Março
2001
Ano III - nº 31 |
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A aposta
(Lenda narrada por Apolinário Lili e traduzida por Jair de Oliveira)
Conta-se que num certo lugar, entre a tribo terena, houve uma aposta entre o iawáou [1]
e a kipaoé [2].
Iawaóu desafiou-a: quem seria o primeiro a divisar o nascer do sol?
A ema, garbosa pelo seu tamanho, disse:
- Não tenha dúvida, vamos apostar!
Foram até um lugar determinado. A kipaoé virou-se para o nascente. Por seu lado, o
iawaóu virou-se para o poente. E ficaram, em pé, esperando; procurando descobrir onde
nasceria o sol, já em plena madrugada.
Acontece que o iawaóu estava divisando bem de longe uma altíssima montanha. E a kipaoé,
não lhe percebendo a inteligência, mexia-se, espichava o pescoço, pensando ser a
primeira a vislumbrar o astro dourado.
Qual não foi sua surpresa ao ouvir do iawaóu estas palavras:
- Kipaoé, já nasceu o sol?
- Não, não nasceu! - respondeu a kipaoé.
- Pois já nasceu! - respondeu o iawatóu. - Já o vejo!
- Não é possível! - retrucou a kipaoé, aflita.
- Olhe para cá! - pediu o iawatóu.
Virou-se, e o iawatóu apontou o clarão entre as montanhas, pois ali já brilhavam os
raios do sol.
A kipaoé perdeu a aposta e ficou provado, assim, que o mais importante é a inteligência
e não a grandura de uma pessoa.
Artimanha
(Lenda narrada por Patrício Lili e traduzida por Jair de Oliveira)
Em um grupo da tribo terena correu a lenda de que um dia o nhunhaé [3] fizera uma aposta
com o ucué [4].
Quem seria capaz de descobrir o tempo da flor, o tempo da fruta, o tempo das folhas...
O ucué aceitou a provocação.
Como já estivessem no tempo das frutas, e nessa época o nhunhaé se descasca, propôs
que se virassem de costas, permanecendo de olhos fechados.
E assim o fizeram.
Acontece que o nhunhaé, de imediato, largou a casca e começou a sair mata adentro, já
que era tempo de mudar a cobertura do corpo.
Foi alimentar-se nas árvores carregadinhas de frutos e deixou ucué pensativo e de olhos
fechados.
Ocorre que, depois de alguns dias, ucué começou a sentir fome, pois ficara refletindo
sobre o tempo, solitamente. Pensou:
- Mas... o que estamos fazendo aqui?
Resolveu verificar o que o nhunhaé estava fazendo e abriu os olhos lentamente.
Viu o vulto, sem saber que seu conteúdo fugira. Ucué persistiu e ali ficou meditando
mais e mais...
Certo dia, porém, ucué não resistiu mais à fome e abriu os olhos. Que surpresa! Foi
apalpar o corpo de nhunhaé e constatou que era apenas casca. Desolado, ucué se apercebeu
que passara o tempo das frutas e nada mais havia para comer. A única coisa comestível
que sobrara era a chucurió [5]. Resolveu devorá-lo.
Ucué viu que chucurió estava se sensibilizando pelo que lhe falava e continuou:
- Como você é lindo, chucurió! Ao piscar os olhos, você se parece com seu pai. Pisque
para eu ver!
Chucurió fechou os olhos, e... zás!; foi preso pelo ucué.
Quando chucurió viu que fora agarrado, ouviu estas palavras:
- Vou lhe devorar, você é minha janta.
- Não faça isso, sei onde há fartura de comida.
- Onde? - perguntou o ucué.
- Lá na baía! - respondeu chucurió - Ali as lavadeiras levam comida em grande
quantidade. Levo você lá.
Porém, o ucué não o soltou. Quando se aproximavam da baía, chucurió disse:
- Sabe de uma coisa? Você ouve o que elas estão dizendo?
- Não! - respondeu ucué, intrigado.
- Elas estão pedindo para que você bata palmas, para poder chegar lá.
- Mas eu não ouvi nada! - argumentou o ucué.
As mulheres conversavam na baía, no seu trabalho. Chucurió continuou insistindo:
- Bata palmas, ucué! Elas estão pedindo.
Quando ucué foi bater palmas, o chucurió foi embora, mata adentro.
Por isso, o ucué uiva pelas noites afora, pela fome que ainda sente, desde aquela aposta
com nhunhaé.
Notas:
[1]. Caracol
[2]. Ema
[3]. Lagarto
[4]. Lobinho
[5]. João-de-barro
(FERNANDES, José; BATSTA, Orlando Antunes. Lendas
terena e kadiwéu) |
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