe, Senhor!

- Homem de pouca fé e muita precisão - disse Jesus - eu te perdôo! Agora me mostre o rumo do lugar onde ele está.

O homem mostrou pra que banda ficava a casa do doente e Jesus olhou direto naquela direção estendeu o braço direito para aquele rumo e curou o paralítico.

(Poá)


Mulher mau, home bão


Jesus e São Pedro foram pedir pouso e comida numa casa. O dono da casa, que era de bom coração, mandou entrar, mas a mulher dele, que era ruim como o diabo, armou barulho, jogou a janta no chão e porcaria nas camas de dormir. Então, o homem, muito triste, disse que agora só tinha lugar no paiol, porque a mulher, por ruindade, tinha estragado as camas. Então os dois foram dormir no paiol.

A mulher mau estava doente com o seio inflamado e, no meio da noite, começou a gritar de dor. O marido ficou desesperado e foi chamar os dois. Jesus veio, tirou um ramo de vassoura de guanxuma, que estava na lata de lixo, mandou a mulher tirar o seio para fora e foi benzendo assim:

"Homem bão,
mulher mau,
casa molhada,
cama de pau."

Repetiu três vezes, encruzando o peito da mulher e dizendo que quem quisesse fazer esse benzimento tinha que rezar, depois três Padre-Nosso, três Ave-Maria e oferecer à sagrada paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

(Moji das Cruzes)


O virado de galo


Jesus e São Pedro andavam pelo mundo, quando certa vez chegaram numa casa e pediram um pouco de comida. A mulher não tinha nada pra dar pros pedintes, mas lembrou que tinha um galo no terreiro. Matou e fez virado. Repartiu com os homens e guardou um pouco para o seu marido. Quando ele chegou e viu aquele povo, perguntou o que era aquilo. A mulher contou que eram dois pedintes, que tinha matado o galo, feito virado, repartido com eles e guardado um pouco para ele jantar. O marido ficou louco de raiva e começou a sovar a mulher. Jesus, vendo aquelas coisas, pegou um punhado de virado e espalhou no chão. Nessa hora o galo ressuscitou e, cacarejando, foi ciscar no terreiro.

(Moji das Cruzes)


O animal com bicheira


Uma mulher tinha um animal de muita estimação e ele pegou bicheira. Não havia remédio que curasse o animal. Um dia, como Jesus e São Pedro iam passando por ali, a mulher pediu que curasse seu animal. Jesus estava cansado e disse pra São Pedro que curasse o bicho, ensinando:

- Pegue um pouco de pó de café socado em dia de domingo por uma mulher de vida ruim. Pegue o nome do homem mais à toa e vagabundo que tiver por aí. Leve o animal numa encruzilhada e diga estas palavras: "Em nome do meu compadre, fulano de tal, o homem mais à toa que tem por aqui, e com o pó de café socado num dia de domingo pela mulher à toa, sendo os dois amaldiçoados por Deus, eu te curo a bicheira."

Pedro fez o que Jesus mandava e curou a bicheira do animal.

(Moji das Cruzes)



(Xidieh, Osvaldo Elias. Narrativas populares... p.46-50)

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