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Março 2001
Ano III - nº 31

BAILE NOS CAPRICHOSOS DA ESTOPA

A sede do clube, a exemplo dos Tenentes do Diabo, que se denomina a Caverna, chama-se Tear.

Eu cheguei ao Tear quando o baile estava quente, às duas horas da manhã.

Crioulos, crioulas e mulatos mal se equilibravam nos sapatos de raro convívio com os pés chatos.

Uma charanga, composta de clarineta, trombone, saxofone, tambor, violões e pandeiros fazia o pessoal delirar no arrasta-pé.

Quando penetrei nos Caprichosos, os admiradores de J. B. Silva (Sinhô) e do Caninha dançavam, torcendo o pescoço numa denúncia de alegria excepcional.

O clarinetista tinha uma cara de pássaro.

O saxofonista piscava, seguidamente, atrapalhadíssimo com as chaves do seu cachimbo harmonioso.

O do trombone era um negro gordo, de coco raspado, que, de vez em quando, tirava o bocal do instrumento e escorrupichava ali mesmo no chão uma baba abundante.

No meio do salão, mantendo a disciplina, estava o mestre-sala, de colarinho em pé, a gaforinha esticada para trás o mais possível, e os olhos fixos nos cavalheiros que, num volteio mais propício, sempre encostam a perna das damas sequiosas...

- Olha isso, seu Augusto...

- Que foi, seu Paulino?

- Não foi nada...

Seu Paulino responde isso e olha logo para outro lado, para pegar na boa a empernação...

Damas e cavalheiros fingem espanto com a observação de seu Paulino e o baile vai ao final assim, mais ou menos moralizado.

De repente o tambor faz um rufo surdo e demorado - é o sinal de que a música vai parar.

Aquela gente toda quebrava agora mais gostosamente, aproveitando bem aquelas últimas tascas, porque o Tatu subiu no pau ia parar.

Parou a música.

- Damas ao bufete!, - gritou um mulato baixinho, de óculos de aro de tartaruga.

Em seguida a esse grito, do tope da escada um associado exclamou:

- Está aí seu Zizinho, da Trombeta.

Era a imprensa que chegava.

Eu, que ali estava com um convite cheio de novidades - oferta régia de um cronista de carnaval -, ia enfim passar mais radiante o resto da noite, no convívio, por tudo precioso, desse colega que se anunciava assim tão íntimo da agremiação.

Logo que seu Zizinho entrou, o presidente dos Caprichosos perguntou por mim nestes termos:

- Quedê o outro?

O secretário, aquele de óculos, apontou-me:

- É aquele.

O presidente disse-me, todo festivo:

- Aqui está um colega do senhor. É o seu Zizinho.

- Eu conhecia o apresentado não por seu Zizinho, mas como o Correia Neves, repórter suburbano de sensação.

Estendi a mão para o colega recém-vindo e alegrei mais o presidente:

- Oh! conheço muito!... Batuta velho...

Seu Zizinho quebrou o corpo para a direita e caiu em cheio no burburinho das mulatas.

Que prestígio!

Eu estava assim, embevecidamente contemplando o sucesso do meu confrade, quando o presidente do clube anunciou que ia fazer uma saudação à imprensa.

A charanga parou instantaneamente.

O povaréu do baile afluiu para a sala onde o presidente ia falar - sala que por uma pequena porta se comunicava à saleta onde eu tomei posição solene, junto aos músicos, a uma máquina de costura e dois manequins de dona Elvira - crioula consorte do seu Rodrigues, dono da casa e presidente honorário da associação.

Silêncio.

O presidente anunciou o discurso, mas deu a palavra ao mulato os óculos.

Meu Deus! A minha alma deve muito ao céu esses instantes de inenarrável satisfação.

O mulato principiou, dirigindo-se a mim:

- Senhor representante da imprensa.

E fez um parêntesis:

- Seu Zizinho eu já conheço.

Continuando:

- Seu Sinhô! Este clube tem hoje a alegria em duplicata. Tem a presença deste baluarte da nossa glória, que é seu Zizinho, e tem mais a presença deste jovem mas já festejado artista da palavra escrita, símbolo da nossa regúlia meridional.

Regúlia impressionou-me.

O orador balançou mais o copo de cerveja e terminou, depois de muita preciosidade que eu não apanhei:

- Saudando a imprensa, que é força primaz da nossa terra, que faz in loco, a clarividência eternil da obscuridade do valor [sensação], eu bebo pela felicidade geral do clube, seus sócios e sócias, e aqui pela de seu Zizinho que sendo da imprensa é também pessoa diluída da nossa agremiação.

Seu Zizinho, que ouvira com a fisionomia concentrada o discurso do secretário-geral, levantou o copo de cerveja e disse:

- Senhor presidente da Sociedade Dançante Familiar Caprichosos da Estopa. Aqui o meu distinto confrade [dirigindo-se a mim] pede-me para responder ao vosso orador que em sua peroração exprimiu todo o sentir eivado de sinceridade e definiu a alma intrínseca das similitudes gerais.

A escolha foi ínfima. Faltam-me dotes oratórios para dizer as palavras em resposta à saudação do digno secretário, saudação feita à imprensa e a mim próprio, de per si, pessoalmente.

Mas, como na vida as situações se mandibulam de forma tal que a gente não sabe nunca o to be das coisas, eu bebo à saúde de todos, fazendo votos para que o Caprichosos da Estopa seja sempre esta beleza!

Bendita hora em que eu aprendi taquigrafia!

Quando o orador terminou, houve palmas e abraços.

- Mais cerveja aqui pra seu Zizinho!

E a charanga rompeu um samba de arrepiar.

Eram quase três horas da manhã.

Eu fiquei por ali misturado com a negrada que se dissolvia de calor.

Andei a casa toda.

Fui até ao quintal.

Voltei ao salão.

Aí conversei com a Herondina - uma mulata pernóstica dona de uma pensão no bairro da Saúde.

A Herondina perguntou-me, num requebro:

- O senhor conhece o Hermes Fontes, autor das Apoteoses?

- Conheço. Um grande poeta.

- Pois eu sou irmã dele...

- Oh! muito prazer.

A Herondina requebrou mais e fomos para a janela conversar.

À certa altura da conversa ela me disse:

- Vamos sair daqui, Olhe seu Paulino...

O samba continuava frenético.

Agora, o preto do trombone já soprava dormindo e as bolhas de suor, na testa, brilhavam como um diadema.

Empurrado pelos pares afogueados, eu a custo li, na parede, um edital proibindo a entrada de um repórter Odilon na sede do clube.

Embaixo do edital havia esta nota:

"Motivo: Querê imperná.

o secretário
Laurindo Simas"

Já se ouvia na rua o rumor dos veículos da manhã quando o baile acabou.

Fui saindo silenciosamente.

Quando cheguei à esquina da rua do clube ouvi o ruído de um bonde e parti a tomá-lo.

Ainda vi, nessa esquina, um aspecto do fuzuê: uma crioula, rodeada de outras, sentada na soleira de uma porta; tinha na mão não só os sapatos do baile, mas as meias cor-de-rosa com que fizera figuração.

E os pés chatos da preta, com um dedo grande que parecia uma manivela de bonde, eram uma festa, assim à fresca, naquela madrugada sensacional.


[1923]


(BARBOSA, Orestes. Em BANDEIRA, Manuel; ANDRADE, Carlos Drummond de. Rio de Janeiro em prosa e verso)

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