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Março 2001
Ano III - nº 31

VELHOS CANTOS DE TRABALHO

O trabalho, por mais simples ou mais pesado que seja, faz-se melhor se ritmado ao som de uma cantiga. Desde as singelas canções de ninar até os exaustivos labores de quebrar ou carregar pedras - tudo se fazia acompanhado de cantos, quase sempre para suavizar o trabalho.

Infelizmente, porém, (tirantes as canções de berço) com a mecanização do trabalho, reduzido o número de obreiros, enrudecendo-os com o estrépido dos dínamos, desagrupando-os, isolando-os na vigilância esgotante das máquinas vertiginosas - os cantos de trabalho vão-se perdendo, ou já se perderam, na memória de todos, extinguindo-se e - o que é mais triste - morrendo sem possibilidade de ressurreição.

Outrora, no entanto, quase todo o trabalho se fazia a cantar, desde o aprendizado do abecê e da tabuada nas escolas, até o esforço muscular no transporte de fardos ou no deslocamento e quebra de blocos nas pedreiras. Cantava-se nos engenhos, nos teares, nas colheitas; cantavam os canoeiros, remando; e os ferreiros batendo a forja; cantavam também os carregadores de pianos

Mário Sette, em seu livro Maxambombas e maracatus (Recife, 1938, p. 92), insere breve capítulo sobre ‘Os carregadores de pianos", e informa: "Outrora, vinham oito homens práticos no serviço. Contratados de antemão e com cuidado. Chegava, com as suas toalhinhas, formavam de quatro em quatro, e com o piano nas cabeças marchavam de rua afora, de passos militares harmonizados, em cadência impecável, cantando:

Iaiá me diga adeus
Olha que eu vou embarcá
O vapô entrou na barra
O telégra deu siná...

Um tirava os versos e os outros respondiam em coro:

Zomba, minha negra
Zomba, meu sinhô
Quem quisé se embarcá
O trem de ferro já chegô..."

Que eram interessantes esses transportes cantados dizem os registros dos viajantes que visitaram o Brasil até o século passado. François Biard, em seu precioso livro Deux Années au Brésil (Paris, 1862), descreveu o que viu: "Num dos primeiros dias de minha estada (no Rio de Janeiro) movido pela curiosidade fui forçado a deixar minhas atividades. É que ouvira certos sons estranhos, repetidos de um a outro extremo de uma rua: tratava-se simplesmente de uma mudança. Cada negro levava um móvel, pequeno ou grande, conforme sua escolha ou conveniência; todos corriam juntos, repetindo uma ou duas sílabas, acompanhadas de sons guturais." E prossegue: "... na esteira da longa fila (formada de cinqüenta negros) vinha, gravemente conduzido por seis homens, um piano de cauda; à frente, um deles fazendo de chefe de orquestra, empunhava uma cabaça cheia de pedrinhas; com esse instrumento, o negro marcava, alegremente, o compasso. O piano era levado nas cabeças, sem qualquer auxílio das mãos, hábito generalizado entre os pretos".

Aliás, esse modo sonoro de conduzir carga não era exclusivo dos carregadores de pianos. O pastor metodista Daniel Kidder - que andou pelo Basil em 1837 ou 1838 - relata assim o que viu e ouviu também nas ruas do velho Rio de Janeiro: "Os carregadores de café andam geralmente em magotes de dez ou vinte negros sob a direção de um que se intitula capitão. São em geral os latagões mais robustos dentre os africanos (...) Cada um leva na cabeça uma saca de café pesando cento e duas libras e, quando todos estão prontos, partem num trote cadenciado que logo se transforma em carreira". E prossegue nas suas Reminiscências de viagens e permanência no Brasil (São Paulo, Livraria Martins, 1940, p. 47): "Sendo suficiente apenas uma das mãos para equilibrar o saco, muitos deles levam, na outra, instrumentos parecidos com chocalhos de crianças, que sacodem marcando o ritmo de alguma canção selvagem de suas pátrias distantes". E, afinal, confessa o pastor norte-americano: "Não é fácil ao forasteiro esquecer a impressão que lhe causa o alarido confuso de centenas de vozes simultâneas".

Mário de Andrade - um dos mais seguros folcmusicista do Brasil - registrou, durante um curso de História da Música, dado no Conservatório de São Paulo, o seguinte Canto de trabalho de carregadores de pedra: "...os trabalhadores, quando tinham que carregar as pedras pro emparedamento do canal (Salto do Itu), respondiam em coro apenas o refrão ôi, justo no momento em que faziam o esforço pra tração da pedra:

Ai pedrinha vai...
- ôi!
Vai devagarinho...
- ôi!
Vai bem de mansinho...
- ôi!
Lá pro lugarzinho.
- ôi!

Esse ôi, por vezes se substitui por outra interjeição como, por exemplo, o hum! que se vê (e se ouve) neste outro canto de trabalho, colhido em Pernambuco por Mário de Andrade que lhe fixou letra e música Ensaio sobre a música brasileira (São Paulo, Livraria Martins, 1962, p. 86). Esta é a letra:

Eh, companheiro, hum!
Eh, levanta pedra, hum!
Eh, lá vem ela, hum!
Eh, (es)tá pesada, hum!
Eh, bota força, hum!
Eh, lá vem ela acolá, hum!
Eh, companheiro, hum!
Eh, puxa pedra, hum!

No mesmo livro, à mesma página, Mário de Andrade registra outro canto, ouvido na "Capital Federal". É uma toada de pedreiros, de apenas um verso, repetido muitas vezes na toada musical: Oi!/Oi, a moreninha, oi!

Mais abaixo estão os dois textos musicais, o pernambucano e o carioca.

De São Paulo, Pernambuco e Rio de Janeiro passemos ao Espírito Santo, pois aqui também se entoam ainda velhos cantos de trabalho.

Por ocasião do Festival Folclórico levado a efeito em Conceição da Barra (fevereiro de 1958), depois de saborearmos os quitutes de amendoim e milho, feitos na hora, por dona Mariquinha Guimarães, dela ouvimos, então, uma cantiga de trabalho: de mão de pilão em punho, a socar amendoim torrado, ela cantou quase sem parar:

Pisa, pisa, (ou soca, soca)
Meu bem vai pisando (ou socando)
Cabelo de nêgo vai avoando

Pisa, pisa,
Meu bem vai pisando
Cabelo de nego vai avoando...

O professor Renato Pacheco - presente também ao ato de pisar ou socar o amendoim, registrou o trabalho e o canto da Mariquinha (Joaninha) em seu bem lançado livro A oferta e o altar (1ª ed. Rio de Janeiro, GRD, 1964; 2ª ed. Rio de Janeiro, Expresão e Cultura, 1973, p. também 29). Eis o tópico: "Uma voz rouca, quase masculina, canta alegremente:

Pisa, pisa,
Meu bem vai pisando
Cabelo de nego vai avoando...

Quatro horas da manhã, Joaninha, de pé, mói o milho com que, ano após ano, faz o muxá que alimenta, com o café da manhã, a maioria das famílias areenses (barrenses)."

Vem a propósito, creio, associar aos cantos de trabalho - trabalho de fato - aquela toada que anotamos, lá por 1945, em São Mateus, durante a representação da marujada esta sob a direção de mestre Manuel Sapucaia. No momento em que os marujos fingem que puxam os ferros, ao ouvirem a voz de comando do mestre-patrão: Oulá da marujada! Puxar os ferros!, o coro canta:

Ó mano, ó mano, ó mano
Ó puxa, ó puxa, ó puxa!
Olha o ferro nós já puxemos
Toca, toca a largá!

Esses versos o coro repete muitas vezes, enquanto dois ou três marujos intercalam trovas.

Não fique sem registro, aqui, o que cantam as rendeiras de Guarapari, cujas rendas são tão famosas. Entre as trovas que entoam trabalhando ("bendito o trabalho que se faz cantando!") transcrevo algumas, ali recolhidas, em agosto de 1952, por um grupo de alunas do Colégio do Carmo. Por sugestão nossa, fizeram elas curiosa pesquisa sobre rendas de almofadas ou de bilros e, então, anotaram estes versos que ouviram cantar a várias rendeiras em seu trabalho:

Tiro renda e boto renda
Faço renda na almofada
Por causa de meu benzinho
Não faço renda nem nada...

Estou fazendo esta renda
Pra buscá e ganhá dinheiro
Pra comprá um par de pente
Pra botá no meu cabelo

Esta almofada me mata
Estes bilros me consome
Os alfinetes me mata
A renda me tira a fome...

Repito: Bendito o trabalho que se faz cantando!...


[1980]


(NEVES, Guilherme Santos. Folclore, dezembro de 1980)

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