Março
2002
Ano IV - nº 43 |
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MAIONESE, UM
POEMA DE MARTINS FONTES |
- No dia do batismo do -
Político, cachorro de Emílio de Menezes, assim denominado porque nasceu com a cara preta
de um lado e branca do outro, isto é com duas caras, animal de raça, filho da cadela
Diana, pertencente ao doutor Simões Corrêa - houve, em casa do Emílio, um estrondoso
concurso culinário. Emílio cozinhava primorosamente e vivia em quizílias constantes com
Martins Fontes, que se dava também a pretensões vatélica...
O Parnasiano do Forno, o Simbolista do Fogão considerava Martins Fontes apenas um lírico
do trivial...
Trocaram, inúmeras vezes, ironias rimadas sobre essa mania.
Todos da roda literária se lembram dessas diatribes.
Para, de vez, acabar com essa rivalidade, a roda resolveu a realização de um concurso.
Nesse concurso, entre mil pistolões em favor de Emílio, apareceu uma carta em verso do
Irmão da Opa Joaquim Pau Rosa... Esse almoço deliciosíssimo terminou no Posto Policial
de Catumbi...
O padre Severiano de Resende, ao batizar o - Político, fez tantas maluquices que a
vizinhança interveio...
Foi para esse ágape que Martins Fontes, vitorioso, ronsardinizou esta receita da sua
celébre
MAIONESE
- Batam-se gemas de uns ovos
Mas bem novos,
E, pouco, a pouco, se deite
Um finíssimo óleo-doce,
Qual se fosse
Ouro fluido, em vez de azeite
Quando o molho estiver feito,
E perfeito,
Para não cortá-lo, então,
Vinagre não se suponha
Que se ponha,
Porém sumo de limão
Depois disto não se deixe
De um bom peixe
Mergulhar nesse ouro em masa
E o sal botar na mistura,
Com finura
Porque o sal é a própria graça
Neste conjunto homogêneo,
Sempre o Gênio
Do Artista é o que mais convém,
Porque, sem muito talento,
Este invento
Não dá sabor a ninguém
A maior vaidade minha
É a Cozinha,
Na qual tenho dado provas,
E no Emílio de Menezes,
Muitas vezes,
Preguei sovas sobre sovas
O caso alegre e faceto
Do soneto
Apliquemos, a rigor:
É indispensável no meio
Do recheio
Que haja o espírito do autor
O arranjo, nem se discute,
No quitute,
Tem altíssima importância,
Porque o puro, o verdadeiro
Cozinheiro
É um doutor em Astromancia
Vereis no que ora ofereço,
De alto preço,
Um hino em louvor ao sol
Cuja luz brilha desfeita,
Liquefeita,
Em flavo azeite Plagniol
Para chegar à Mestria,
Da iguaria,
Levei horas a estudá-la,
Idealizando este adorno
Junto ao forno
Ou passeando pela sala
Quis eu, nobre Cozinheiro
O Cruzeiro
Mostrar, sobre o nosso azul
Em rutilâncias supremas!
E, com gemas,
Imitei a Cruz do Sul!
De temperos, de perfumes
De legumes,
Fiz que o prato se cercasse
E o Brasil, em miniatura,
Refulgura
Dentre verdores de alface
Comei o Brasil, senhores
Julgadores,
Com fome de canguçu
Como qualquer deputado,
Insaciado,
Come um boi inteiro e cru
Comei-o, amigos, comei-o,
Sem receio
De perigos, ou de danos,
Com o famélico apetite,
Sem limite,
Dos grandes republicanos...
O Emílio, poeta sublime,
Mal reprime
o medo verde em que está
Estrebucha, bufa e rufa,
E se entrufa,
Apicius do Paraná
Por mais que ele se magoe,
Não perdoe,
Será vencido na liça
E embora o plecaro júri
O depure,
Nós lhe fazemos justiça
Sim, Emílio tem talento,
E a contento,
O macarrão não faz mal
Mas sua torta de nozes
Várias vozes,
Dizem que é medicinal...
Nosso Emílio o trivialismo,
Do lirismo,
Não pratica nem tempera,
E, no seu orgulho insano,
Parnasiano,
De Fogão se considera
Mas quanto à verdade pese,
Maionese,
Ninguém faz só porque quer...
Ou se nasce tendo a bossa,
Como a nossa,
Ou não se meta a colher...
Bem sei que jamais se excede
Ao Rouède
Num arroz à valenciana!
Nem ao Mestre Patrocínio
No domínio
Da moquecada à baiana!
Ao nobre júri, insuspeito,
Me sujeito
Para, no final, se ver
Quem tem garrafas vazias,
Ninharias,
Para na praça as vender
Quem vitórias apregoa,
Quem tem proa,
Quem despreza os seus colegas,
Bem merece a forte tunda,
Furibunda,
Que lhe vai pregar o degas
Das tais garrafas o Guima,
Que as estima,
Jura que quem as vendeu,
É porque da coisa entende,
E se as vende,
Na certa, é porque as bebeu
Basta de trelas, parábolas
Ora bolas!
E vamos, sem mais discurso,
Às provas indiscutíveis,
Infalíveis,
Deste famoso Concurso!
Rio de Janeiro, 18 de março de 1901
(Em Correia, Leôncio. A boêmia do meu tempo. p.131-136) |
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