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Março 2001
Ano III - nº 31

CANTIGA DOS CAPINADORES DE RUA EM BELO HORIZONTE

As obras de pavimentação de asfalto em Belo Horizonte irão muito brevemente fazer desaparecer uma nota de imenso pitoresco - as turmas de crianças capinadoras das ruas.

Em bandos de dez a quinze, regidos por um feitor adulto, esses precoces trabalhadores, cuja idade não ultrapassa os onze anos, enchem de alegria e jovialidade as ruas da capital, capinando, com instrumentos especiais que tinem ritmadamente no granito do calçamento, e cantando ao ritmo do trabalho para esquecerem o cansaço da tarefa.

O canto, no Brasil, foi sempre companheiro do trabalho. Nos eitos dos cafezais, o negro escravo cantava para enganar a canseira do machado e da enxada, enchendo as matas com um canto alongado e triste em que se misturavam, em segundas e primeiras, as vozes dos homens, das mulheres e das crianças:

Maria amarra o cabelo
Bota goma no tundá
Vamos pra beira do rio
Ver os peixinhos nadar...

E as lavadeiras também, à margem dos córregos e das cacimbas, não dispensam as cantigas para engambelar o trabalho meio monótono de esfregar roupas intermináveis:

Cravo branco, não me prendas
Que eu não tenho quem me solte
Não me prendas, cravo branco
Que eu quero dançar um xote...

As cantigas dos capinadores de rua, são, entretanto, mais alegres, mais vivas, mais saltitantes, (não tivessem eles onze anos.. ) apesar de possuírem uma certa melancolia, uma tristeza vaga e indistinta que trai o sofrimento das fomes silenciosas e dos cansaços irremediáveis...

Geralmente são cantigas populares que eles adaptam ao ritmo do trabalho, e não raro reponta nelas a revolta contra o cão de fila do feitor, a quem chamam Caipapa, que lhes fiscaliza o serviço nem sempre feito com a desejada perfeição:

Quando vim da minha terra
Eu passei no matadô
Vim montado no seu pai
E puxando o seu avô...

Geraldo Boquêra me falou (todos eles têm apelidos: Geraldo Boquêra, Rato Branco, Luiz Caneludo, Caveira, Chinó, Timerão, Barnê, Carolina...) que o Caipapa (feitor) tem ordem do prefeito de não "apertar a mão" com eles, mas o Caipapa é sempre muito "sabuco" (adulador) e aperta com eles pra ficar "limpo" com o deretor...

Mal alimentados por uma comida feita de véspera e que trazem numa lata aquecida em fogo improvisado na rua, mesmo assim a força dos onze anos rompe a cadeia de ferro do infortúnio para expluir em cantigas, meio tristes no conjunto das vozes:

Eu joguei um cravo n’água
De mimoso foi ao fundo
E os peixinhos responderam
- Viva dom Pedro II

Casaca de velho é fogo
Casco de burro é tamanco
Amigo, por Deus ajuda
Ocê não aguenta dois arranco...

Quando vim da minha terra
Passei por Sabará
Uma velha muito velha
E querendo namorá...

Eu tenho o cabelo bão
Das meninas penteá
Menina, eu cá sou baiano
E vim pra te namorá...

E no ritmo da enxadinha:

Na rua de baixo
Não posso passá
Uma véia coroca
Quer me pegá...

Veado no mato
É corredô
E eu sou bão
Atiradô...

No Sapatinho de algodão reponta aquela gabolice dos desafios nordestinos e talvez mesmo uma forma dos desafios. Assim:

Subi na serra de fogo
Sapatinho de algodão
Sapatinho pegou fogo
E desci de pé no chão

Lá no fundo do quintal
Tem um tacho de melado
Quem não sabe botar verso
É melhor ficar calado

No alto daquela serra
Tem um pé de jatobá
Quem casa com mulher velha
Tem muxiba pra chupá

A dona lá de casa
Me mandou se repeli
O verso que cantei agora
Não se pode repetir

O que é de um belíssimo efeito pela tristeza envolvente e pelo movimento da solfa, é o "quebra, quebra gabiroba":

Quebra, quebra, gabiroba
Quero ver quebrá
Quebra lá
Que eu quebro cá
Quero ver quebrá

Chui, chui, chuá
Deixa a chuva peneirá
Tem catinga de joá...

Em cima da bananeira
Chove chuva sem cessá
Ou mais tarde ou mais cedo
Nós temos que descansá
Samambaia pegou fogo
Sapecou tamanduá
Uê, uá

Corta maneiro
Ele vem de sertanejo
Como percevejo
Mas não como caranguejo...

De grande efeito melódico é também o Escoteiro quebra-coco, cujo nome está indicando a procedência nordestina. Por ele se confirma aquele estado de espírito com relação ao Caipapa. Complexo de inferioridade que emerge em presença do escoteiro, como eles criança, mas ao contrário deles com o luxo do uniforme e das distrações ricas e inúteis...

Ouçamo-lo:

Escoteiro quebra-coco
Na ladeira do piá
[...]
E depois cai estudá

Lagartixa na parede
Parece camboleão
Escoteiro na cozinha
Parece gato ladrão

Passei no Sererê
Quando vim de Pernambuco
Vim montado no escoteiro
Êta bicho pra correr...

Eu tenho uma garruchinha
Carregada até o meio
Pra namorá moça bonita
E matar a gente feio...

Não tenho medo d’ocê
Nem da sua garruchinha
Porque do chumbo faço água
Da pórva faço farinha

O que é interessante nas cantigas dos capinadores é que ele vêm criando um folclore especial, só deles, e apenas com a desarticulação do ritmo, ao compasso do seu trabalho, de cantigas muitas vezes já conhecidas. Dão-lhe a forma e o andamento adequado à sua profissão, criando novas melodias de uma beleza meio tristonha. Beleza que talvez seja aumentada pelos onze anos dessas boquinhas famintas que cantam para enganar o estômago e o cansaço...

[1938]


(DORNAS FILHO, João. Em Revista do Arquivo Municipal, setembro de 1938)

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