Março
2001
Ano III - nº 31 |
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O abraço é um dos gestos mais comuns de
todo brasileiro. Com a maior facilidade, os filhos desta imensa terra se abraçam em
público, ou em casa, o que chama a atenção dos estrangeiros, habituados ao simples
aperto de mão. Esse costume é uma herança oriental, que os portugueses receberam dos
mouros e nos legaram. Filhos de uma raça audaz de navegadores e bandeirantes, "que
andaram a descobrir mundos e mares", na nossa língua, nas nossas coisas e nos nossos
hábitos se encontram reminiscências das gentes e das civilizações mais diversas.
Nós chamamos, por este motivo, à espada - catana. Meter a catana em alguém, é uma
frase familiar. Essa catana nos veio do Japão, trazida pelas peregrinações dos Fernões
Mendes Pinto. Os japoneses usam à cintura dois sabres recurvos, com os quais os samurais
se batiam, um menor - o tanto, outro maior - a katana.
Nós fumamos charutos. Foram os descendentes dos Albuquerques que arrancaram essa
denominação aos hindus. Qualquer viajante inglês conhecedor do Indostão dirá nos seus
livros que a gente daquela península fuma e masca umas torcidas de tabaco chamadas cher-oots.
Os beirais das nossas antigas casas coloniais, terminavam em pontas arrebitadas, embora a
fachada fosse do mais puro estilo barroco-jesuítico. Ainda no Rio de Janeiro se encontram
velhos sobrados com esses pontais arrebitados, embora sem exagero como os de outras
épocas, dos quais é precioso exemplo a célebre casa do duque de Luxemburgo, embaixador
de França no Brasil, em 1816, que está litografada por Goyer na edição Gumbert et
Dorez, de 1830, feita em Paris, do livro de Auguste Saint-Hilaire, Voyage dans les
provinces de Rio de Janeiro et Minas-Geraes, primeiro volume. Esse adorno dos beirais
veio da China, trouxeram-no para Portugal os mercadores de Macau e de Cantão, como os de
Calecut e de Goa trouxeram os ornatos pontudos, semelhantes a chifres de unicórnio, que
ainda coroam muitas das nossas fachadas, irmãos dos que se erguem nos parapeitos dos
templos bramânicos. Os tijolos vermelhos, espinhados, servindo de ladrilhos, os
corremãos de escadas em calhas, metidos nas paredes, os fogões de alvenaria com o forno
ao lado, do feitio de cúpula, os silhares de azulejos, os canteiros em estrelas e meias
luas, feitos com tijolinhos esmaltados, ou não, tudo isso que ainda há em nossas antigas
casas, veio dos oito séculos que o mouro dominou a península, de cujo ocidente saiu a
nossa raça e a nossa alma, quer queiram, ou não queiram os jacobinos; tudo isso lá
está ainda, como modelo invejável perto de Lisboa, no velho paço dos alcaides de
Cintra.
Um livro não seria o bastante para se exporem essas reminiscências na língua, na arte e
nos costumes, vindas de regiões e povos orientais, através do aventureiro lusitano. Os
exemplos citados servirão, assim, tão somente, para ilustrar melhor o caso especial do
abraço, de que tratamos.
O abraço veio do Oriente. Lá está ele descrito à página 82 do livro monumental de
Rudyard Kipling, Kim, tradução francesa de Fabulot e Walker, edição do
Mercúrio, de França: "Le vieillard dégringola en un clin doeil de son
poney, et ils échangérent laccolade de père á fils, selon la coutume de
lOrient".
Daí a estranheza com que o estrangeiro nota a nossa mania de abraços pelas ruas.
Saint-Hilaire comenta-a, já no princípio do século passado, várias vezes, no segundo
volume das suas viagens, acima citadas. À página 192, ele registra esse hábito já
infiltrado no seio das tribos amansadas pelos portugueses, narrando um encontro com os
botocudos amigos do chefe Tujicarama: "...il serra le commandant entre ses bras,
en le pressant fortement et á plusieurs réprises contre sa poitrine. Quelques uns des
autres indiens en firent autant, et je fus également embrassé avec beaucoup de
démonstrations de joie". Mais adiante, na página 202, o mesmo viajante torna a
repetir a mesma observação de que os índios abraçavam muito e a todo momento. Diz ele
que um jovem botocudo de Jan-oé o seguiu na sua viagem, dando-lhe a cada passo as maiores
demonstrações de afeto. De instante a instante, ele agarrava Saint-Hilaire e
pespegava-lhe abraços apertados.
Todos nós sabemos quanto o índio imitava tudo quanto via os europeus fazerem. Nesse
particular, a cena da primeira missa no Brasil é típica. O aborígene viu o português
abraçar a torto e a direito os amigos e hóspedes. Arremedou-o. Daí o hábito que o
viajante francês verificou entre eles. Se não imitaram os portugueses, entre os quais o
hábito já era inveterado, só podiam ter aprendido o abraço do tamanduá, o que não
parece admissível, embora os abraços de muitos dos seus descendentes que andam pela
avenida, com parte de civilizados, sejam de verdadeiros tamanduás... Ademais, o mesmo
Saint-Hilaire não esquece da mania de abraçar dos brancos do país.
Entre outras notas a respeito, dá esta, à página 198 do tomo citado: "Ce jeune
homme, agé denviron quinze á seize ans, était extremement affectueux; il nous
serrait continuellement dans ses bras, le commandant et moi".
E todos os viajantes estrangeiros que nos têm conhecido, tomam nota da accolade,
tão rara entre os povos frios do norte da Europa e tão fácil entre os orientais
exuberantes e os meridionais, desde Biard, em 1858, até o senhor Charles Bernard,
jornalista belga que acompanhou aqui o rei Alberto, o qual dele fala no seu livro Oú
dorment les Atlantes. Pois o abraço, modo de saudação eminentemente oriental, foi
dado pelos árabes da Conquista Maometana aos mouros e por estes aos portugueses, que
no-los legaram como o beiral chinês e o charuto hindu.
(BARROSO, Gustavo. O sertão e o mundo) |
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