Março
2002
Ano IV - nº 43 |
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A MULA-SEM-CABEÇA 
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- Arrunego daquela que, dizem, eu
não seio, não juro, que, mula de pade, Kuk! Kuk! Kuk! Kuk! Kuk! (gutural)
Cruis! Eu tarrunego treis vêis! Cruis da bracafusada, da encrenca da tua
pantaforma! Eu so seio dizê quera num dia de sexta-feira de corésma. Era bem
tarde já. Eu e mamãe, nois tinha cabado de chegá em casa, ô dispois das encomendação
das arma. Nois é vinha de carreira, coge mortas dassombrada. Mamãe, coitada, esta
cahio na porta da rua, de bruço, que nem genipapo maduro, em conto eu destrancava a
porta. Entrou arrastada nos meus braço, tremendo cumo vara verde, cansada em tembos de
deitá a arma pla boca. Non vê, que conde acabou-se cao encomendação,
quera na rua de riba no cruzêro da Boa Morte, cada um dos companheiros pitou seu
fumo e tomou seu rumo e nois também tumemo o nosso. E nois é vinha puxano muito e nois
morava longe no fim da vila.
Mali fiquemo só, condo uvimo uma matinada qué vinha da rua de riba, e mamãe disse
logo:
- Minha fia, queira Deos nois não temp hoje córqué branquifeste! E eu fiquei logo me
temblano, sipono o que seria. Medo, que Deos dava! E puxa que puxa! puxa que puxa!
Tira que tira! quisape, quitrape!... que a arma stava pra sair pla boca! E o trem lai vem
e nois demo pra corrê. Panhemo nas mão os chinelo, botemo a saia pla cabeça e metemos o
arco. E o trem atrais de nois! Pramode coisa que nos vio, e avançou cuma tricusana,
caquela bataria que chegava a tremê a terra. Eu não sabia o que era, mamãe,
antonce, foi quem conheceu de longe.
- Minha fia, stamos perdida! E eu pensei logo quera difunto.
- Aquilo é a mula sem cabeça, disse ela, parano. Não corre mais não, qué mais
pió. Deita-te de bruço nareia, cobre bem a cabeça e esconde as unha dos pé e das
mão. Se ela vié e nos cherá, não tem nada.
- Mas, mamãe, a tribusana é grande, levém aqui perto... e pramode qué duas
tribusana?...
- Cala boca, menina, deita! por Nossa Senhora!
E nois... bucutu! nareia, na beira dum fedegosal.
A lua stava quilára que nem o dia! Conde nóis fumo deitano, a tribusana parou coge perto
de nóis núma encrenca... fim! ai! ui! Era duas mulona.
Vinha tinino aquela ferrage, numa latomia, cuma pantomia que fazia horrô. Eu acho
que uma sentio o bafo que o vento trazia da outra, e por isso foi que uma parou, esperano.
A outra, a de riba, nam mancou! Foi chegano e aqui no contenente arribou-lhe uma bardelada
na outra, que foi de quarto abaxo, que chegou escanchá. En trancaro uma briga que fedeu
chamusco, aquele fedozão de enxofre. Eu arribei bem, antonce, a ponta do lançó da
encomendação pra vê. Uma bruziguiada do inferno! Coge quassimbro, condo fui dano
cos oio na bicha.
Era patada e dentada que saía aquelas lasca de fogo! Arreparei bem as duas porcona, as
duas mulona, cada qual có duas estrela na testa. Era fogo só! E elas, papu brucutu! Papu
brucutu! Dava roncos e rinchava que parecia dois bichos feróis, dois diabo em pessoa. E
batero ferrage!!!... batero ferrage!... brigaro horas larga, que cum poucas o galo cantou.
Aqui, condo galo cantou, apartaro a briga, e uma correu pra riba, outra pra báxo,
que sumiro naquela mundaça.
Antonce nois lavantemo; e, pernas pra que te tem?
Cheguemo em casa pra morrê, e o trabaio malhó que deu-me pra socegá mamãe?
Conde nois estava para deitá, batero na porta cum força.
Quem bate?
- É de páis.
De páis quem?
- Eu, fulana!
- Ah! Ah! Ah!
Mamãe, que, por inlivia, sabia mais ó mêno do causo, me coxixou-me em segredo, pondo os
dois dedo na boca.
É dona fulana. Ela é que é a mula sem cabeça que nóis vimo.
In cumas, mamãe? Proguntei eu por aqui assim indimirada e báxinho: dona fulana!?
- Não quero vê promoves, eim? Tu fais que não vê, que nada sabe; eu vou abri a porta e
tu não te alavanta, nem pru sonho. E sahio e foi abri a porta.
Eu, pan! Fiz que estava drumino e roncava... de mentira.
Mamãe destrancou a porta e conversou báxim queu não uvi. So uvi mamãe dizê:
não tem ninguém.
A muié entrou gemeno; estava que fazima lastma. Oia? Cada lápo
destamanho... no corpo todo! A outra mula era valente, e eu acho que trazia
navaia e era doutra freguesia.
Comeu a outra em vida que não mancou e coge a mata. Nam foi nada; subiu pra riba da cama
e babáxo de muito segredo (aqui pra nóis), o vigáro, ô dispois do causo passado, que
soube, veio in nossa casa, horas morta, e levou antonce pra casa dele a tal
fregazona dele. Antonce, conde se proguntava, se dizia quera catarrão cum
feverão. Ela se maldizeno, contava de sempe à mamãe a sua sina. Coitada! Tinha
uma má sina. Muitas vêis quisera largá o pade; mas porém, a sina dela puxava e
ela, que só dava praquilo, não tinha remeidos a dá. Hoje ninguém vê mais disto
(quindas hai)! Mais, noutro tempo, cumo no meu, era um risco! Deos amostrava
muitos inzemplos. Ainda hai a mula sem cabeça; custa muito, mais porém hai. Essas coisas
de Deos um fum!... ninguém deve marmurá. Mamãe veio sabê, ô dispois muito tempo,
quessas gente são iscomungado. O pade que se mete cao vida dessas
tafula, desneque alevanta da cama, o premêro Deos te sarve e o premêro pilosiná é
inscumungá ela sete vêis, antes de rezá. Condo reza o breviaro, sete; antes de carça o
chinelo, sete também, qué pra levá pra igreja a fulaneja debáxo dus pé; antes
de começá a missa sete; serte antes de tocá na pedradela; sete ante o premêro
donozobisco; sete no mei da missa; sete no alevantá do Senhô; sete antes do cale,
sete ô dispois que acaba a missa. E tudo isso em sete coresma ele é obrigado a fazê.
Que conde interá as sete coresma e sete sexta feira, na béspa, é hora da fulanda, a
tafula, virá a tal mula; sem ela esperá (numa sexta feira é que começa); chega
cuma doida no monturo, tira a roupa toda, põe na cerca, esfrega pra lá, prá cá; que
cum poucas non tem que vê; rompe na mundaça aquela bixa!... Sete freguesia! Tem de
corrê o fado sete freguesia! Quem pegá uma mula desta, estano de tocaia, é
acendê uma velha branca benta, si tem corage, pruque o causo é feio e escaroso. Vem
batê em riba, non tem que vê; mas porém, é muito riscoso. Só a ferrage dela...
umfum! Ai! Ai! Os óios nossos coas unha é candeia pra elas. Condo se qué sabê si
uma tafula está virano, panha-se um caco de teia e cobre o rasto dela nareia,
condela vai pra missa, e fica-se de mamparra até que ela vorta pru onde já passou.
Retira-se ô dispois, o caco que é de se vê o rasto de um burro ferrado. Custa muito
virá a mula, ispramentes as que não se chama Ana. Estas vira de sete ano.
(Ambrósio, Manuel. Brasil interior. p.50-53) |
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