Março
2002
Ano IV - nº 43 |
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FESTAS DA
QUARESMA E SEMANA SANTA 
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No dia 12 de março realizava-se a
procissão de Nosso Senhor até a Misericórdia, da qual a corte sempre participava. A
imagem ficava na capela do palácio, que funcionava como catedral. Ali se achava armado um
vasto andor encimado por um dossel e cercado de cortinas, tendo no centro uma imagem em
tamanho natural, curvada sob o peso da cruz.
Por volta da oito horas entrou na igreja um grupo de pessoas, e uma delas, ajoelhando-se
humildemente perto de mim, enfiou um ombro sob o andor e levantou-o. Seu peso era grande e
exigia um esforço muscular considerável. Ao olhar para o rosto do musculoso homem que
suportava esse peso, verifiquei que se tratava do imperador. Até os últimos dias que
viveu no Brasil seu pai tinha estabelecido a praxe de leva sobre os ombros aquela cruz,
através da ruas do Rio de Janeiro, um exemplo que seu filho segue religiosamente em todos
os atos cerimoniais de devoção. Os ministros colocaram-se nas outras extremidades e o
pesado catafalco foi erguido com dificuldade do pedestal onde se achava e levado
para fora da igreja, enquanto o órgão emitia uma cascata de sons, o coro entoava um hino
em altas vozes e a banda militar lá fora atacava uma marcha solene. Duas fileiras de
homens portando tochas formavam um caminho por onde a procissão seguiu até a igreja da
Misericórdia.
Ali o assoalho estava forrado com os mais ricos tapetes, e numerosas senhoras,
festivamente vestidas, se achavam sentadas no chão, à maneira oriental, deixando livre
uma passagem para a procissão, que foi colocar o catafalco num pedestal perto do altar.
Ao depositá-lo ali, os seus pouco resistentes carregadores afrouxaram aparentemente o seu
apoio, deixando o peso recair totalmente sobre o imperador, que o suportou como um Atlas;
sua mão, porém, ficou presa sob o catafalco, ao largá-lo no pedestal. E ficou bastante
esfolada. Quando ele a enrolava num lenço, alguns dos carregadores se aproximaram a fim
de beijar-lhe a mão ferida. Mas, fosse porque o imperador tivesse ficado irritado com a
falta de resistência física de seus ministros, ou com a sua falta de cuidado, o fato é
que ele se desvencilhou deles rudemente e saiu da capela. A multidão pareceu divertir-se
muito com a cena. Os frades que seguravam as velas riram abertamente, e toda a
congregação seguiu o exemplo, até mesmo os moleques. Nenhuma precaução foi tomada
para manter a multidão à distância. Junto do imperador, comprimindo-o de todos os
lados, havia brancos e pretos, homens livres e escravos, ricos e pobres, sem distinção,
o que, certamente, é o que se espera em qualquer ritual religioso. Contudo, a cerimônia
toda foi conduzida com a mesma leviandade com que se realizaria um espetáculo de
marionetes, sem o menor respeito pelo decoro e a solenidade da ocasião.
O dia 19 era considerado uma data muito importante, exceção feita do domingo, o
dia-santo mais respeitado creio eu pela igreja brasileira. Trata-se do dia
de São José, esposo de Maria e pai terreno de Jesus. Todas as repartições públicas
mantiveram-se fechadas, bem como o museu e a biblioteca pública. As pessoas passeavam
pelas ruas em grupos, trajando suas melhores roupas, enquanto espoucavam no ar os
foguetes. À noite celebrou-se uma cerimônia solene na igreja que tem o nome do santo,
bem como em várias outras. Compareci à de São Pedro.
O interior da capela estava profusa e elegantemente iluminado por dezenas de grandes velas
de cera colocadas em reluzentes castiçais de prata; do centro do teto pendia um imenso e
refulgente lustre. Ao redor da capela, guirlandas de rosas e outras belas flores
artificiais pendiam de um castiçal a outro, graciosamente, e as paredes eram recobertas
por brocados de fios de ouro e prata. Toda a arte e o senso estético dos brasileiros
parecem ser dirigidos para as suas capelas, as quais primam por sua bela ornamentação. O
altar era formado por uma pirâmide de velas acesas que chegava até o teto; no topo
situavam-se as imagens de José e Maria, segurando o Menino pela mão. As três figuras
estavam ricamente trajadas. Um padre com uma curta sobrepeliz e uma estola escarlate
entrou de súbito na igreja e, subindo rapidamente para o púlpito, sem fazer nenhuma
oração ou leitura do Evangelho, começou abruptamente o seu sermão, o qual foi ouvido
apenas pela metade da congregação, enquanto a outra metade se divertia com a música e
os foguetes à porta da igreja. O padre olhava para o alto e se dirigia exclusivamente à
imagem de São José, que ele freqüentemente chamava de "o grande patriarca".
A Quinta de Endoenças, ou Quinta-Feira Santa, distingue-se por uma cerimônia realizada
com grande humildade e absoluta regularidade pelo falecido rei e mantida pelo atual
imperador com a mesma devoção com que ele participava das outras, seguindo o exemplo
dado pelo pai. Essa cerimônia consiste na lavagem dos pés de mendigos. No dia anterior,
alguns pobres, escolhidos com esse propósito, eram vestidos decentemente e levados a
diversas igrejas, onde grandes bacias de prata se achavam colocadas nos degraus do altar,
em preparação para a cerimônia. Quando os pobres chegavam, eram colocados em bancos com
assentos em três níveis diferentes. Eles se sentavam no mais alto, descansavam os pés
no do meio e o imperador se ajoelhava no mais baixo e fingia executar esse ato de
humildade. Dom João tinha trazido consigo de Portugal uma magnífica baixela de prata
antiga, que era sempre exibida nessa ocasião.
A Quinta-Feira Santa se distingue também por uma outra cerimônia notável, ou seja, a
consagração e exposição da hóstia. A luz do dia é excluída de todas as igrejas,
cujo interior passa a ser iluminado por velas de cera. A hóstia é então exposta no
altar-mor de todas elas, em meio ao clarão das chamas. Dois homens ficam postados ao lado
do altar, como guardiões, vestindo mantos de seda vermelha ou roxa. Em algumas igrejas vi
a imagem do Senhor Morto num nicho, com a mão exposta. O povo beijava a mão e ao mesmo
tempo depositava dinheiro numa salva de prata colocada ao lado. Nesse é proibido soltar
foguetes e tocar os sinos. Em seu lugar é usada uma tábua de madeira negra, com duas
aldravas presas nas extremidades. A pessoa segurava a tábua por uma alça fixa numa das
pontas e a fazia girar de um lado para o outro; as aldravas batiam de encontro à tábua e
produziam um som contínuo e irritante, que se fazia ouvir durante todo o dia e toda a
noite. Quando indaguei a razão de se utilizar esse instrumento, fui informado de que sua
função era a de substituir os sinos, cujo som, mais alto, poderia perturbar o repouso do
nosso Salvador.
Na noite desse dia é realizada uma passeata geral pela cidade, da qual participa todo o
povo. Trajando suas roupas domingueiras, eles enchem as ruas até o amanhecer. Como há
sempre luar nessa época e o tempo é ameno, todos participam dessa diversão. A ocasião
oferece ainda o atrativo das "amêndoas", ou presentes, distribuídos entre os
amigos e assim chamados porque eram originariamente compostos de amêndoas propriamente
ditas; com o passar do tempo, porém, o nome se generalizou e passou a indicar um presente
de qualquer tipo. Os negros sempre perguntam por sua "amêndoa" em qualquer
ocasião, quando esperam alguma gorjeta. Em nossa terra a Quinta-Feira Santa é chamada de
Maundy Thursday, havendo distribuição de presentes para os pobres. Alguns afirmam
que a palavra maundy deriva de mande, a cesta na qual o presente é enviado;
outros acreditam que vem de mandatum o dia em que é posto em prática o
grande mandamento "Amai-vos uns aos outros". A mim me parece, entretanto, que a
sua origem é a amêndoa. O dia todo vêem-se pessoas levando presentes de uma casa a
outra, cobertos por guardanapos e às vezes até transportados em carruagem. À noite,
porém, eles são apresentados de uma forma mais interessante.
A noite de Quinta-Feira Santa é o momento dedicado às escravas, as quais têm permissão
para confeccionar e vender em seu próprio proveito as amêndoas confeitadas. À porta de
todas as igrejas e nas suas proximidades estabelece-se uma festa, onde elas são vendidas.
Ali as pobre moças, trajando suas melhores roupas e usando seus modestos enfeites, exibem
seus produtos, às vezes dispostos em mesas cobertas com uma toalha, às vezes no chão,
ao lado de velas acesas. Constituem principalmente de amêndoas confeitadas, em cartuchos
de papel ou em cestinhas também de papel, caprichosamente feitas e pintadas, ou então de
figurinhas feitas de açúcar, de diferentes tipos e trajes, recheadas com uma variedade
de guloseimas. Essas figuras são geralmente vendidas por duas patacas, e eu jamais fiz
uma compra com tanto prazer como a que fiz ali naquela "feira santa", tão
humanitariamente criada para promover a indústria das pobres escravas e lhes proporcionar
algum lucro. Trata-se de uma da pequenas e numerosas instituições que põem em
evidência o que há de bom e generoso no caráter dos brasileiros, e quase chegava a
atenuar um pouco os horrores da escravidão ver naquela noite tantos escravos
caprichosamente trajados, tão alegres e aparentemente tão felizes.
A Sexta-Feira da Paixão foi recebida com um solene silêncio. Nem tiros de canhão, nem
bimbalhar de sinos, nem espoucar de foguetes. O único som que ouvimos foi o surdo e
fúnebre troar, de minuto a minuto, do canhão do navio-almirante francês ancorado na
baía em honra do dia. À uma hora fui assistir a uma cerimônia paroquial, em que o corpo
do nosso Salvador foi carregado pelos fiéis ao redor da igreja, acompanhado por música
solene. À noite, porém, é que houve a cerimônia mais imponente da igreja católica.
Foi realizada na igreja da Ordem Terceira, perto do palácio, para onde me dirigi às sete
horas.
A igreja estava quase às escuras e cheia de gente. Uma imensa cortina roxa encobria o
coro. Dentro em pouco um dos padres subiu ao púlpito e começou com muita eloqüência um
sermão sobre a crucificação. Depois de explicar a causa da morte de Cristo, originada
por nossos pecados, e a maneira dolorosa e ignominiosa com que foi levada a efeito, ele
falou de repente: "vejam o Salvador que vocês assassinaram!", e imediatamente a
cortina se abriu, como no início de uma tragédia, deixando ver todas as pessoas que iam
representar o drama religioso. Cortinas pretas ornavam o coro, que estava brilhantemente
iluminado por reluzentes candelabros de prata. Em baixo se achava colocado um suntuoso
mausoléu, onde jazia a imagem de Cristo. De cada lado estavam postadas figuras com longas
barbas, representando os discípulos, todas vestidas ricamente, ainda que de forma
grotesca. À frente se achava um bando de soldados romanos, com capacetes e peitorais
dourados e um estandarte com as letras S P Q R bordados no seu centro, e logo adiante o
centurião, um homem enorme e de aspecto rude, com uma imensa barba negra e um ar tão
feroz que algumas das mulheres escondiam o rosto ao vê-lo.
Formou-se então a procissão, que saiu para a rua. Na frente, iam dois homens levando
enormes castiçais com grossas velas de cera; em seguida, um homem carregando uma cruz de
madeira negra, sobre a qual estava estendido um pano branco formando a letra M; essa
letra, conforme observei, aparecia em todas as coisas e representava o nome de Maria.
Seguiam-se as fileiras habituais dos portadores de tochas, formando um amplo e extenso
corredor, por onde passavam as crianças vestidas de anjo, com asas feitas de penas de
ganso, a barra das vestes armada com arame, as faces pintadas de rouge, os cabelos
empoados, e sobre a cabeça um enorme toucado de seda colorida, o que dava a elas a
aparência irisada de um arco-íris. Todas elas levavam nas mãos algum objeto como
emblema uma, os pregos, outra o martelo, uma terceira a esponja, a quarta a lança,
a quinta a escada, e a última uma criança mais velha do que as outras
trazendo o galo.
Você talvez ignore que os brasileiros possuem um descendente do próprio galo que cantou
quando Pedro negou o seu mestre. Ele me foi mostrado várias vezes. Certa manhã fui
surpreendido por um som extraordinário vindo de um quintal não muito distante da nossa
casa, que identifiquei como sendo o canto de um galo. Tratava-se de uma ave
singularíssima; era muito alto, quase só pernas e coxas encimadas por um corpo diminuto,
e quando espichava o pescoço para cantar ficava tão comprido quanto um grou. Mas era o
seu canto que particularmente o distinguia dos outros, pois ele prolongava a sua nota
final num lamento roufenho e lúgubre, que tinha algo de admoestatório. Um dos nossos
criados brasileiros informou-me que se tratava da mesma raça do galo que cantou para
Pedro e que aquela nota longa e melancólica representava uma advertência e uma censura a
mais a ele, pelo que havia feito.
A procissão foi encerrada com o caixão, precedido de inúmeros figurantes com as
cabeças cobertas com capuzes brancos e negros e acompanhados de apóstolos, soldados e um
centurião; em seguida vinha um grupo de anjos e, por último, a própria Virgem, a qual,
por um anacronismo, apresenta a mesma e jovem aparência que tem na procissão das festas
da Natividade, não se dando eles conta de que trinta e dois anos decorreram entre uma
data e outra, o que deveria trazer alguma modificação ao rosto de uma mulher. Completava
a procissão uma banda executando um hino fúnebre, seguida do regimento com armas em
funeral e os oficiais com braçadeiras negras.
Dessa imponente procissão participavam 800 pessoas, mais da metade levando velas de cera,
as quais percorreram as ruas durante duas horas. Enquanto o desfile prosseguia, uma nuvem
escura se formou sobre suas cabeças, com vívidos relâmpagos e retumbantes trovões, o
que deu ao espetáculo um ar realmente grandioso. Seguiu-se uma chuva torrencial, o que
não impediu que a procissão continuasse sua marcha vagarosa, todos de cabeça
descoberta, como se o céu estivesse límpido e sereno.
A Quaresma foi encerrada com o Sábado de Aleluia, que é também chamado de Dia de Judas,
por causa do saliente papel que ele tem nessa data e da vingança que o povo faz contra
ele. Essas comemorações são geralmente comparadas às realizadas na Inglaterra no Guy
Fawkes Day, mas na realidade não há a menor semelhança entre as duas festas.
Originalmente, a daqui foi concebida como uma cerimônia solene, semelhante às outras
procissões religiosas, mas agora transformou-se em folguedo, servindo de veículo para
todo tipo de sátira. Sem dúvida, constitui uma curiosa e interessante mostra dos
costumes e modo de pensar dos brasileiros.
Ao sairmos de casa por volta da dez horas, vimos que as ruas principais da cidade exibiam
vários bonecos, alguns dependurados nas árvores, outros suspensos na ponta de um pau,
todos em tamanho natural, caprichosamente vestidos e em grande estilo, ora isolados, ora
em grupos, todos ligados uns aos outros e todos com cartazes em verso dizendo o que eles
representavam. As principais figuras eram Judas e o Diabo, havendo uma grande variedade de
dragões e de serpentes, todos recheados de bombas e ligados uns aos outros para
explodirem em série. Na confluência de quatro ruas via-se um gigantesco Satã cercado de
diabinhos, todos voltados para o infortunado Judas, sobre o qual deveriam avançar a um
determinado sinal, arrebatando-o dali entre labaredas de fogo.
Além da figura de Judas, que tinha várias formas e era rodeada por diferentes
emissários do inferno, havia muitas outras, que não tinham nenhuma relação com o seu
castigo e representavam sátiras a pessoas ou situações. Algumas não tinham a menor
ligação com ele; uma delas era dirigida contra as mulheres. Consistia num gato imenso,
de ar muito pudico, com os seguintes versos pregados em sua base, que foram lidos
alegremente por alguns cavalheiros postados a uma janela para algumas damas debruçadas na
janela oposta:
"Serei gato ou serei gata
Serei o que vós quiséreis
Porém sou na arranhadura
Bem semelhante às mulheres."
Outra era dirigida contra os homens. Era a figura de um soldado romano segurando uma
lanterna, com o qual parecia procurar alguém. Embaixo, liam-se os seguintes versos:
"Sou Marcos, vou de lanterna
Sem luz para assim ver bem
Se tu só serás o Judas
Ou se é Judas mais alguém."
Havia algumas sátiras que não eram de caráter geral e sim dirigidas a uma pessoa em
particular. Uma das figuras se achava caprichosamente vestida, aparentando ser um
desembargador ou advogado. Tinha um ar grave e uma aparência bastante plausível, de
terno preto, chapéu de dois bicos e óculos; trazia na mão um livro, que parecia ler
atentamente. A figura se achava colocada bem defronte da casa de um conhecido
desembargador, cuja honestidade deixava muito a desejar, e era uma cópia exata dele.
Embaixo viam-se os seguintes versos, lidos com deleite pelo povo:
"Este Festo grave e sério
Não enculca probidade;
Pois talvez que agora pense
Nalguma perversidade."
Diante da porta de um comerciante inglês havia dois bonecos, extremamente semelhantes a
ele a sua mulher. Tratava-se de duas pessoas sérias, e suas roupas foram caprichosamente
reproduzidas, principalmente a touca da senhora, que era uma cópia perfeita da que ela
usava; ela apareceu à janela, e não se podia negar que a semelhança era
extraordinária. O casal tinha despertado a ira dos brasileiros pelo que me
disseram porque havia protestado contra aquelas manifestações, que classificaram
de idolatria papista, e particularmente porque se recusara a dar qualquer contribuição
para as festas. Que eu saiba, foram os únicos ingleses naquela rua que agiram assim. Os
dizeres junto às figuras, embora muito engraçados, eram intraduzíveis, e a maneira como
elas foram apresentadas era de um humor muito rude para ser descrito.
Estabelecemos nosso posto de observação numa janela da rua Direita, de onde tínhamos
uma vista excelente de toda rua, que passarei a descrever especialmente para você, para
lhe dar uma idéia do que ocorria em toda a sua extensão. A ampla rua era quase toda ela
orlada por fileiras de palmeiras, formando uma aprazível avenida. Os troncos das
palmeiras estavam ligados uns aos outros por cordas recobertas de flores, funcionando como
um cordão de isolamento, por trás do qual o povo ficava postado. Das sacadas também
partiam cordões enfeitados de flores, que iam até as sacadas do lado e se cruzavam no
meio, dos quais pendiam potes pintados, de diferentes feitios e tamanhos e com algo dentro
deles, o que aguçava a curiosidade do povo. Entre um pote e outro via-se uma grande
variedade de bonecos de tipos variados, todos com dizeres e vestidos em grande estilo.
Tudo isso, completado pelo desfile de silenciosos mascarados, compunha um espetáculo
extremamente divertido. Entre os bonecos, Judas era o que se achava colocado em lugar mais
elevado e visível. Estava pendurado num galho de uma alta árvore, vestido com um manto
branco, e mais acima, perdido no meio da ramagem e pronto a saltar sobre eles, estava
Satã.
A cerimônia religiosa do dia começou nas igrejas, e quando chegou à parte em que a
Aleluia começa a ser cantada é dado o aviso na rua por meio de foguetes. Esse é o sinal
para começar a festa. Imediatamente os sinos se põem a tocar, a banda rompe num dobrado
e explode o foguetório.
Primeiro, Satã desce rapidamente do alto da árvore, agarra o corpo de Judas, e logo os
dois são envoltos em chamas, com fogos de artifício de curioso efeito correndo por seus
braços e pernas; por fim, de acordo com o que diziam os versos afixados embaixo, a
barriga de Judas explode, espalhando o seu conteúdo por toda parte; a multidão recolhe
tudo como troféu, enquanto os dois bonecos vão sendo consumidos pelo fogo. A seguir, as
figuras do casal inglês são incendiadas, fazendo macaquices uma para a outra, de uma
forma que não sei descrever, e andando à roda de uma maneira muito curiosa. E assim,
sucessivamente, todos os bonecos pegaram fogo, enquanto faziam evoluções de acordo com a
sua condição, até serem todos reduzidos a cinzas.
O centro da rua foi então evacuado, surgindo em seguida numerosos cavaleiros armados de
lanças, com seus escudeiros. Depois de desfilarem pela arena para baixo e para cima, eles
foram postar-se atrás de uma barreira situada no final da rua. A um sinal, a barreira
caiu e um dos cavaleiros avançou velozmente, de lança em riste, contra um dos potes
suspensos e o partiu ao meio. De dentro dele caiu um leitãozinho, e a multidão avançou
sobre ele; o primeiro que o agarrasse seria o dono. O segundo cavaleiro atacou outro pote,
de onde despencou um macaco; e o povo correu para pegá-lo, mas o macaquinho era ágil
demais e escapou, subindo por um dos cordões e vindo parar em nossa janela. Dessa
maneira, todos os potes foram quebrados sucessivamente, tendo saído deles um grande
lagarto, um gato e uma variedade de coisas. Contudo, um pote permaneceu intacto. Todos os
olhos estavam voltados para ele, mas nenhum dos cavaleiros parecia disposto a atacá-lo.
Finalmente, um mais destemido do que os outros avançou contra ele e... pernas para que te
quero. De dentro do pote saiu uma nuvem de marimbondos que envolveu todos nós e atacou
com fúria todos os que se achavam ao seu alcance. A rua inteira era agora um mar de
lenços brancos ondulantes, todo mundo defendendo o próprio rosto de um punhado desses
ferozes atacantes.
Durante todo o desenrolar do espetáculo a polícia esteve presente, com o Intendente a
cavalo, em uniforme de gala, andando para lá e para cá. Contudo, não houve
aparentemente necessidade de sua interferência. A multidão mostrava-se muito alegre, mas
bem comportada. Ninguém parecia interessado em ofender ninguém na disputa das coisas, a
não ser quando, vez por outra, um pobre negro se extraviava e ia parar no meio da rua;
todo mundo caía então sobre ele impiedosamente, aos tapas e pontapés, como se ele fosse
uma coisa inteiramente indigna de piedade e consideração. Por volta de uma hora da tarde
o espetáculo terminou. A multidão, como de hábito, deu início ao trabalho de destruir
o que havia restado; as árvores foram destroçadas, o que restou dos bonecos foi tomado
como troféu e nas ruas, de ponta a ponta, ficaram espalhados dos destroços da festa.
Esse espetáculo, que é de fato muito divertido e engenhosamente realizado, exerce uma
singular e sempre crescente atração sobre os brasileiros, já que, exceção feita das
procissões e da ópera, que é muito exclusivista, o povo não dispõe de entretenimentos
públicos. Há nos festejos uma vulgaridade de comédia antiga, e o papel representado por
alguns dos bonecos lembrava a cena do arlequim holandês e o moinho de vento, que as damas
do Rio de Janeiro, à semelhança das de Roterdã, viam com grande interesse e prazer. As
ruas rivalizam umas com as outras, na variedade e riqueza da decoração. Quando me
retirei, ainda não havia sido decidido qual levaria a palma, se a rua Direita ou a da
Quitanda. O dinheiro das despesas, obtido através de uma subscrição popular, totalizou
doze contos de réis, dos quais a rua Direita despendeu quatro. Calculando-se os mil-réis
a um dólar como sempre fazem os brasileiros teríamos quase mil libras de
gastos numa rua.
Às quatro da manhã, no Domingo de Páscoa, a cidade foi despertada pelo espoucar dos
foguetes nos céus e os tiros de canhão das fortalezas, que procuravam anunciar pelo
brilho do fogo e o troar da artilharia a boa notícia da ressurreição de Nosso Senhor;
imediatamente após, o Espírito Santo, que Ele prometera enviar, era exibido em
diferentes partes da cidade. A caminho da igreja, às onze horas, vi algumas pessoas
içando-o ao topo de um mastro todo enfeitado de guirlandas e fitas. Tratava-se de uma
barreira vermelha, enfumada como uma vela e ondulando ao vento. No centro, de onde partiam
vários raios, via-se a pomba descendo dos céus. Emblemas semelhantes foram içados no
campo da Aclamação e em outros logradouros públicos. Em sua representação dos eventos
da Sagrada Escritura, o povo não parece preocupar-se muito com a seqüência certa dos
acontecimentos; segundo pude observar, os fatos se antecipavam, muitas vezes, e se
confundiam com os outros.
A partir dessa data até Pentecostes seguiu-se um costume curioso. Um menino, filho de um
comerciante, foi eleito imperador do Espírito Santo. Ele mantinha uma pequena corte,
andava suntuosamente vestido, sendo a casa de seu pai transformada em ponto de reunião do
povo, que para ali acorria a fim de prestar homenagem ao jovem monarca espiritual. É uma
grande honra, mas muito dispendiosa, para os pais do menino, o qual mantém a casa aberta
permanentemente a todos os visitantes e, durante o seu reinado, exerce uma espécie de
autoridade papal, dirigindo os ofícios divinos e sendo consultado pelo clero sobre a hora
em que devem ser realizados.
Na Terça-feira da Páscoa, fazem-se coletas para o Espírito Santo, com procissões
percorrendo a cidade com esse objetivo. São compostas de homens trajando opas vermelhas e
portando bandeiras vermelhas, salvas de prata e sacolas de seda. As bandeiras têm uma
pomba bordada no centro, com raios partindo dela. O portador acena com a bandeira à
medida que caminha, apresentando-se a todos a quem encontra, para que a beije,
principalmente aos negros. Todos que a beijam depositam dinheiro na sacola ou na bandeja.
Às vezes a bandeja é levantada até as janelas, ocasião em que as senhoras a enfeitam
com fitas e outros adereços. Uma banda de música acompanha a procissão, e todos se
mostram muito alegres.
Toda essa série de exibições e espetáculos constituía novidade para mim, e por isso
os descrevi, embora eu saiba que existam coisas similares na Europa. Não obstante, o
efeito primitivamente causado por essas encenações de eventos sacros parece ter-se
apagado inteiramente, pois elas são recebidas pelo povo com uma leviandade quase profana.
Segundo a opinião de alguns, elas acabarão por cair totalmente em desuso, ou por se
degenerarem, transformado-se num espetáculo jocoso, como o de Judas, que a cada ano atrai
um número maior de pessoas. E não há dúvida de que se trate de um espetáculo muito
curioso e divertido.
[1828-1829]
(Walsh, Robert. Notícias do Brasil. p.174) |
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