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Março 2001
Ano III - nº 31

CIRCO DE CAVALINHOS

Dos circos de cavalinhos ou de bulantins, dos sempre lembrados tempos da nossa quadra infantil, um personagem, por sinal, muito popular e admirado, e porque, não dizer, querido mesmo, ficou indelevelmente gravado no fundo do nosso coração e dele, francamente, temos saudades.

Referimo-nos ao palhaço.

Aquela figura burlesca de cara pintada que à tarde, montado a cavalo, andava pelas ruas anunciando o espetáculo e à noite, no picadeiro, nos fazia rir à vontade com seus ditos e momices.

Em dias de função, ao cair da tarde, trajando espalhafatosa indumentária e cavalgando às avessas, isto é, de costas voltadas para a frente da montaria, saía o palhaço para cumprir sua missão.

Como por encanto, de todos os lados surgiam crianças e às vezes taludos mesmo, que a cada instante engrossavam o barulhento e heterogêneo cortejo.

O préstito bufo, cada vez mais numeroso, percorria quasi toda a cidade, alertando e animando-a para a função.

Uma vezes cantando, outras não, ao que a turma em coro respondia, o palhaço ia fazendo o seu anúncio.

São do nosso tempo, o que vamos recordar.

- Hoje tem espetáculo?

- Tem, sim, senhor.

- Às oito horas da noite?

- É, sim, senhor.

- Hoje tem marmelada?

- Tem, sim, senhor.

- É de noite e de dia?

- É, sim, senhor.

- Aproveita moçada.

- Dez tostões não é nada.

- Sentadinho na bancada.

- Para ver a namorada.

- O palhaço o que é?

- É ladrão de mulher.

- E a moça na janela?

- Tem cara de panela.

- E a negra no portão?

- Tem cara de tição.

- A criança que chora?

- Quer mamar.

- E a moça que namora?

- Quer casar.

- Hoje tem forrobodó?

- Tem, sim, senhor.

- É na casa da tua avó?

- É, sim, senhor.

- Hoje tem arrelia?

- Tem, sim, senhor.

- É na casa da tua tia?

- É, sim, senhor.

- É de perna de pau?

- É de blau-blau-blau.

- O batuque na cozinha

- A sinhá não quer.

- E por causa do batuque?

- Eu queimei meu pé.

(cantando)
- Papai, mamãe, venham ver titia.

- Tomando banho de água fria.

(cantando)
- Papai, mamãe, venham ver vovó.

- Tomando banho de água só.

(cantando)
- Papai, mamãe, venham ver Loló.

- Tomando vinho com pão de ló.

- O raio de sol suspende a lua.

- Por causa do palhaço que saiu à rua.

- O sino da matriz já bateu seis horas.

- Coitado do palhaço que já vai embora.

- Viva a rapaziada sem ceroulas.

- Vivaaaaaaaaaaaaaaaas...

Quando regressavam, nos fundos do circo havia um "peludo", assim crismados pelo vulgo, os empregados, o qual era encarregado de marcar os acompanhantes do palhaço.

Consistia esta marcação, em fazer na testa de cada, determinado sinal com tinta preta ou branca. Servia esta marca, para à noite, dar ao seu portador, livre ingresso ao espetáculo.

Radiantes voltavam todos para casa, conservando religiosamente a marquinha, bem no centro da testa. Quando tentavam apagá-la ou o faziam, era motivo de demorado choro ou solenes taponas.

Verdadeiro ato de heroísmo praticavam os que tinham a ousadia de penetrar no recinto do circo, entrando por debaixo do pano.

Além de alta cerca de arame, tinham os penetras que enfrentar, às vezes, cachorros e quase sempre, as alentadas varadas dos encarregados da vigilância externa.

Inesquecíveis tempos aqueles, em que crendice generalizada entre o povo era, que a chegada do circo de bulantins, representava sinal certo de mau tempo e chuvas...


São Francisco do Sul, julho de 1956.


(SILVEIRA, O. Em Boletim da Comissão Catarinense de Folclore.)

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