Este não é senão uma pequena
reprodução da alma simples dos tubaronenses que ainda conserva, a pura ingenuidade dos
povos de antanho, quando atribuem miraculoso poder às orações estranhas que chamam benzeduras.
Colhidas não sem algumas relutâncias entre àquelas próprias pessoas, foram
reproduzidas tal como as pronunciam, advindo daí algumas expressões ou palavras cujo
sentido não nos é muito familiar ou mesmo ignorado. Assim é que entre as muitas que
indubitavelmente escaparam à minha especulação, encontrei as seguintes fórmulas:
Para cobreiro (1)(doença da pele que
inicia por pequenas feridas que pouco a pouco vão se unindo, acreditando-se provocadas
por aranhas, sapo, etc.)
Cobreiro bravo
Eu te corto a cabeça e o rabo
Cobreiro bravo há de secar
Cobreiro bravo há de sarar
Que caia de nove em nove, que caia de sete em sete, que caia de seis em seis,
Que caia de cinco em cinco, que caia de quatro em quatro, que caia de três em três,
Que caia de dois em dois, que caia de um em um
Em nome de Deus e da Virgem Maria
Este cobreiro não aumentaria
Para cobreiro (2)
Cobreiro eu te benzo e tu hás de sarar
Com este galhinho da Virgem Maria
Pedindo que ela não deixe cruzar
Cobreiro de aranha, de sapo te benzo
E a Virgem Maria te há de curar
Para cobreiro (3)
Santa Iria perguntou à Santa Iria
Cobreiro bravo com que se curaria
Com ramo verde e água fria
Com o nome de Deus e da Virgem Maria
Só com isso se curaria
Para íngua
A pessoa que tiver uma íngua poderá, no dizer do povo simples, curá-la simplesmente
olhando para uma estrela fixamente e repetindo três vezes em seguida: "Estrela, a
íngua diz que morra a estrela e viva a íngua e eu digo que morra a íngua e viva a
estrela.
Para verruga
Além das fórmulas já publicadas, - encontrei ainda a seguinte:
A pessoa que as tiver, deverá feri-las um pouquinho e esfregar sobre elas uma pedrinha de
sal, após o que, de costas voltadas para o fogão jogará a mesma sobre o fogo, correndo,
a seguir, para não ouvir o estalo produzido pela mesma. Se escutá-lo, terá o dobro das
verrugas anteriores.
Para a falta de vista
Santa Luzia Maravilhosa
Que viveste em castidade
És remédio copiosa
Dá-me vista e claridade
Para quem se afoga (com espinha ou osso)
Homem manso, mulher brava, casa aguada, esteira velha, travesseiro de abade, que esse
engasgo que está na garganta, suba ou desça, em nome de Deus e da Virgem Maria e do
Senhor São Brás.
Ainda para afogado
Dar três voltas com o prato em que a pessoa está comendo, ou então, virar um tição de
fogo de modo a que a ponta queimada fique para fora.
Para animal bravo
São estas as palavras que Deus deixou para o animal bravo:
A quem tem perna não alcançar
A quem tem boca não morder
A quem tem ouvido não ouvir
Em nome de Deus e da Virgem Maria
Para espalhar a trovoada
Santo Antônio pequenino
E seu caminho caminhou
Encontrou Nosso Senhor
- Aonde vais Antônio
- Vou ao rio Jordão
Benxer a trovoada
Pra que não caia nem um grão
Nem por cima de mortos
Nem por cima de cristãos
Para dor de dentes
Luar, luar de São Clemente
A vista para meus olhos, a saúde para meus dentes
Para rendidura
A pessoa que vai benzer, toma de um pedaço de pano e uma agulha com linha e costurando
pergunta:
- Que coso?
O doente responde:
- Carne quebrada e nervo torto.
- Isto mesmo coso
Em nome de Deus e da Virgem Maria
e de São Virtuoso
Se for carne rendida, torne a soldar
Se for nervo torto, torne a ir a seu lugar
(Isto será, na primeira vez repetido nove vezes, na segunda sete e na terceira cinco)
Para dor na mão
Levantei de madrugada
Para falar com Conceição
Encontrei Nossa Senhora
Com uma palminha na mão
Pedi um galhinho
Mas ela disse não
Tornei a pedir
Ela me deu um cordão
Um cordão de cinco volta
Ao redor do coração
Santo Antônio, - São Tadeu
Desamarre esse cordão
Meu apóstolo, meu irmão
Pegue-me pela mão
E leve-me a Belém ou uma fonte
Onde o demônio não me encontre
Nem de noite, nem de dia
Para a criança embruxada
(magreza extrema e palidez)
Bruxa que bruxas são?
Freio na boca e rabicho na mão
Não entre nesta casa nem nesta habitação
Deixe esta criança em paz
Que ela não lhe quer não
É melhor que vá para as areias gordas
Para a sua habitação
Para olhado
Fulano eu te benzo de olhado e de quebranto
Assim como tu és batizado
Quero que tenhas fé em Jesus crucificado
Se for quebranto, olhado ou zipra
O que estiver no teu corpo encasado
Nossa Senhora que tire
E bote nas ondas do mar sagrado
Onde não chegue gente
Nem cristão batizado
Fulano, eu te benzo
Com as três palavras da Santíssima Trindade
Se for quebranto, olhado, inveja, feitiço ou malefício
O que estiver no teu corpo encasado
Nossa Senhora que tire
Em nome de Deus e da Virgem Maria
Deus te gerou. Deus te criou
Deus que tire este mal que no teu corpo entrou
Sangue te pôs no corpo como Jesus Cristo na horto
Sangue te pôs na veia como Jesus Cristo na ceia
Sangue te pôs no lugar como Jesus Cristo no altar
Em nome de Deus e da Virgem Maria
Esse teu mal nunca aumentaria
São José, São Joaquim, desate esse cordão
Ou Nossa Senhora que te deu
O teu Divino Pão
Ainda para olhado
Eu te benzo de olhado
Olhos ruins, olhos invejosos
Que olham para ti com maus olhos
Eu te benzo para que este olhado
Não entre no teu corpo
Eu te mando olhado
Para as ondas do mar sagrado
Onde não cante gado nem galinha
E onde não vá cristão batizado
Eu te benzo com as três palavras da Santíssima Trindade
Para soluço
Soluço tiburço, soluço que vai, soluço que vem
Soluço que vá para quem não o tem
Para quem entra no mato
São Bento na água benta
Jesus Cristo no altar
O bicho que estiver no caminho
Arrede que eu quero passar
Para empigem
Empingem rabige
Que quer rabijar
Com a cinza do borralho
Te hei de curar
Para a zipra
Muito usadas também são aqui as fórmulas já publicadas. Segue outra.
Zipra, ziprelão
Que dá na pele da pele
Dá no osso do osso
Dá no tutano do tutano
Cai no mar
Pede a Deus Nosse Senhor
Que esta zipra não te torne a dar
Finalmente, a fórmula para as mocinhas faceiras.
Para crescer os cabelos
(Olhando a lua ao nascer, repetindo três vezes)
Lua nova, lua cheia
Faça crescer meu cabelo para baixo da cintura
São estes, muitas vezes os únicos recursos empregados pelo povo humilde para sanar seus
males. Mas, perguntamos nós, a que atribuir tamanha fé no que julgamos tamanhos
absurdos? É que em seu coração verdadeiramente brasileiro ainda moram bem vivas a fé e
a confiança, cujo atestado bem patente está na sua frase tantas vezes repetida:
"Quando Deus quer, água fria é remédio".
[1950]
(NUNES, Neusa. Boletim trimestral da Comissão Catarinense de Folclore, setembro de 1950)
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