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Março 2001
Ano III - nº 31

FOLCLORE MINEIRO: CRENDICES

As crendices constituem um ângulo do folclore de que também é intensamente rico o centro-norte mineiro, do vale do Rio São Francisco. São patranhas e abusões nascidas da ignorância religiosa, e que se baralham entre grosseiros métodos de curas, ou se misturam a preceito morais de temor a Deus, e de respeito aos pais, ao próximo e às coisas do Céu.

Exemplificando minhas assertivas, dou conta de algumas das principais superstições, muitas das quais, não há de negar, restringiram muitos dos meus atos na infância:

1. Se num benzê a panela antes de arribá ela pu fogo pra cozinhá galinha do pescoço pelado, o capeta veim dinoite furtá um pedaço dela.

2. Chifre quemado ispanta as cobra e os bicho ruim.

3. Quem ingóle piabaviva fica bom nadadô e nunca morre afogado.

4. Vê istrela perto da lua é siná de saparação de um casáli.

5. Conde um beija-fulô verde enta in casa é arguma coisa boa qui vai chegá; se o beija-fulô é preto é siná de luto.

6. Barrê casa dinoite é agorá os pai.

7. Pisá no pilão seco é provocá briga in casa.

8. Andá cum a roupa azavéssa é pirigoso pruquê se cobra mordê, num iscapa; tamém os feiticêro pode jogá uma camassada de muamba in riba da pessoa conde sabe qui ela tá cum a roupa azavéssa.

9. Virá o trabissêro conde acabá de sonhá cua pessoa, ela também vai sonhá cá gente.

10. Se quemá cobra viva na Sexta-Feira da Paixão ela mostra as perna.

11. Dexá sapo mei torto a gente sofre dô de cabeça.

12. Coêio cortado e temperado pra cozinhá no ôto dia, vira púis; se é botado logo na panela some na posta.

13. Deve si disvirá o carçado quistivé imborcado, apois sinão vai havê disavença com o dono.

14. Quem tivé pai ou mãe num deve pintiá os cabelo dinoite.

15. Muié prenha num deve sentá in riba de pilão, nem sartá cabresto, nem sartá sombra de limueiro, nem dexá pessoa arguma passá por tráis dela, apois sinão terá mau parto.

16. Num se deve barrê casa no dia qui um membro dela viaja, pruquê ele tá sujeito a num vrotá.

17. Infincá ua faca no chão conde se pesca, num pega peixe.

18. Virá o coice da ispingarda pá frente, nuca mais mata caça.

19. Botá fejuáda no fogo, dinoite, é preciso ante botá sáli apois sinão botá, as arma dos qui morreu de firida vem lavá dentro do carderão as infrimidade.

20. Ispingarda qui foi sartada pru muié, nuca mais mata caça.

21. Bisôro di coroa branca in vorta da gente é carta qui se vai arrecebê; mais se o bisôro fô todo preto é carta de luto.

22. Andá de costa tá agoráno a mãe.

23. Conde se vê ua cobra e num quisé quela vai simbora é só torcê a barra da camisa.

24. Conde ua criança anda de quato pé e óla pu dibaixo das pena, é siná qui veim ôto rimãozinho.

25. Bizerro bricáno é siná de chuva.

26. Dexá caxa aberta é siná de morte in casa.

27. Conde a barra do vistido dobrá na frente é siná qui a pesso vai arrecebê um presente, mais se fô atráis é siná qui vai levá ua surra.

28. Conde se qué qui ua visita vai simbora logo é só virá a tampa do pote, os tição de fogo, pô a bassôra pá riba atráis da porta, ou antonce jogá sáli no fogo.

29. O satanás num chega perto de panela qui cunzinha maxixe ou corqué dicumê qui dentro jogaro trem brabo, cuma dente dálio cum casca.

30. Conde se qué achá a cumpanhêra dua cobra qui si mataro é só dexá ela de barriga pra riba, pruquê a ôta veim logo.


(Do Diário de Minas, 22/10/1950)


(MARTINS, Saul. Em Boletim trimestral da Comissão Catarinense de Folclore)

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