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Março 2002
Ano IV - nº 43

DE COMO OS SELVAGENS PRATICAM A AGRICULTURA E FAZEM PLANTAÇÕES DA RAIZ DE MANDIOCA. DE UMA ÁRVORE CHAMADA "PENO-AÇU".

Em tempo de paz, os americanos quase não se dedicam a nenhuma outra atividade que não as agrícolas, até que chegue a ocasião em que se vejam obrigados a partir para a guerra. É verdade que eles se dedicam eventualmente ao comércio de trocas, como já o dissemos: todavia, a necessidade faz com que todos sejam obrigados a trabalhar a terra para viver, assim como o fazemos nós outros. Com este procedimento, praticamente repetem o costume dos antigos, que no início viveram dos frutos que a terra produzia, sem intervenção do homem. Depois, quando estes frutos foram-se tornando insuficientes para alimentar todas as pessoas, começaram a praticar roubos e invasões, apropriando-se de determinados tratos de terra e separando-os por meio de marcos e limites. Desde então começaram entre os homens os governos populares e as repúblicas.

De modo semelhante, aprenderam os selvagens a lavrar a terra, mas sem utilizarem, como nós, bois ou quaisquer outros animais domésticos, inclusive lanígeros, visto que os desconhecem completamente, mas dependendo apenas do suor e do esforço dos seus corpos, à semelhança do que se vê em determinados lugares do mundo. Entretanto, suas plantações são bem pouco consideráveis, não passando de algumas roças localizadas a cerca de duas ou três léguas da aldeia. Além de uma espécie de milho – que é o único cereal que têm – plantam também certas raízes. Fazem duas colheitas por ano: uma, na época do Natal, e seu verão, quando o sol está na altura de Capricórnio; outra, por ocasião da festa de Pentecostes. Este seu milho é de grãos brancos e pretos, do tamanho de ervilhas. A planta é alta, lembrando os caniços marinhos.

É assim que preparam suas terras de cultivo: primeiramente, cortam sete ou oito jugadas de mato, deixando em pé apenas as árvores mais altas que um homem. Depois ateiam fogo nos troncos e ervas, roçando e limpando todo o terreno. Em seguida sulcam a terra com certos instrumentos de madeira (ou de ferro, depois que tiveram conhecimento destes). Em seguida, as mulheres plantam o milho indígena e cestas raízes chamadas etique, escavando com os dedos uma cova, como se usa entre nós quando plantamos ervilhas e favas. Adubar e corrigir os terrenos são práticas que desconhecem, de vez que suas terras são férteis e não estão esgotadas como as nossas. No entanto, é espantoso o fato de não medrar o trigo neste solo. Tentei eu próprio semeá-lo (pois tínhamos levado sementes conosco), mas as plantas não vingaram. Presumo que a causa não se relacione com um possível defeito da terra, mas que se deva a algum bichinho que coma os grãos enterrados. Os que ficaram por lá poderão com o tempo certificar-se da verdade. Quanto ao fato de não terem os selvagens conhecimento do trigo, é coisa que nada tem de incrível, pois mesmo na Europa e em outras partes do mundo populações primitivas viviam dos frutos que a própria terra produzia sem ser cultivada. É verdade que a agricultura é bem antiga, como se lê nas Escrituras; porém, ainda que o trigo porventura fosse conhecido desde os primeiros tempos, certamente não se saberia de que modo a planta poderia ser utilizada. Diodoro escreve que o primeiro pão que se viu na Itália foi para lá levado por Ísis, rainha do Egito. Foi ela quem ensinou a moer o trigo e assar o pão.

Antigamente, por conseguinte, só se comiam os frutos da terra, fosse ela cultivada ou não. Ora, que os homens universalmente e em toda a Terra tenham vivido como animais selvagens, é antes uma idéia fantástica do que uma verdade histórica. Só mesmo os poetas é que têm tais idéias, no que são seguidos por aqueles que os imitam. Virgílio expõe esta teoria na primeira de suas Geórgicas, mas eu prefiro acreditar nas Escrituras Sagradas, onde se mencionam os trabalhos agrícolas de Abel e as oferendas que ele fazia a Deus.

Portanto, ainda hoje os selvagens fabricam a farinha dessas raízes conhecidas entre nós pelo nome de mandioca, que têm a grossura de um braço e um pé e meio ou dois de comprimento, sendo geralmente tortuosas e oblíquas. Dessas raízes nasce um pequeno arbusto que cresce até cerca de 4 ou 5 pés acima do solo, e cujas folhas, em número de seis ou sete, são quase idênticas às da planta que denominamos pataleonis, conforme demostramos na gravura que delas fizemos. Cada folha fica na extremidade de um ramo e mede meio pé de comprimento por três dedos de largura.

O modo de fazer a farinha é o seguinte: Pilam-se ou raspam-se as raízes secas ou tenras com uma grossa casca de árvore toda engastada de pedrinhas bem duras (do mesmo modo como se faz por aqui com a noz-moscada). Depois, a massa é misturada à água e levada ao fogo numa vasilha, mexendo-se bem esta papa até que se formem pequenos caroços de farinha, semelhantes aos do maná granulado. Esta farinha, além do ótimo sabor que apresenta enquanto é nova, constitui também um excelente alimento. E note-se que ela é encontrada no Peru, no Canadá, na Flórida, em toda a terra situada entre o Oceano e o Mar de Magalhães, ou seja, na América, na terra dos Canibais e até mesmo nas imediações do Estreito de Magalhães, sendo seu uso bastante difundido, conquanto de um extremo ao outro medeie uma distância superior a duas mil léguas de terra. Usam-na os selvagens como acompanhamento de carnes ou de peixes, assim como nós usamos o pão.

É muito estranho o modo pelo qual os selvagens comem a farinha, pois jamais levam a mão à boca, sim arremessam, com os dedos, punhados de farinha de uma distância de pé ou mais, no que são extraordinariamente hábeis. Por isso, riem-se dos cristãos pelo fato de comerem de modo diferente.

Todo o processo de plantio, colheita e preparo das raízes é deixado às mulheres pois os homens consideram tal ocupação indigna deles.

Os americanos plantam também umas favas inteiramente brancas e bastante achatadas, mais largas e compridas que as nossas. São também ali muito abundantes umas pequenas vagens brancas, em nada diferentes das que se vêem na Turquia e na Itália. Comem-nas depois de cozinhá-las em água e sal. Para a obtenção do sal, fervem a água do mar até que seu volume se reduza à metade, empregando depois um determinado processo para separá-lo. Utilizam-no ainda misturado a uma certa pimenta moída para fazer uma espécie de pão do tamanho de uma cabeça de homem, que muitos gostam de comer com carne ou com peixe, sobretudo as mulheres. Além disto, às vezes misturam a pimenta à farinha antes de esta ser pulverizada, ou seja, logo que acabou de cozinhar. E fazem também farinha de peixe seco, ótima de se comer acompanhada de certa mistura que só eles sabem fazer.

Não posso esquecer-me de uma espécie de couve que lembra bastante a planta aquática que se chama nenúfar. E também uma outra planta cujas folhas são assim como as da sarça, crescendo de modo absolutamente idêntico ao dos espinheiros grandes.

Resta-nos falar de uma árvore que eles denominam penô-açu. Seus frutos, redondos como pelas, são do tamanho de maçãs grandes. Se ou não gostosos, pouco importa, já que possuem um veneno muito perigoso. Dentro dele há seis coquinhos parecendo amêndoas, mas um pouco mais largos e achatados que estas. No interior de cada um há um carocinho que, segundo afirmam os selvagens, é maravilhosamente indicado para curar chagas. De fato, usam-no quando sofrem ferimentos, especialmente das flechadas que recebem em guerra. Quando voltei trouxe comigo certa quantidade destes frutos e distribuí-os entre amigos. Os selvagens aplicam nas partes ofendidas o óleo avermelhado que se obtém esmagando-se os caroços.

A casca desta árvore tem um cheiro muito estranho, e suas folhas, sempre verdes, têm a espessura de uma moeda de tostão e são parecidas com as da beldroega. Pousa muito freqüentemente em sua copa um pássaro do tamanho de um picanço, tendo na cabeça um longo penacho amarelo como ouro fino. Sua cauda é negra; o resto do corpo, amarelo e negro, aparecendo umas faixinhas onduladas de várias cores. Em volta dos olhos é vermelho; entre o bico e os olhos, escarlate. E, como dissemos, é muito comum ver-se este pássaro pousado no penô-açu. A causa é que ele se alimenta dos bichinhos que vivem em seu tronco. Aqui apresentamos uma gravura desta ave, podendo-se ali ver o grande comprimento que tem seu penacho.

De resto, deixando de lado diversas espécies de árvores e arbustos para resumir o assunto, direi apenas que lá existem cinco ou seis tipos de palmeiras. Seus frutos desconhecidos dos europeus, em nada se parecem com as tâmaras do Egito, sendo bem diferentes destas. Alguns são grandes como pelas, outros são enormes. Entre essas palmeiras, as mais comuns são a jeraivá e a que se chama iri. Seus frutos são diferentes. Há ainda uma cujo fruto é inteiramente redondo e lembra, quando maduro, uma ameixa, tanto no tamanho quanto na cor. Quanto ao gosto, porém, lembra mais o de uvas recém-colhidas. Os selvagens comem seu caroço, que é inteiramente branco e tem o tamanho de uma avelã.

Eis o que tínhamos a dizer acerca da América, de modo bem sumário, após termos observado as coisas mais singulares que esta terra apresenta. Talvez ainda voltemos a tratar mais pormenorizadamente de outras numerosas árvores, arbustos, ervas, etc, citando também suas propriedades que os nativos descobriram às custas da experiência. Por ora deixamos de fazê-lo para evitar de sermos prolixos.


(THEVET, André. As singularidades da França Antártica)

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