Março
2002
Ano IV - nº 43 |
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SÃO JOSÉ: O
PATRIARCA DO CÉU |
São José, cuja festa é celebrada a 19 de
março, é filho de Jacó, da família de Davi.
Por sua bondade e modéstia, foi escolhido por Deus para ser o pai adotivo de Jesus, filho
de Deus feito homem.
Carpinteiro de profissão, São José, segundo conta o Evangelho, preferiu calar a dúvida
sobre a concepção de Maria, quando, em sonhos, um anjo lhe veio dizer que aquele que ia
nascer era o filho de Deus, devendo chamar-se Jesus, e seria o Redentor da Humanidade.
E, para fazer cessar a desconfiança, resolveu tirar a prova, que a tradição popular
repete com foros de veracidade, na propalada lenda dos lírios de São José.
Os mais velhos, que já a tinham ouvido dos maiores, contam que São José aceitou o
conselho do anjo do céu.
Deixou à porta, ao relento, seu cajado velho e seco, ficando em vigília até o raiar do
dia.
Mal surgiram os primeiros albores da madrugada, foi, pressuroso, rever o cajado. Milagre!
O sinal inconteste da pureza de Maria lá estava. Do velho cajado seco reverdeciam folhas
e floriam lírios de brancura imaculada, tal como era imaculada a que ia ser a Mãe do
Redentor.
Essa é versão carioca da lenda dos lírios de São José, que desde aquela época vem
percorrendo o mundo cristão.
O tema não é inédito, ao contrário, é até empregado para glorificar os mártires da
Igreja.
O cajado de São José. O bordão de Moisés, que fez brotar água da rocha, o bastão de
Aarão e tantos outros exemplos representam a força, o poder, a condição que se adquire
na magia mística, perfume suave e alentar a alma humana.
A tradição apresenta-nos São José com um sereno velhinho, pai dedicado de Jesus, um
dos esteios do triângulo que forma a Sagrada Família, o Patriarca do Céu.
Por toda a nossa terra são incontáveis os padroados de paróquia com a invocação do
Patriarca, e rara é a igreja que não possua a imagem do santo em vulto ou figura.
Ele é padroeiro dos bem-casados, o lenitivo dos agonizantes, e tão forte é a confiança
no esposo de Maria, que é comuníssimo entre nós o nome de José, que se transforma em
Zé, Zezé, Zequinha, Juca, Juquinha, Cazuza, etc.
A igreja de São José, no Rio de Janeiro, tem uma história agitada.
A primitiva capelinha foi instituída graças a um legado de um tal João Ribeiro Correia,
e ficava em frente à Cadeia, no quarteirão entre as ruas de São José e, hoje, da
Assembléia.
Chamava-se aquele local "frente à Cadeia", existindo ao lado da igreja um
oratório onde eram celebradas missas em favor dos presos.
Só a tradição oral é que fixou algo sobre a construção do templo, porque os
documentos sobre a fundação da igreja desapareceram na época da invasão Duguay-Trouin
no Rio de Janeiro.
No entanto, afirmava-se que "a ermida havia sido fundada em 1608, pelos ascendentes
do capitão Francisco Barreto de Faria, fazendeiro e vereador da Câmara" (conhecido
por Bracosoca), cujo nome figura na Memória Sobre as Aldeias dos Índios, de
Norberto Joaquim.
Desde 1718 que a irmandade se vê a braços com demandas e discussões.
Pároco e irmandade sempre andaram às turras.
Antes do carrilhão de São José, conhecido em toda a cidade pela perfeição com que o
sineiro executava vastíssimo repertório musical, desde óperas, passando pelo Hino
Nacional, até o Vem cá Bitu, havia uns velhos sinos de bronze muito fino, que se
tornaram conhecidos na cidade pela função de alertar o povo para a saída de "Nosso
Pai" (viático), para os incêndios, partos, enterros, etc., mas, por causa de
tétricas histórias que foram criadas pela antipatia que despertava o som esganiçado de
suas badaladas, sofreram a sátira popular.
O carioca, que sempre foi um grande gaiato, imitava o soar estridente desses sinos
cantando:
O teu nariz tem pílulas,
Tem pílulas,
Tem pílulas...
O pior, porém, foi a assombração do contrabandista.
Naquele tempo remoto, era hábito enterrar dinheiro na terra dos quintais, então o banco
mais seguro que havia.
Dizia-se que um contrabandista riquíssimo assim fizera e morrera sem tempo de revelar o
esconderijo da fortuna.
Como residisse nas proximidades da igreja, passaram a atribuir à alma do contrabandista
umas aparições que se davam por noite alta, quando o pároco, sacristão, sineiro não
estavam na igreja, que permanecia perfeitamente fechada.
A assombração das torres da igreja fazia vibrar aterradoras badaladas.
A verdade soube-se um dia.
Um gaiato farmacêutico que morava na rua da Misericórdia, habilíssimo atirador,
resolveu tornar os sinos alvos de experiência de pontaria. Mal fechava a farmácia
(depois da dez horas da noite), com um bodoque, ia atirando pedras nos sinos, provocando
sonoridades semelhantes ao tanger dos badalos.
Muito se divertiu o farmacêutico com a ingenuidade do povo.
No entanto, parece que o fantástico está sempre disposto a envolver a igreja de São
José.
Há poucos anos, espalharam na cidade que, quem quisesse obter graças, era ir rezar
atrás do altar de São José, com a condição de não contar o que vira.
Muita gente ia, saindo apavorada, a tremer, chorando e, quando muito inquirida, só
respondia: - Uma coisa horrível!
Fomos verificar. Apenas isto: um ambiente lúgubre, mal iluminado, e uma imagem tétrica,
mas muito expressiva, do transe final de São José. A cena, era evidente, fora feita para
impressionar os ingênuos.
Demandas, brigas entre a irmandade e o pároco têm feito com que ainda por muito tempo a
igreja fique interditada, sem que os ofícios religiosos possam ser realizados.
Para os lados da Esplanada do Castelo, lá está a igreja de São José, que a
imaginação infantil vê através do acalanto que a faz adormecer:
Nossa Senhora lavava,
São José estendia,
O menino chorava
Do frio que fazia.
E a vovozinha carioca relembra a trova de outros tempos:
Ó São José, bom velhinho,
Querido esposo de Maria,
Protegei vossos devotos,
Como, do Brasil, a família.
[1956]
(Lira, Mariza. Calendário folclórico do Distrito Federal) |
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