Março
2002
Ano IV - nº 43 |
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AS
ENCOMENDAÇÕES DAS ALMAS |
Ainda hoje, em algumas localidades do
interior, se realizam as tradicionais encomendações das almas.
Altas horas da noite, no dia de Sexta-Feira da Paixão, os penitentes se juntam em grupos,
atendendo ao triste chamado da matraca. Envoltos em alvíssimos lençóis fazem
peregrinações aos lugares tristes e solitários, terminando com uma romaria ao
cemitério local.
Para fazer a encomendação no cemitério, destacam um penitente de voz cheia e forte, que
fica à distância, entre as cruzes das sepulturas. De lá, o tirador começa a
encomendação:
- Um Padre-Nosso com uma Ave Maria... Em tenção das almas do purgatório...
O grupo distante responde num coro triste e compassado:
- Seja... tudo... pelo amor de Deus,
Amor de Deus,... êus.. êus...
O solista continua:
- Dois Padre-Nossos com duas Ave Marias...
E assim por diante: três, quatro, cinco, até completar o número de Padre-Nossos
convencionado.
Às vezes a procissão termina em correrias e atropelos, num verdadeiro "estouro da
boiada". É quando o penitente solitário se assombra, lá entre as sepulturas, por
deparar com um outro penitente isolado, ou outro grupo desconhecido. O medo se propaga o
pânico toma proporções enormes.
É assunto para os comentários de um mês inteiro.
As mulheres não tomam parte nestas romarias. E ai daquela que se atrever a sair de casa
ou abrir a porta na hora da procissão! Será castigada severamente pelos disciplinadores,
penitentes que agem isoladamente, dilacerando o próprio corpo, com um jogo de lâminas
atado a um cordel.
Tobias Barreto, descrevendo a cena, dizia: - "Eram centenas de idiotas religiosos,
imoralmente envoltos em alvas saias femininas, com os rostos cobertos e as costas nuas,
sobre as quais vibravam as disciplinas à esquerda e à direita, no mesmo ritmo em que os
cavalos açoitam com as caudas, incômodas mutucas".
"Mais de um velho acordava sobressaltado e muita criança despertava chorando. Não
havia meio de respirar-se mais livremente, abrindo unia porta ou janela; pois corria a
tradição que quem isso praticava só via um rebanho de ovelhas (eram as almas) e logo
após um frade sem cabeça, que dava uma vela de cera para guardar ao curioso observador,
o qual procurando-a de manhã não a encontrava..." (Estudos alemães).
Era assim ao tempo em que Tobias Barreto, menino, vivia na então Vila dos Campos. Ainda
hoje, em terras de Sergipe, realizam-se as plangentes encomendações das almas.
[1967]
(Deda, Carvalho. Brefaias e burundangas do folclore sergipano)
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