Março
2002
Ano IV - nº 43 |
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(Diálogo entre Gertrudes e
Marcela, donas de fama na arte de cortar na pele do próximo, nos tempos coloniais)
Gertrudes:
Marcela, boa vizinha,
Por este mundo de Cristo,
Coisas há que eu tenho visto
Que antes calar.
Pois quem ouve se falar
De pessoas de respeito
Por uma forma e um jeito
De moleque;
Pede a Deus que o sapeque
Com bexigas de espravão;
Quem é do Tinhoso irmão
Vá pra maré.
Eu digo a coisa como é:
Ver fazendo de abadessa
Uma mula-sem-cabeça,
Descarada,
Feita ane itpostada,
Junto à candeia de azeite
Da rua do Cunha Leite,
É demais!
Pois não haverá um rapaz,
Que vendo comborça assim,
Não a mande comer capim
Com opé?
Marcela:
Jesus, Maria, José;
Tudinha; gente ruim nesta cidade
Gozando fama de santa, em verdade,
Não falta.
Olhe a Candinha do Malta:
Mal sai na lancha o marido,
Em casa é substituído,
E no mais...
E a Joana do Vaz?
Eu não quero falar mal,
Mas digo, inda não vi igual,
Pouca vergonha.
O marido é um pamonha;
Passa as noites no poial,
Com o Costa, Sérgio e o Vidigal
A dar picuadas.
Já levou palmatoadas,
Por cortar na pele alheia,
E dizem que na cadeia
Tem assento.
Não é homem de fundamento,
O engaço de banana,
Vestido de barragana
Ali defronte.
E é bom que eu lhe conte,
Que em dia de eleições,
Apanhou uns bofetões
De um bigorrilhas.
Tinha saído com as filhas
Cheio de si, todo oco,
E ao passar pelo Tínoco,
Pediu-lhe o voto.
"Seu patife, seu maroto",
Diz o outro, tome eleição
E nisto pregou-lhe a mão
Na venta.
Foi um dia de tormenta
Pras filhas coisas à-toa...
Fugiu uma coGamboa
De repente.
A outra fez-se doente;
Com moléstia de carneiro,
Mas a criança no cueiro,
Apareceu
................
Afinal sempre venceu,
Gastando boas patacas;
O leite saiu das vacas
Do basbaque.
Agora anda de rodaque
Mauritânia e calça curta,
É camarista que furta,
Até de igrejas.
Não vê entrando bandejas,
Cordões de ouro e prataria?
Pois é assim que se esvazia
O altar!
Gertrudes:
- Isto dá que pensar,
A quem é temente a Deus;
Devota de São Mateus,
Rogo descanso.
Não sei se sabe que o Manso
Co meu homem tem demanda;
Que lida! meirinhos por uma banda
E por outra.
Até do Severo a potra
Se tratou nos tais papéis;
Aquilo só a pontapés
Há de acabar.
É um ror o gastar
De dinheiro; pessoa por boa tenho,
Que me falou num empenho
Pro juiz.
Toquei em casa ao Luís
No assunto, sem demora,
E meu compadre Samora
Me ajudou;
Mas qual! o homem berrou
Que tudo estava perdido;
Que o juiz era do partido
Do dinheiro;
Que a mulher do Quinteiro,
Falando aos licenciados,
Ouviu: "por mil cruzados
Tenho a sentença".
Ora aí está o que é sabença,
Das leis da nossa justiça;
Melhor faço em ir à missa
Rezar.
Porque, estando a passar,
De meu terço as bentas contas,
Não vejo se é animal de pontas,
O vizinho
Marcela:
- Esta caiu direitinho
Na casa do Avelar,
Que anda a querer tapar
O sol coa mão
Por hoje finda o serão;
Tudinha, tenha boa noite,
Mas amanhã o açoite
Será dobrado.
(Cláudio, Afonso. Trovas e cantares capixabas, p.49-52) |
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