Ir para a página principalvimei.gif (3243 bytes)Retornar para Cancioneiro

Março 2002
Ano IV - nº 43

TROVAS DE GENTE-POVO
(Informante: Dalmácia Ferreira Nunes)

Abacate é fruta boa
Enquanto não apodrece.
O amor é muito bom
Enquanto não aborrece...

A carta que me mandaste
Eu mesmo não pude lê.
Mandei pra casa calhada
Onde estava a letra guê.

Ai, morena, não fui eu
Que dormi na tua cama.
Papagaio come milho,
Periquito leva a fama...

Alecrim da beira d’água
Cresce o pé, estende a rama.
Isso é tolícia minha
Amar a quem não me ama.

A lua anda e desanda,
Balança como cipó.
Eu não ando nem desando,
Sou firme num amor só.

A lua deu dois balanços,
Segurou-se, não caiu.
Abalançando se veja
Quem de meu peito saiu...

A preguiça mais o sono
É caso de não ter nada:
A preguiça diz: dormi!
O sono não faz mais nada.

As moças de Muribeca
São piabas da lagoa,
Pula aqui, pula acolá,
Nunca arranjam coisa boa...

Atirei com o lenço branco
Nos ares virou dois ss.
Você de mim não se lembra.
Eu de você não me esquece.

Bateu o sol na vidraça
E a lua sem tocar nela.
Foi como a Virgem Maria:
Foi mãe e ficou donzela.

Caí no mei’ de dois cravos,
Não sei em qual é que pegue:
Se pegue no roxo triste,
Ou no encarnado alegre.

Coração que ama a dois
Não pode viver contente:
‘Stá conversando com um,
Chega o outro de repente...

Coração que fostes meu,
Não falai mais amoroso.
Não fui eu que tive a culpa
De vós andares penoso...

De correr venho cansada,
De cansada me assentei.
Achei o que procurava,
Agora descansarei

A candeia estava acesa,
De repente se apagou.
Perguntas a Mana Rosa
Por que razão me deixou.

Adeus, minha sempre viva,
Até quando nos veremos.
As pedras do mar se encontram
Assim nós também seremos.

Ajuda, Simão, ajuda,
Com esta cruz tão pesada.
Quem trabalha em vosso dia
De mim não é ajudada.

Amar a quem não me ama
Não é amar, é cegueira.
Querer bem a quem me quer
É justiça verdadeira.

A lua anda e desanda,
No meio faz um compasso.
Inda pretendo fazer
Travesseiro de teus braço.

A Paraíba do Norte
Está cheia de monte a monte
Meu Deus, como é que passo
Na Paraíba sem ponte?

Arubu diz, quando chove:
Quero casa, quero casa!
Depois, quando a chuva passa:
Pra que casa? Pra que casa?

Atirei com o limão doce
Na menina da janela.
Ela me chamou de doido,
Doidinho estava eu por ela...

A você não hei de amar,
A você não hei de não.
A pedra de mim não cone,
Você corre sem razao...

Cabeça inchada é doença,
Fazer remédio é loucura.
Cabeça inchada é amor
Que o mesmo amor é quem cura.

Cigarrinho de papel
Fumo verde não fumega.
Onde tem moça bonita
Meu coração não sossega...

Coração que ama a um,
Que a dois quer agradar,
O que vai acontecer
É um sem outro ficar...

Debaixo da malva roxa
Tenho um segredo escondido.
Todos dizem que eu namoro,
Ninguém sabe o meu sentido...

De joelho caí nágua,
De joelho fui ao fundo;
De joelho ando penando
Por vós, meu bem, neste mundo.

De manhã almoço áis,
Fazendo as veis de café;
Ao meio dia suspiro.
Paixão de amor o que é...

De que me serve eu ter glória
Se tenho a vida emprestada?
Que no fim da minha vida
Fiquei sem glória e sem nada?

Deus te salve, Lua Nova,
Lua de São Quelemente!
Quando for, quando voltar,
Trazei-me deste presente!

Despede-se o amor velho
Pelos novos que vão vindo.
Os novos é que vão embora,
Os velhos ficam servindo...

Despedida, despedida,
Despedida rigorosa,
Quando desaparta um cravo
Do pé da rosa...

Dos peixes que têm no mar,
Só a sarda dá cardume.
Quero que você me diga
Que coisa será ciúme...

Duas coisas neste mundo
O meu coração não quer:
É piolho de galinha
E ciúme de mulher...

Esta noite eu não dormi,
Meus olhos não viram sono,
Somente pro imaginar
Que meu bem tem outro dono.

Estes áis, estes suspiros,
Estes áis me aliviô.
Quem me dera estar agora
Onde estes áis já chegô...

Eu caí num poço fundo,
Letra G me deu a mão.
Deus ajude a letra G
Que me deu a salvação.

Eu fui amada e querida
Até das flores do campo.
Hoje me vejo desprezada
De quem me queria tanto...

Eu não posso mais cantar
Como dantes já cantei.
Bebi água dos teus olhos,
Até o cantar mudei...

Eu não tenho outro amor,
Que meu amor é você.
Quem ama tão lindo cravo,
Amar outro, para que?

Eu plantei o roxo n’água,
O amarelo na areia.
O amor destes meus olhos
Nessa terra não passeia...

Eu queria mas não posso
Fazer o dia maior,
Dar um nó na fita verde,
Prender o raio do sol.

Dentro do meu peito eu tenho
Um cantinho separado.
Nem eu dou, nem eu prometo,
Só pra vós tenho guardado.

Deus te salve, Lua Nova,
Lua de boa ventura!
Que me cresça o meu cabelo,
Que me bata na cintura.

Deus te salve, Lua Nova,
Lua de São Quelemente!
Quando fores e voltares,
Livrai-me de dor de dente...

Do pé do cravo, a rosa
Desaparta muito bem,
Pois a rosa tem espinho
E o pé de cravo não tem...

Esperança belatosa
Nunca tivera bom fim.
Vale mais uma esperança
Do que uma esperança assim...

Esta noite tive um sonho
Contigo, minha beleza.
Acordei. Achei-me só:
No sonho não há firmeza...

Estrelas do céu brilhante
São retalhos do amor.
Dai saúde aos meus males,
De que foste o causador.

Eu comparo a minha sorte
Com a sorte do bem-te-vi:
Está vendo castigo em cima,
Está gritando: deixa vi!

Eu fui aprender a ler
Na casca da melancia.
De bom gosto me ensinaram
Querer bem eu não sabia.

Eu não quero amor da roça
Porque fede a massa crua.
Eu quero amor da cidade
Que sabe pisar na rua.

Eu não quero santo alheio
Dentro do meu oratório.
Eu só quero meu santinho
Pra fazer meu peditório...

Eu perguntei à Fortuna
De que é que eu viveria.
Ela foi me respondeu
Que o tempo me ensinaria.

Eu plantei um pé de cravo
Na janela de meu bem.
Todo mundo passa e cheira,
Eu não sei que cheiro tem...

Eu queria ser a seda
Daquelas que vêm da França,
Tomar amores contigo
Pra tirar tua chibança...

Eu queria ser colchete
Para andar encolchetado,
Apertar sua cintura,
Corpo fino delicado!

Eu venho do mar, eu venho
Corrido da tempestade.
Melancia, Coco mole
Lhe mandou muitos recados.

Fui passando pela rua,
Topei sereia cantando.
Sereia quando me viu
Deu as costas, foi virando...

Hei de fazer minha casa
Da madeira do Convento.
Quero ver que boto nela
O Divino Sacramento.

Joguei o encarnado n’água,
Sem demora foi ao fundo.
Pensei que perdi a vida,
Tive o engano do mundo.

Logo que a lua sair,
Vou-me assentar na porta.
Quero ver a laranjeira
Quantas laranjinhas bota...

Me deixaste por doente,
Por doente não se espera.
Como eu tinha fé em Deus,
Voltei ao mesmo que era.

Me meti dentro da lima,
Dos caroços fiz encosto.
Se eu te amo, porque quero,
Se eu te venero é meu gosto.

Menina, não vivas triste,
Que paixão de amor não mata.
Vivei alegre e contente,
Que Deus promete e não falta.

Menina, quem foi que disse
Que eu dormindo suspirava?
Quem te disse não mentiu,
Apenas suspiro eu dava...

Menino, se tu soubesses
O bem com qu’eu te adoro,
Fazia dos braços remo,
Remavas pra onde eu moro.

Meu coração se trancou-se,
A chave está em Lisboa.
Eu não amo a outra gente
Senão a vossa pessoa.

Minha arupembinha d’ouro,
Meu alecrim peneirado,
Se vós tendes outro amor
Não me tragais enganado!

Minha cravelina branca,
Como estais tão derreada!
- Foi o vento desta noite,
Sereno da madrugada...

Eu subi no pé de jambo,
Não pude abalanciar.
‘stava com meu bem nos braços
Não soube me aproveitar...

Fui passando pela rua,
Santo Antônio me chamou.
Quando o santo chama a gente,
Quanto mais os pecadô...

Galantes como meu bem
Não há nesta redondeza.
Quem é galante prochiada (sic)
E firme por natureza...

Já fui amada e querida
Até das flores do campo.
Hoje me vejo desprezada
De quem eu queria tanto...

Lá vem a lua saindo
Pelo um canudo de prata,
Vem matando, vem ferindo,
Só não mata aquela ingrata...

Me botei de lá tão longe,
Com uma vela benta acesa.
No mar não achei fundura,
Nem, no teu peito, firmeza...

Me dizei de que estais triste,
Quero entristecer também.
Qu’eu não gosto de ver triste,
Coisinha a quem quero bem...

Menina, eu do teu nome
Não me esqueço um só instante:
Vivo dormindo sonhando
Com o teu rico sembrante.

Menina, pesai a honra,
Com u’a balança de ouro:
Quem tem honra tem dinheiro.
Para que maior tesouro?

Menina qu’estais na roda,
Não façais tanta mudança;
O seu pai não tem dinheiro
Pra pagar sua chibança...

Meu amor mora tão longe,
Sete léguas de caminho.
Eu quero amor de perto
Que embebeda como vinho...

Me zelai-me, amor, zelai-me,
Me zelai como eu te zelo;
Me zelai dentro do peito,
Vereis o bem que eu te quero...

Eu não tenho outro amor,
Que meu amor é você.
Quem ama tão lindo cravo,
Amar outros, para que?...

Minha mãe, minha mãezinha,
Me bote a sua bênção,
Qu’eu me vou de barra afora,
Não sei de mim que farão.

Minha mãe está me chamando,
Fala com ela qu’eu já vou;
Estou panhando água no poço
Que agora é que limpou.

Minha menina bonita,
Vamos jogar douradinha:
Se eu perder, você me ganha,
Ganhando, você é minha...

Não é por morares longe
Qu’eu de vós hei de esquecer.
Quanto mais longe ‘stiveres
Mais firme vos hei de ser.

Não há machado que corte
A raiz do bem-querer.
Se corta, torna a brotar;
Arranca, torna a nascer.

Não posso comer sem sal,
Nem galinha sem limão.
Não posso tirar a dor
Que tenho no coração...

No campo da Enternidade,
Onde espero a solidão,
Eu vi plantar a saudade,
A flor da consolação.

No pé de vossa janela,
Mandei formar um assento,
Para conversar de noite;
De dia não tenho tempo.

O amarelo é desprezo,
Vós sois quem me desprezais.
Amais a quem não te ama,
A quem te ama, deixais.:.

O amor enquanto é novo
E doce, é açuca, é mel.
Quando vai ficando velho
Amarga, maruja e fel...

O carvão é noite escura,
Hortelã - amor fiel.
Arvre de Santa Maria
Pode vir quando quiser.

Olhos d’azeitona parda,
Bem conheço o teu olhar.
Podeis viver na certeza
Que a outro não hei de amar.

Ó mar, ô mar, ô mareta,
Ó mar de tanta saudade!
Levaste meus olhos ontem
Tão contra a minha vontade...

Ó minha senhora minha,
Eu de você não falei.
Se no mundo houvesse engano
Eu fui esse que m’enganei.

Ó que praia tão comprida,
Que areia tão miudinha,
Tão longe da minha casa.
Tão perto do meu benzinho.

Minha mãe, minha mãezinha,
Olha que mãe tenho eu!
Uma mãe governa tudo.
Querer bem, governo eu.

Na chegada do Divino,
O gato subiu no sotêio.
Todos acharam bonito,
O gato é que achou feio...

Não há flor como o suspiro,
Cá na minha opinião:
Que todas flores se vendem,
Só os suspiros se dão...

Não me queiras tanto ódio,
Nem ódio com tanta ira.
O amor se vira em ódio,
Em ódio o amor se vira...

Não tenho maior riqueza,
Nem prenda para te dar.
Só tenho meu coração
Constante pra te amar.

Nos dias qu’eu não te vejo,
Para mim são noite escura;
Minha alma se afugenta,
Minha amizade se apura.

Nos cachos do teu cabelo
Eu me sentei a dormir.
Me deitei no mês de março,
Acordei no mês de abril...

O amor da mulatinha
É como o pano de linho:
Quanto mais vai na barrela,
Mais alvo, mais bonitinho. .

O beber alegra a gente,
O fumar nos dá prazer.
Quem não bebe neste mundo
Que prazer eu posso ter?

Olha o coco como é bobo,
Foi-se por aquela altura.
Ele pensa qu’eu não sei
Quando tem coco maduro...

Ó Lua qu’estais no céu,
Tão perto de ver a Deus,
Dai saúde àqueles olhos
Para só juntar co’os meus...

O mar pediu a Deus, peixe,
O peixe pediu fundura,
O homem pediu riqueza,
A mulher, a formosura...

Ó que noite tão bonita!

Ó que céu tão estrelado!
Passei a mão na cabeça,
Meu amor está tomado...

O relógio da saudade
Não é pra qualquer matuto
Que pesca com duas linhas,
Uma comprida, outra curta.

Os cachos do seu cabelo
Já se foram avaliado:
Custa um cacho dez tostões,
Cada cabelo, um cruzado. .

O sol entra pela porta,
A lua pela janela.
Eu vim saber da resposta,
Não saio daqui sem ela...

O Sol prometeu à Lua
Um ramalhete de flor.
Quando o Sol promete prenda,
Quanto mais quem tem amor.

O Sol que lá vem saindo,
Que pela porta vem dar,
Vem pedindo obediência
Aos raios que quer botar.

Passar, passar e passar,
Até me cair em graça.
É ditado dos mais velhos:
Quem peleja, mata a caça...

Peixe morre pela boca,
Fisgado pelo anzol.
Também morre quando em terra
Debaixo do quente sol.

Quando eu entrei nesta casa,
Logo vi cheia de rosa,
Meu coração logo disse
Que aqui tem moça formosa...

Quando eu era pequenino,
Antes de papai nascer,
Inda não engatinhava
Já morria por você...

Quando eu vim de lá de cima,
Da cancela mais pra cá,
Encontrei dois morta-fome
Comendo maracujá.

Quem de meu peito saiu,
Não entra mais, qu’eu não quero
Meu coração se trancou-se,
Com chave, prego e martelo.

Quem tem amores não dorme,
Nem cochila, nem tem sono.
Quando vai dormir um sono,
Quando acorda... já tem dono.

Sua cabeça de vento,
Juízo mal governado,
Dizei-me pra que que serve
Namorar homem casado?...

Se for apanhar pitanga,
Apanhai, botai no seio,
Que o dicionário disse:
Pitanga verde é passeio.

Saudade de quinze dias
Não maltrata muito a gente.
Só a saudade de meses
Meu coração é quem sente.

Os meus olhos ausentou-se
Dum bem que eu tanto queria
Meu coração se trancou-se,
Nunca mais teve alegria...

O sol perguntou se ouviu,
A lua, se percebeu,
As estrelas, se contaram
Que amor firme é só o meu...

O sol quando vem saindo
Bota raio em campo verde.
Tenha paixão quem tiver,
Largar meu amor não hei-de.

O vento me abriu a porta,
Eu cuidava que era Ana.
Em que sorte vivo eu
Que até o vento me engana...

Passei pela manjerona,
Cinco galhos eu tirei.
Cinco sentidos qu’eu tinha,
Todos em ti empreguei.

Penteai vosso cabelo
Da moda que vos convém.
Cabelos são paciência,
Tem paciência, meu bem!

Quando eu entro numa roda,
Em lugar desconhecido,
Quando eu vejo uma risada
‘stou cuidando que é comigo...

Quando não te conhecia
Nada de ti me importava,
Sem pensamentos dormia,
Sem cuidados acordava...

Quem ama não considera
O que está pr’ acontecer.
Pensa que tudo são flores
Pra no seu tempo colher...

Quem não sabe do meu nome
Pergunte e indague bem.
Eu me chamo Porto Alegre,
Porém não digo a ninguém...

Roseira, minha roseira,
Cravo de boa esperança,
Me mandai dizer por carta
Qu’inda me tens na lembrança.

Se eu contar as minhas queixas
Vós não haveis de sentir.
O meu triste coração
Padece sem descobrir...

Se o mar fosse de leite,
As ondas sem ser salgada,
Eu havera de ver meu bem
Sem pagar frete nem nada...

Saudade desesperada
Como eu tive esta semana,
Nem que os dias fossem meses,
Nem que as noites fossem ano...

Soube qu’estava doente,
Minha flor de laranjeira.
Nosso senhor te visite,
Qu’eu não posso, inda que queira

Tendes os olhos azuis,
Cor do mar quando está manso.
Eu não sei quando terei
Nos vossos braços, descanso...

Topei a morte pescando
Com uma linha e o samburá.
Quando a morte mata peixe,
Muito peixe tem o mar.

Topei um lagarto em pé,
Uma cobra recostada,
Um búzio contanto estória
E um tigre dando gaitada.

Travessei o mar a nado
Com uma vela benta acesa.
Não achei no mar o fundo,
No seu peito achei firmeza.

Uma limeira cortada
Sempre parece limeira.
Uma moça bem casada
Sempre parece solteira...

Uma velha muito velha,
De tão velha se curvou.
Ouviu falar em casamento
A velha s’ endireitou...

Um cravo caiu do céu,
De tão alto desfolhou.
Quem quiser casar comigo
Vá pedir quem me criou.

Um lenço tem tantos fios,
Só eu não posso contar.
Deus te dê saúde e vida
E amor para gozar...

Urubu que vem de cima
Com fama de dançador.
- Tira dama, urubu!
- Eu não quero não sinhor.

Valha a mim, Nossa Senhora,
E também Nosso Senhor.
Do falso ninguém se livra.
Nosso Deus não se livrou...

Vamos dar a despedida
Como deu o beija-flor.
Agora estou mais contente:
Meu galante já chegou...

Você diz que não me quer,
Deus lhe pague, eu agradeço.
Seus carinhos são pros ricos,
Eu sou pobre, não mereço...

Vou escrever uma carta
Com uma pena de tigê
Pra matar uma saudade
Que eu tenho de você.

Tanto verso que eu sabia,
Veio o vento, carregou.
Só ficou-me na memória
O que meu bem me ensinou...

Todas Marias eu amo,
Todas são compadecida.
Uma Maria matou-me,
As outras me deram a vida...

Travessei o mar a nado
Com a lanceta no dente,
Pra salvar o meu benzinho
Qu’ está na cama doente.

Troquei os meus olhos pardos
Pelos vossos castanhados.
O povo me chama, agora:
"Amor de olhos trocados"...

Uma camisa que eu tenho,
Estou vendo ficar sem ela.
Todo domingo no corpo,
Todo sabado na barrela...

Uma mãoo tem cinco dedos,
Cada dedo uma memora,
Cada cavalo uma sela,
Cada sela uma senhora.

Uma velha muita velha,
Mais velha que o meu chapéu,
Foi falar em casamento,
Ela pôs as mãos pro céu...

Um lenço cor de açucena
Tem um S em cada ponta.
Por vós ter a cor morena,
Por isso eu te faço conta.

Um metro de fita verde
Com trela dedos de largura,
No peito d’uma crioula
Mata qualquer criatura...

Urubu ‘stava sentado
Lá na praia d’oriente,
Vestido todo de branco
Parecia um presidente...

Vamos dar a despedida
Como deu cachorro magro,
Que encheu sua barriga
E foi sacudindo o rabo.

Você de lá, eu de cá,
Ribeirão passa no meio.
Você de lá um suspiro,
Eu de cá, suspiro e meio...

Você diz.que nunca viu
Laranja botar limão.
Lá na minha horta eu tenho
Um pé que bota feijão...

Vou pregar o teu retrato
Na parede da escola.
Os dias que não te vejo
Teu retrato me consola...


(Neves, Guilherme Santos. "Folclore de Caçaroca". Em Folclore.   p.2-6)

Topo

Jangada Brasil © 2002