| Uma figura antiga que até hoje
permanece vendendo fumo e rapé há 54 anos - Um prêmio da loteria de Sergipe - Setenta e
dois anos bem vividos
Seu Bio é apelido. Aliás apelido de todos os Severinos. Como a maioria dos Severinos,
seu Bio nasceu em Paudalho, cidade vizinha da localidade denominada São Severino dos
Ramos.
Geralmente as gestantes fazem a promessa a São Severino de batizar o filho esperado com o
nome do santo, caso ele nasça sem complicações. Eis a razão por que, em Paudalho,
noventa e nove por cento da população se chama Severino ou Severina, assim como no
Ceará, quem não se chama Raimundo, é Cícero...
Voltando, porém, a seu Bio, vemos que ele é um "tipo do Recife antigo" que
veio atravessando o tempo, durante mais de meio século, chegando a ser um tipo de hoje
nos seus bem vividos 72 anos.
Desde 1898, quando casou, começou ele a negociar com cigarros, charutos, fumo em rolo e
rapé. O uso do rapé está desaparecendo. Um ou outro tipo, conservador dos costumes de
antanho, ainda toma suas pitadas, como o meu velho confrade do Instituto Arqueológico
Mário Melo, o Astrogildo e outros que usam seu cornimboque e fungam suas boas pitadas de
rapé ou "torrado".
Sete mil réis... por semana
- Quando eu me casei, em 1898, comecei a negociar com fumo, - conta o próprio seu Bio. -
Lembro-me de que o governador do estado era o doutor Segismundo Gonçalves e o prefeito
implicava com a minha barraquinha de fumo, mandando que eu saísse da frente do Teatro
Santa Isabel. Obedeci e fui para a rua da Aurora, em frente à antiga estação da
maxambomba, de Olinda. Dali fui, outra vez, intimado a sair, vindo, por fim, para a rua
das Florentinas, nos fundos do Liceu de Artes e Ofícios, onde fiquei até hoje, pagando
os impostos, já se vê, à prefeitura.
Quando me casei, minha féria, por semana, eram sete mil réis, pouco mais de dez tostões
por dia, porque não trabalho nos domingos. Sou católico e praticante e franciscano da
Ordem Terceira.
Um prêmio na loteria
Relembrando o passado, seu Bio ainda nos contou, sentado no interior da sua barraquinha:
- Certo dia, apareceu na minha barraca um bilheteiro vendendo bilhetes da loteria de
Sergipe. Eu nunca fui amigo de jogo; mesmo estava com muito pouco dinheiro para arriscar,
comprando bilhetes de loteria que sempre saem... brancos... Isso de "sorte
grande" é uma coisa que sai sempre... aos outros. Acontece, porém, que o bilheteiro
ainda era mais pobre e necessitado do que eu. Com a intenção de o ajudar eu comprei um
dos bilhetinhos e não pensei mais no caso. No dia seguinte, pela manhã, o bilheteiro
voltou à minha barraca para me dizer que meu bilhete tinha sido premiado com... dez mil
réis... Esse dinheiro chegou a tempo, porque o que na véspera eu tinha já se acabara.
Gratifiquei o pobre bilheteiro com dois mil réis e guardei oito, tendo sido aquilo, para
mim, uma verdadeira "sorte grande"!...
Pitadas de graça
Na barraca de seu Bio há sempre um grande cornimboque, cheio de bom rapé à disposição
dos fregueses e dos simples transeuntes, que todos são seus amigos.
De momento a momento chega um e o saúda:
- Bom dia, seu Bio!...
- Bom dia, amigo!...
- Vou tomar uma pitada...
- Tira, meu cabôco, tira...
E o cabôco amigo tira sua pitada... de graça, com a qual entope as narinas e sai
dali respirando pela boca, quando não dá dois ou três espirros, o que dizem todos, é
muito bom para dor de cabeça ou para "constipação"...
Negócio à base de confiança
Seu Bio tem absoluta confiança nos seus fregueses, tanto assim que, raramente, pega em
dinheiro. O freguês chega, tira a mercadoria que deseja adquirir, pergunta o preço e
põe a importância em dinheiro, dentro de uma caixinha que está ali aberta. Se é
preciso trocar o dinheiro o próprio freguês faz o troco, tirando da caixinha a quantia
necessária, sem que seu Bio vá conferir se está certo. Ele é incapaz de enganar quem
quer que seja e crê que toda gente assim é também. Ou, pelo menos, deve ser honesta,
como ele é e sempre o foi. Ninguém, entretanto, o engana.
Deixo aqui os traços modestos de um humilde homem do povo, comerciante, e que se tornou
muito popular entre esse mesmo povo, trabalhando, durante 54 anos, no mesmo ramo de
negócio, fazendo de cada freguês um amigo e de cada amigo um admirador das suas
qualidades de homem honesto e trabalhador.
Se, por acaso, seu Bio tiver oportunidade de ler estas linhas, muito surpreso ficará, por
certo, ao ver que uma simples palestra sua foi assunto para uma crônica, em que sua
figura é comentada com a simplicidade da vida operosa e modesta. Só falta terminar com a
pergunta:
- Posso tirar uma pitada, seu Bio?
Ao que ele responderia, como sempre:
Tira, meu cabôco; pode tirar.
[1953-1954]
(WANDERLEY, Eustórgio. Tipos populares do Recife antigo)
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