Março
2001
Ano III - nº 31 |
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Como um bom matuto, nascido e crescido
entre canaviais, vou contar como se fabrica o açúcar nos engenhos banguês.
Machucada a cana entre as moendas, o caldo esverdeado e espumoso vai ter ao parol e deste
passa para o assentamento, por meio de uma bica.
O assentamento consta de cinco tachas: a primeira, que recebe o caldo, tem o nome de vaso
morto. A segunda é a caldeira. A terceira é o caldeirote. A quarta e a quinta são as
tachas de boca, ou cozimento.
O vaso morto, como já disse, é a primeira tacha de assentamento. De um lado recebe o
caldo que vem do parol, do outro lado recebe os resíduos da depuração das outras
tachas. E é isto que dana o vaso morto: ver-se reduzido ao papel de vaso-de-noite...
Devido a esse fato, ele guarda rancor terrível a tudo e a todos. O seu aspecto é de um
cangaceiro opilado e mau, sempre pronto a dar, por dez mil réis, um tiro nas costas de um
pobre cristão.
Enquanto todas as outras tachas fervem, o vaso morto se conserva imóvel, com sua
superfície calma, coberta de espuma suja como uma saliva grossa, estando a receber sempre
caldo frio do parol. Parece que todo ele é frio, mas ai de quem for meter as mãos nas
profundezas do ventre!
O José Clementino, que conte: uma vez, no engenho, já passava da meia-noite. Estava-se
terminando a derradeira meladura. No sótão de vigia, o senhor do engenho cochilava. Na
casa da caldeira, seu Zé Nunes, o mestre do açúcar, também cochilava, sentado no
único banco que havia.
O José Clementino, o caldeireiro, vulgarmente conhecido por seu Zé Magro, entendeu de
dormitar também um pouquinho, e assim, estendeu-se ao longo da borda do assentamento. No
meio da soneca, tibungo! - uma das pernas descambou para o vaso morto.
- Que foi isso? - perguntou do sótão, o senhor, que ouvira o ruído.
- Não foi nada, seu capitão! - respondeu Zé Magro, reprimindo um gemido. - Fui eu que
meti o pé no vaso morto.
- Queimou-se?
- Não, senhor, o caldo está frio.
Mas no outro dia, que era sábado, quando o Zé Magro apareceu na casa grande para fazer
as contas da semana, mostrava a todos a traição do vaso morto: a perna esquerda até o
joelho estava sob um fundo vermelho, cheio de bolhas, como bexiga de peste.
Nessa tarde de minha infância, tarde de moagem, tarde de verão, doce e luminosa, eu me
achava encarapitado no picadeiro, já havia chupado uma cana e preparava para descascar a
segunda.
Devo dizer que chupar cana no alto do picadeiro era prerrogativa dos filhos do senhor do
engenho ou dos meninos da casa grande. Moleque ou filho de caboclo que tivesse o desaforo
de se escarranchar sobre os feixes de cana, levava do feitor um puxavão de orelha.
Mas, continuando a estória, eu ia descascar a segunda cana, quando parei assustado. Por
todo o engenho pairou um ruído estranho, muito semelhante ao buzinar dos automóveis de
hoje. Porém, nesse tempo, em que ainda não se conheciam automóveis, o ruído se
apresentava fantástico e apavorante.
Parou repentinamente toda a atividade no engenho e os trabalhadores, debruçando-se no
paredão em forma de parapeito que dava para a casa da caldeira, exclamavam aterrorizados:
- O vaso morto está gemendo!
Eu vi que logo depois no alpendre da fornalha se formava um ajuntamento. Para lá me
dirigi e notei que se comentava o gemido do vaso morto.
- É o senhor do engenho que vai morrer! Coitado, já está tão velho!
Isso dizia uma negra, atentamente ouvida num grupo de cambiteiros e carreiros.
Irrompi como um foguete pela apendrada, interrogando com desassossego:
- Quem vai morrer, quem é?
A negra que falava, ao me ver, procurou mudar de assunto.
- Não é ninguém daqui, seu moço. Nós estávamos nos ocupando de mestre Silvestre do
Queimado, o qual, segundo nos disse seu Izé Almocreve, se acha muito doente.
Eu compreendi que me ocultavam algo e me retirei muito aborrecido.
Ao chegar junto ao forno da louça, passei pela mulata Chica:
- Então, Chica, que é que está dizendo essa gente?
- Pois seu moço, não sabe que quando o vaso morto geme é porque alguém da casa grande
vai morrer?
E repetiu a afirmativa da preta velha:
- É o senhor do engenho quem vai morrer, coitado, já está tão velho!
Subi ao sótão da vigia. Meu tio-avô, o senhor do engenho, um velhinho de quem diziam
bem, estava muito pálido e, com um lenço de alcobaça, limpava o suor que lhe inundava a
fronte. O seu rosto cor de tijolo estava agora da cor de vera velha.
- Por que o vaso morto gemeu, vovô?
- É o cascalho que tem no fundo. Amanhã vou mandar fazer a limpeza.
E sua voz tremia ao dar a explicação.
Oito dias depois, na sala principal da casa grande, estendido num sofá, amortalhado no
hábito de São Francisco, o tio-avô jazia morto, muito lívido, hirto e frio.
Em torno, a família chorava, e as mulheres dos moradores entoavam benditos.
Da igrejinha vinham ruídos ásperos de pás e enxadas que cavavam o túmulo e, pela
noite, rolavam lastimosamente os sons do sino que dobrava a finados.
(BRANDÃO, Alfredo. Crônicas alagoanas. Maceió, Casa Ramalho Editora, 1939, p.
133-138. Em DANTAS, Paulo (org.). Estórias e lendas do norte e nordeste) |
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