Março
2001
Ano III - nº 31 |
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Com o nome de maculelê existe em Santo Amaro, Bahia, um jogo de
bastões (esgrimas) remanescente dos antigos cucumbis.
Manuel Querino já o registrava como parte dos cucumbis, escrevendo que os figurantes
levavam grimas,cacetes de 30 centímetros de comprimento, que, "no final de
cada estrofe, se cruzavam dois a dois". As esgrimas de agora são os mesmos grimas
de Manuel Querino, mas as suas batidas não cobrem apenas os intervalos do canto: dão,
mais do que as caixas e os pequenos atabaques, o ritmo fundamental dos meneios de corpo
com que se executa o jogo.
Os cucumbis, como os caboclinhos do nordeste e os caiapós de Minas Gerais e São Paulo,
eram autos negros em que os personagens, à maneira angolense, se enfeitavam de penas e
peles de animais e arcos e flechas; mas, em face da repercussão popular dos movimentos
nativistas e da literatura indianista, e em especial da extinção do tráfico negreiro,
passaram com o tempo a figurar o selvagem nativo. O folguedo desapareceu, na Bahia, mas o
jogo de bastões, que constituía um dos seus episódios, permaneceu e se tornou
autônomo.
Como jogo de bastões o maculelê tem marcado parentesco com muitas danças nacionais - o
moçambique de São Paulo, a cana-verde de Vassouras, o bate-pau de Mato Grosso, o vilão
de Santa Catarina, o tundundum do Pará...
Entretanto, perdida a ligação estrutural com o auto primitivo, o maculelê tornou-se uma
área de confluência das mais diversas manifestações populares. Está em constante
ebulição. Uma primeira transformação, que lhe deu inconfundível cor local, foi a
simulação do combate, não coletivo, mas singular. O atacante, que pode pelejar à
vontade, até com dois e três, usa apenas um bastão, enquanto o atacado se vale de dois
bastões, que habitualmente cruza no ar para defender-se. Da bateria do maculelê já não
fazem parte os paralelepípedos, notados por Darwin Brandão em 1948. Sob a forma atual
parece o maculelê um candomblé de caboclo dançado com bastões. O jogo inicia-se com a
toada
Deus vos salve, casa santa
Onde Deus fez a morada...
que faz parte do hinário católico, mas também inicia, obrigatoriamente, as cerimônias
públicas desses candomblés. As canções, os toques e o jeito de dançar - os requebros
com flexão dos joelhos e movimentos predominantemente para fora do círculo - são os
mesmos de uma aldeia de caboclos. O interesse despertado pelo maculelê nos
últimos anos deu unidade aos poucos grupos que o jogavam (entre os quais o mais célebre
era o do negro Popó), que agora se apresentam, uniformizados, em festas e solenidades
públicas na Bahia.
Liga-se o maculelê, como folguedo popular, à novena da Senhora da Purificação,
padroeira de Santo Amaro, e à festa que a arremata, a 2 de fevereiro, um dia de extraordinário
colorido em todo o Recôncavo Baiano.
(CARNEIRO, Edison. Folguedos Tradicionais) |
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