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Março 2001
Ano III - nº 31

CIRCO DE "BOLANTINS"

Uma das mais antigas formas de distração de que o povo sempre gostou foi a do "circo de bolantins", "circo de cavalinhos", nomes populares dados a essa esplêndida distração que é a instituição circense, percorrendo as cidades, enfeitando as noites com acrobacias, luzes, ribaltas improvisadas, canto, teatro, animais domesticados enfim tudo aquilo que oferece um espetáculo não raro inesquecível.

Dizem que o circo morreu. Não é verdade. Basta revê-lo agora nos vídeos das televisões para se aquilatar da sua vitalidade. Ele teve que assumir em outras formas, abandonar os picadeiros, os barracões de lona para retomar a sua alta finalidade educativa e provocadora de suspense e hilaridade noutro local - nos estúdios de televisão.

Ainda pelo interior do Brasil algumas companhias circenses nesse afã heróico percorrem cidade por cidade.

Saiu pela rua, à tarde, um palhaço, acompanhado pela criançada, um magote de quinze meninos. O palhaço ia anunciando o espetáculo, cantando, e a "rabacuada" respondendo:

- Eu vi a negra na janela, - respondem os meninos em coro:

- Tinha cara de panela.

Solo: - Eu vi a negra no portão.

Coro: - Tinha cara de tição.

Solo: - Hoje tem espetáculo?

Coro: - Tem, sim, senhor.

Solo: - Hoje tem marmelada?

Coro: - Tem, sim, senhor.

. . . . . . . .

Solo: - Hoje tem forrobodó?

Coro: - Tem, sim, senhor.

Solo: - Na casa da sua avó?

Coro: - Na sua!... Na sua!

Os moleques que saíram a cantar pela rua atrás do palhaço receberam no braço uma marca de tinta-óleo. Tal marca seria mostrada à noite ao porteiro do circo, assim o portador teria ingresso gratuito ao espetáculo. É a recompensa do trabalho de sair gritando pela rua, acompanhando o palhaço.

- O palhaço o que é?

- É ladrão de mulé!

- O palhaço é bão?

- Pra comê com feijão.

- O raio de sol suspende a lua...

- Brabo palhaço que tá na rua...

A farândola alegre passa e mal se ouve o resto da propaganda do spetáculo que à noite reunirá os ämarra cachorro" mal ajambrados dos dólmãs ou "casaca-de-ferro", a correr de um canto para outro ou imóveis quando a companhia entra triunfal para a apresentação inicial do picadeiro: barristas, mágicos, bailarinas, cantores, equilibristas, palhaços, trapezistas. E lá no poleiro, na arquibancada, daremos a melhor das gargalhadas com as piadas dos palhaços e bateremos palma hoje à noite Porque o circo não morreu!

- Hoje tem espetáculo?

- Tem, sim, senhor.


[1973]


(ARAÚJO, Alceu Maynard. Cultura popular brasileira)

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